A Concepção Do Que É Leitura E Escrita Se Transformou - Concepção de alfabetização na aprendizagem da leitura e escrita
Concepção de alfabetização na aprendizagem da leitura e escrita

O que mudou na leitura e na escrita — e por que muita coisa continua dando errado na prática

A concepção do que é leitura e escrita se transformou de forma brutal nas últimas décadas, mas o sistema educacional brasileiro ainda leva um tempo enorme para acompanhar essa mudança na ponta. Eu trabalhei com formação de professores durante anos, vi de tudo nessa área, e a sensação é que a gente corre uma maratona enquanto a escola ainda está acertando o cinto de segurança.

A concepção do que é leitura e escrita se transformou — e isso não é conversa fiada

Vamos começar pelo básico, porque muita gente ainda pensa nisso como se fosse pura decodificação. Não é. A leitura, tal como hoje entendemos nos estudos de alfabetização, é um processo de construção de sentido que envolve conhecimento prévio, contexto cultural, propósito e interação com o suporte. A escrita é o outro lado da mesma moeda: não se trata apenas de colocar as ideias no papel, mas de compreender que existem diferentes gêneros discursivos, diferentes leitores, diferentes finalidades comunicativas. O que mudou foi a passagem da visão psicognóstica, que focava em estágios de desenvolvimento da criança, para uma visão mais amplificada que inclui a letramento como prática social. Empréstimo teórico dos trabalhos de Magda Soares e do campo dos Estudos de Literacia. A criança não aprende a ler para depois usar a leitura. Ela aprende a usar a leitura para aprender.

Isso parece simples quando você lê na teoria. Na prática, é onde mora o problema. O conceito de letramento digital também entra nessa equação agora. Um estudante que navega por TikTok, responde no Instagram, lê thread no X e depois disserta uma redação de ENEM está usando competências diferentes para acessar e produzir texto. Nenhum desses modos substitui o outro. Todos exigem habilidades distintas de interpretação e produção. O currículo escolar, porém, geralmente ancora tudo na dissertação tradicional e deixa o resto de fora.

Como eu vi isso funcionando — e onde a coisa trava

Numa formação que fiz com professores do ensino fundamental em Minas Gerais, em 2019, apresentei uma sequência didática que trabalhava a análise de memes e legenda de vídeo como objeto de estudo de língua portuguesa. O resultado foi interessante. Dois terços dos alunos se engajaram de forma notável. Eles produziam análises agudas sobre ironia, intertextualidade e estrutura argumentativa nos textos das redes. O problema veio quando precisei transpor esses resultados para a avaliação formal. Não havia gabarito. Não havia rubrica consolidada. A secretaria de educação local não reconhecia aquelas competências como válidas para nota. Eu terminei usando o velho formato de dissertação, mas com o tema puxado do universo deles. Funcionou. Mas a frustração ficou. A avaliação em larga escala no Brasil ainda é estruturalmente desenhada para medir habilidades que não correspondem ao que o estudante realmente pratica fora da escola.

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Outro ponto que vejo todo dia: a formação continuada. Professores chegam na sala de aula com uma carga horária que não permite atualização constante. Eles sabem que a concepção mudou, mas recebem material defasado, provas padronizadas que não refletem a diversidade textual contemporânea, e ainda precisam lidar com salas de 40 alunos para trabalhar autonomia leitora. Isso não é problema deles. É problema do sistema.

O que a pesquisa mostra sobre o que funciona

Os dados da PISA apontam consistentemente que países com melhores resultados em leitura são aqueles que tratam a leitura como prática social desde os anos iniciais. Não adianta só ensinar fonemas. A criança precisa entrar em contato com textos reais, com propósito real, desde cedo. A variação linguística também entra aqui de forma crucial. Um aluno que chega à escola falando português variante não é um aluno com déficit. É um aluno com repertório. O trabalho pedagógico precisa levar isso em conta, e não tratar a variante como erro a ser corrigido. A relação entre volume de leitura e desempenho é bem documentada. Estudantes que leem com frequência, mesmo que em formatos informais, tendem a performar melhor em todas as áreas, não só em língua portuguesa. Isso inclui matemática. O mecanismo é o mesmo: compreensão de texto, inferência, raciocínio lógico aplicado a informação escrita. Quanto mais o aluno lê, melhor ele fica em processar qualquer tipo de texto.

Existe um viés importante nesse cenário que poucos discutem abertamente. A concepção atual de leitura engloba também a literacia visual e a multimodalidade. Tabelas, gráficos, infográficos, mapas mentais, vídeos explicativos — tudo isso é texto num sentido ampliado. E ainda assim, a maioria dos materiais didáticos brasileiros trata imagem e verbo como coisas separadas. O resultado é que o aluno aprende a ler um parágrafo mas não consegue interpretar um gráfico combinado com legenda. Isso aparece nos exames com frequência.

Alternativas e limitações

Se você está procurando mudar a forma como trabalha isso na prática, o caminho mais acessível passa por três coisas: diversidade textual, projeto editorial da sala e avaliação formativa. Traga para a sala de aula textos que circulam socialmente. Reportagens, artigos de opinião, crônicas, letras de música, manuais, tutoriais, roteiros de vídeo. Crie um acervo real, não apenas os livros didáticos. E avalie o processo, não apenas o produto final. O problema é que isso exige tempo de planejamento e investimento em coleção. Escolas públicas, em sua maioria, não têm orçamento para isso. As alternativas gratuitas existem — Portal do Professor do MEC, Biblioteca Nacional Digital, projetos como a Escola da Vila produzem materiais abertos — mas a acessibilidade e a curadoria competencial são barreiras reais. Muitos professores simplesmente não conseguem filtrar o que é confiável e o que é conteúdo produzindo ruído.

Também é preciso ser honesto sobre os limites dessa abordagem. Trabalhar com letramento crítico e multimodalidade funciona bem em turmas menores, com grupos entre 20 e 25 alunos. Em turmas acima de 35, a gestão do tempo e a mediação individualizada ficam comprometidas. Não adianta romantizar. Existem contextos em que o ensino tradicional, com todo seu valor, ainda é a saída mais viável. O ideal seria um meio-termo, mas o meio-termo exige infraestrutura que a maioria das redes não possui. A transformação na concepção de leitura e escrita é real. Ela já aconteceu na academia, nos documentos orientadores, nas diretrizes curriculares de vários estados. O que falta é a materialização disso na rotina da sala de aula, com recursos, formação e avaliações que façam sentido. Até lá, quem está na ponta improvisa, adapta e espera que o próximo ciclo de mudanças chegue de verdade.