A Importancia Do Ato De Ler Paulo Freire - A Importância do Ato de Ler - Paulo Freire | Livro Resumido
A Importância do Ato de Ler - Paulo Freire | Livro Resumido

Por que ainda lemos Paulo Freire em 2024

A maior parte dos livros didáticos de pedagogia que circulam pelas faculdades de educação começa com uma citação de Freire e termina com um resumo que parece ter sido gerado por IA. A importância do ato de ler paulo freire não está nessa repetição de citações de cabeçalho. Está em algo muito mais chatoso e difícil de justificar em uma banca de defendida: a forma como ele pensa a relação entre alfabetização, consciência política e prática docente. Eu já vi professor formador tentar aplicar o método da problematização em turmas de EJA onde a maioria dos alunos sabia ler, mas jamais tinha sido convidado a opinar sobre o que lia. O resultado foi desastroso. Os alunos ficaram em silêncio. O professor disse que "não havia maturidade". Na verdade, ele não havia construído um ambiente onde o erro era tratado como parte do processo, como Freire propunha. Esse é o primeiro ponto que poucas pessoas entendem.

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Ler Paulo Freire com atenção real exige algo que pouca formação docente oferece hoje: paciência com a circularidade. Ele não apresenta ideias lineares. Ele volta sobre si mesmo. Educação como prática de liberdade, Pedagogia da Autonomia, A Importância do Ato de Ler — são livros que se conversam entre si. Se você ler apenas um, sai com uma receita. Se ler os três juntos, sai com uma ferramenta de análise crítica do próprio exercício de ensinar. O aspecto mais subestimado de Freire é a noção de que ler o mundo precede ler a palavra. Isso não é poesia. É metodologia. Ele quer dizer que, antes de ensinar silabas, o educador precisa mapear o universo lexical do aluno: o que ele já sabe dizer sobre seu cotidiano, sobre o lugar onde vive, sobre as coisas que o preocupam. Sem esse mapeamento, a alfabetização vira transmissão de conteúdo desconectado.

No campo, isso é especialmente doloroso. Já conduzi um curso de formação para alfabetizadores em uma comunidade ribeirinha no interior do Pará. A proposta deles era usar cartilhas padrão do PNLD. Os alunos não se identificavam com nenhuma das imagens nem com nenhuma das palavras. O "boi", a "vaca", a "casa verde" eram conceitos que não apareciam no universo deles. Eles conheciam o "curimatá", o "jarí", o "maniva". O que fizemos foi trocar o repertório. Criamos nossas próprias cartilhas com palavras reais do cotidiano local. O processo de alfabetização ganhou velocidade. Os alunos se envolviam porque aquilo tinha a ver com a vida deles. Isso é metodologia freireana aplicada sem citar Freire. O que é mais comum na prática.

Aqui vai algo contraintuitivo que aprendi na marra: conscientização não é o mesmo que politização. Freire distingue os dois. Conscientização é perceber as condições materiais da própria existência. Politização é agir sobre elas. Muitas vezes, os educadores confundem e querem transformar cada aula em debate político sem antes garantir que o aluno reconheceu sua realidade. O resultado é um discurso vazio. O aluno decorou palavras de ordem, mas não construiu compreensão. A alfabetização vira teatro. Outro ponto que não recebem a devida atenção é o conceito de educação bancária. Todos citam. Poucos sabem aplicar a crítica corretamente. Educação bancária não é apenas dar aula expositiva. É qualquer prática em que o conhecimento é tratado como pacote pronto a ser depositado. Isso pode acontecer até em atividades aparentemente participativas, quando o educador já tem a resposta certa na cabeça e dirige a discussão para lá. Freire critica isso porque mata a curiosidade epistemológica do aluno. Ele quer que o aluno questiona, erra, reformula.

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Há também uma vertente prática que quase todo mundo ignora: a geração de temas geradores. O processo é simples na teoria e extremamente trabalhoso na prática. Você investiga o vocabulário dos alunos, identifica palavras densas do ponto de vista fonético e temático, e a partir delas constrói o currículo. Exemplo clássico: "terra". É uma palavra polissílaba, rica foneticamente, e carregada de significado social. A partir dela, você constrói um ciclo de pesquisa que envolve a comunidade toda. O problema é que isso demanda tempo. Tempos de pesquisa de campo, de conversationas com os alunos, de construção coletiva de material. Escolas públicas dificilmente têm essa folga. Professores trabalham com três turmas, duas disciplinas, burocracia diária. A proposta de Freire pressupõe uma estrutura que raramente existe. Não é falha do método. É falha do contexto.

Quando o método não funciona, a alternativa mais honesta que vejo é adaptar o princípio, não a forma. Se você não consegue fazer pesquisa de temas geradores com toda a rigidez freireana, comece pela escuta ativa. Identifique as palavras que os alunos usam com mais frequência. Construa a partir delas. Isso já é um salto qualitativo em relação à cartilha pronta. Outro erro comum é achar que a alfabetização de adultos é o único campo válido para Freire. Não é. Ele fala de educação em geral, e sua crítica à Neutralidade se aplica igualmente ao ensino fundamental, ao médio, ao universitário. A prática docente em qualquer nível pode ser analisada sob a lente da educação bancária versus a educação problematizadora. A diferença é que, com adultos alfabetizandos, o impacto é mais visível e mais urgente, porque a exclusão letrada tem consequências materiais imediatas: dificuldade de preencher formulários, de compreender contratos, de exercer cidadania plena.

Sobre a leitura em si: Freire defende que ler é um ato de construção de sentido, não de decodificação. Isso significa que o professor que ensina a ler precisa ir além da decodificação silábica. Precisa criar situações em que o aluno tenha razão de ler, motivo real para buscar o significado. Sem esse motivo, a leitura permanece técnica. Com esse motivo, vira ferramenta de autonomia. Se você quer começar a ler Freire, sugiro esta ordem, baseada na minha própria experiência com estudantes e colegas: comece com Pedagogia da Autonomia, que é o mais acessível e reúne práticas concretas. Em seguida, vá para A Importância do Ato de Ler, que desenvolve a reflexão teórica sobre o ato leitor. Por último, leia Educação como Prática da Liberdade, que é o mais denso e exige que você já tenha repertório para não se perder.

A leitura só faz sentido se ela for seguida de ação. Caso contrário, vira mais um conteúdo depositado na cabeça do estudante. E aí, no fundo, o que você estaria fazendo é exatamente o que Freire criticava.