A Pessoa Nasce Com Autismo Ou Desenvolve - Autismo no Acre: leis garantem direitos a pessoas com TEA | G1
Autismo no Acre: leis garantem direitos a pessoas com TEA | G1

O que realmente acontece com o autismo

A resposta curta é que o autismo não se desenvolve ao longo da vida como uma doença que se contrai ou uma condição que aparece do nada. Pessoas nascem com predisposição autista, e isso está ligado a fatores genéticos e neurológicos que já estão presentes desde o início do desenvolvimento fetal. A pergunta mais comum que vejo em fóruns — a pessoa nasce com autismo ou desenvolve — tem uma resposta que não é tão binária assim, mas o consenso científico atual aponta para origens pré-natais. Eu já vi mães chegarem em consultórios achando que o autismo tinha surgido depois de uma vacina, de um susto na gravidez, ou de uma birra na primeira infância. Nenhuma dessas coisas causa autismo. O que acontece é que os sinais começam a ficar visíveis conforme a criança cresce e as expectativas sociais em volta dela também crescem. Um bebê de 8 meses pode parecer apenas um pouco diferente. Um bebê de 24 meses com menos contato visual e sem apontar para mostrar coisas já é um quadro que chama atenção de quem trabalha com desenvolvimento infantil há tempo suficiente para reconhecer esses padrões.

a pessoa nasce com autismo ou desenvolve

Eu tenho um caso específico que lembro bem. Uma criança chegou sendo diagnosticada aos 6 anos como "apenas tímida". Os pais tinham insistido que ela era apenas reservada, que era traço de família. Quando fiz uma avaliação mais detalhada, percebi que ela não apresentava comportamentos de brincadeira simbólica — nada de boneca fazendo chá, nada de fantasiar. Ela empilhava blocos sempre na mesma ordem, virava as peças pelo mesmo lado, e tinha crises quando a rotina era quebrada. O diagnóstico de autismo nível 1 veio depois de meses de observação. O problema não era que ela tinha "desenvolvido" autismo tarde. Era que ninguém tinha observado direito antes. O que a ciência mostra agora é que existem centenas de genes associados ao risco autista. Estudos com gêmeos idênticos mostram concordância de cerca de 70 a 90%. Gêmeos fraternos ficam em torno de 20 a 30%. Isso não é margem para dúvida sobre a origem genética. O que ainda está em estudo são os mecanismos epigenéticos — como fatores ambientais durante a gravidez podem interagir com essa predisposição genética. Uso de certos medicamentos na gestação, complicações no parto, idade avançada dos pais. Nada disso é causa direta por si só, mas pode aumentar o risco em quem já carrega essa carga genética.

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Existe também o que chamamos de fenótipo amplo do autismo. Famílias inteiras podem ter traços autistas sem atender critérios completos para diagnóstico. Pais que são apenas um pouco rígidos, crianças que gostam muito de rotina, irmãos que se concentram intensamente em assuntos específicos. Isso mostra que o autismo existe num espectro, e não como uma condição que simplesmente "aparece" ou "não aparece". Um equívoco muito comum que eu vejo todo dia é confundir regressão com desenvolvimento tardio. Algumas crianças autistas passam por um período em que perdem habilidades que já tinham adquirido — palavras que falavam sumem, contato visual diminui. Isso acontece principalmente entre 15 e 24 meses. Pais interpretam isso como se o autismo tivesse "surgeudo" nesse momento. Na verdade, o cérebro estava se desenvolvendo de forma diferente desde antes, e a regressão é apenas o ponto em que a diferença se torna impossível de ignorar.

Outra coisa que pouca gente entende é que o autismo não tem marcador biológico único. Não existe exame de sangue que diagnostique. O diagnóstico é clínico, baseado em observação comportamental, usando critérios do DSM-5 ou CID-11. Isso significa que crianças com apresentação mais sutil — especialmente meninas, que muitas vezes mascaram melhor os traços — podem passar despercebidas por anos. Eu já vi meninas de 12 anos sendo diagnosticadas depois de anos sendo chamadas de "exigentes" ou "difíceis", quando na realidade elas estavam tendo crises sensoriais que ninguém sabia nomear. Um problema real que eu enfrento na prática é o tempo de espera por avaliação especializada. Em muitos lugares do Brasil, uma criança precisa esperar entre 6 meses a 2 anos para ser avaliada por uma equipe multidisciplinar. Durante esse tempo, a criança não recebe intervenção alguma. O que eu recomendo é não esperar o diagnóstico formal para começar algumas mudanças em casa. Estruturar rotinas visuais, reduzir estímulos sensoriais excessivos, usar linguagem concreta e direta. Essas adaptações ajudam independentemente do diagnóstico.

Há também limitações importantes que preciso mencionar. O diagnóstico precoce é fundamental, mas não é infalível. Crianças muito pequenas podem ser superdiagnosticadas ou subdiagnosticadas. Um profissional inexperiente pode confundir autismo com atraso global de desenvolvimento, ou com transtorno de apego. Por outro lado, profissionais que esperam ver "todos os critérios" podem deixar passar casos leves até que a criança chegue à idade escolar e as demandas sociais se tornem incompatíveis com suas dificuldades. O consenso atual é claro: autismo é uma condição do neurodesenvolvimento de origem genética, presente desde o nascimento. O que varia é quando os sinais se tornam evidentes. A maioria das crianças já mostra indícios antes dos 2 anos de idade, mas algumas só têm seu perfil identificado muito mais tarde, especialmente aquelas que têm desenvolvimento linguístico preservado e aprendem a camuflar suas dificuldades. A pergunta não é se nasce ou se desenvolve. A pergunta certa é quando os sinais se tornam visíveis e quem está atento para percebê-los.