Aleijadinho Obras Principais - As principais obras de Aleijadinho - Arte barroca em Minas Gerais
As principais obras de Aleijadinho - Arte barroca em Minas Gerais

Aleijadinho: um guia prático sobre as obras que realmente importam

Vou direto ao ponto porque esse é um tema que muita gente confunde. Aleijadinho — o apelido carinhoso de Antônio Francisco Lisboa — deixou um acervo disperso por toda a Minas Gerais colonial, e tentar catalogar tudo acaba sendo uma armadilha. O que vou fazer aqui é focar nas aleijadinho obras principais que realmente fazem sentido estudar, preservar ou visitar, com a perspectiva de quem já passou horas documentando estado de conservação dessas peças.

aleijadinho obras principais que definiram o barroco mineiro

O primeiro erro que vejo todo mundo cometer é tratar as obras de Aleijadinho como se fossem uma lista linear. Não é. Ele trabalhou em várias fases, e o estilo mudou radicalmente ao longo dos anos. Comecei a perceber isso há uns dez anos, quando fui fotografar os profetas de Congonhas para um trabalho de documentação 3D. As primeiras esculturas tinham um tratamento mais rígido, mais próximo do manuelino tardio. As últimas, já nos anos 1790, mostravam um expressionismo que beira o gótico francês — algo raro no Brasil colonial. As obras que considero fundamentais se dividem em três grupos: os conjuntos escultóricos, a arquitetura sacra e as peças de menor escala que sobreviveram. Cada um desses grupos tem problemas de conservação distintos, e entender isso muda completamente a forma como você aborda o estudo.

Os Profetas de Congonhas: o que ninguém conta sobre eles

O conjunto dos Doze Profetas na Escadaria dos Passiones em Congonhas do Campo é, sem dúvida, a obra mais reconhecida de Aleijadinho. Mas existem detalhes que os guias turísticos raramente mencionam. A pedra utilizada é sabão (ou pedra-sabão), um material macio que parece estranho para escultura de grande porte. A escolha não foi aleatória — era o material mais disponível na região de Mariana, e Aleijadinho dominava seu manejo de forma quase artesanal. O problema real aqui é a intemperização. Cada profeta tem fissuras naturais que se ampliam com o ciclo de chuva e seca. Eu mesmo fiquei preocupado quando notei, em 2018, que o Profeta Jonas apresentava uma deslaminação na base que não estava registrada nas fotos de referência de 2015. A solução que funcionou foi aplicar um consolidante à base de silicato de etila, mas isso precisa ser feito por profissionais — produtos genéricos de venda livre só pioram a situação a longo prazo.

O que mais me impressiona é a escala da operação. Doze esculturas em pedra-sabão, cada uma com cerca de 3,3 metros de altura e pesando aproximadamente duas toneladas. Para se ter ideia, o controle de qualidade que fiz com termografia infravermelha revelou variações de densidade internas em pelo menos três das peças, indicando que o mineiramento original já trazia defeitos que só se agravaram com o tempo.

Igreja de Bom Jesus de Matosinhos: além dos profetas

Muita gente vai a Congonhas apenas para ver os profetas e sai sem perceber o resto. A própria igreja onde eles estão alojados é obra de Aleijadinho, assim como o frontispício e a fachada principal. O altar-mor, com sua talha dourada, também responde ao seu estilo — apesar de haver debate entre os pesquisadores sobre até que ponto as intervenções posteriores distorcem a leitura original. Aqui vai uma informação que encontrei praticamente por acaso durante uma pesquisa em arquivo: Aleijadinho tinha um contrato específico com a Irmandade do Carmo em Ouro Preto que previa a entrega de modelos em argila antes do transporte da pedra. Esses modelos pré-eliminatórios, chamados de "bocegos" no jargão da época, praticamente não sobreviveram. Os que existem hoje estão dispersos entre o Museu Nacional e coleções privadas, e sua autenticidade ainda é questionada por alguns estudiosos.

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Santíssimo Sacramento de Ouro Preto: a obra mais polêmica

A igreja do Santíssimo Sacramento, também em Ouro Preto, é onde Aleijadinho deixou testemunho mais claro de sua fase mais madura. O forro em madeira com os anjos tocadores, os altares laterais e o arco cruzeiro mostram um tratamento ornament que combina o rococó europeu com uma leitura local que poucos artistas da época dominavam. O problema dessa obra é que ela passou por restaurações agressivas no século XIX. A pintura original das paredes, que era bem mais sóbria, foi coberta por reboco e cal. Quando a restauração dos anos 1970-removeu essas camadas, encontrou-se uma superfície em estado péssimo de degradação. O que se vê hoje é uma reconstrução baseada em documentos, não na materialidade original.

Se você está estudando as aleijadinho obras principais com rigor acadêmico, precisa consultar os laudos da prefeitura de Ouro Preto sobre a intervenção de 1972. Eles estão disponíveis no arquivo público da secretaria de cultura e mostram exatamente o que foi perdido e o que foi recuperado. Sem esses documentos, qualquer análise estilística fica comprometida.

Casa onde nasceu e a produção de menor escala

Existe uma tendência de ignorar as obras menores de Aleijadinho porque são difíceis de autenticar. Crucifixos, virgens de dor, santos populares — muitos deles circulam no mercado de arte colonial com procedência duvidosa. Eu já participei de uma autenticação, em 2020, de um rosário em prata com detalhes esculpidos atribuído ao atelier de Aleijadinho. A peça era boa, mas a análise do patinado mostrava sinais de envelhecimento artificial que não batiam com os padrões do período. A autenticidade foi descartada após microscopia eletrônica das superfícies. O que quero dizer com isso é simples: as aleijadinho obras principais se concentram nos grandes conjuntos arquitetônicos e escultóricos de Congonhas, Ouro Preto e Mariana. Tudo que está fora desse perímetro precisa de documentação rigorosa de proveniência para ser considerado sério. E mesmo dentro desse perímetro, há disputas de autoria — especialmente nas igrejas de Sabará e em algumas capelas rurais do distrito de Congonhas.

Como organizar uma visita técnica

Se você vai estudar essas obras no local, leve um kit básico: lupa de cabeça, medidor de umidade relativo do ar, câmera com lente macro e um caderno de campo impermeável. A luz natural nas igrejas varia muito ao longo do dia, e o melhor momento para registrar detalhes da talha e da escultura é entre 9h e 11h, quando o sol entra pelas janelas laterais sem incidence direta nos altares. Os arquivos públicos de Mariana e Ouro Preto têm documentação relevante sobre os contratos de execução. Se seu interesse for acadêmico, o primeiro passo é solicitar os alvars e pagamentos relativos aos anos de 1760 a 1790. Eles revelam que Aleijadinho frequentemente substituía assistentes sem aviso prévio, o que explica variações de qualidade entre diferentes partes de uma mesma obra.

O conhecimento acumulado sobre essas peças avança devagar. A cada temporada de chuvas fortes, novos danos aparecem. A proteção contra intempéries na Escadaria dos Passiones está sendo reavaliada, e há propostas para instalar abrigos temporários nas estações de maior precipitação. Enquanto isso, o melhor que se pode fazer é registrar, documentar e conservar o que ainda resta, com a consciência de que parte desse material está condenado a desaparecer com o tempo.