Como organizar a alfabetização na EJA na prática
O grande problema que eu vejo todo dia nas salas de EJA é que muita gente tenta aplicar o mesmo modelo usado no ensino regular, só que com adultos mais velhos. Isso simplesmente não funciona. A minha primeira turma, em 2008, tinha 14 alunos entre 45 e 72 anos. A maioria trabalhava como diaristas, zeladores ou vendedores ambulantes. Eu preparei uma aula planejada com sílabas progressivas do método fônico e, no segundo encontro, dois alunos saíram dizendo que era perda de tempo porque queriam escrever o próprio nome e assinar documentos. Fiquei sem aula. A solução que eu encontrei foi mudar completamente a abordagem. Em vez de começar pelo método tradicional, eu fui direto para as necessidades reais: escrever o nome completo, preencher fichas de vacinação, ler contratos de trabalho simples. Isso definiu meu plano para os próximos três meses. Os alunos que antes estavam quase desistindo começaram a voltar com mais frequência porque viam utilidade imediata no que estavam aprendendo.
O desafio real da alfabetização da eja
O que ninguém conta sobre alfabetização da eja é que o maior obstáculo não é a metodologia, e sim a logística. Vou te contar um caso específico que eu enfrentei. Tinhas 22 alunos num turno noturno, das 19h às 22h. A maioria chegava cansada depois de dias inteiros de trabalho. Três alunos tinham deficiência visual não diagnosticada. Um deles, Sr. José, tinha 58 anos e nunca tinha segurado um lápis corretamente porque trabalhava com cerâmica desde os 14. A primeira coisa que eu fiz foi solicitar uma triagem oftalmológica junto à secretaria municipal. Isso ganhou duas semanas de atraso no cronograma, mas salvou o semestre. A segunda dificuldade que eu encontrei foi com a evasão. O índice de desistência na minha turma chegou a 35% no primeiro mês. As razões eram previsíveis: excesso de trabalho, problemas familiares, falta de transporte. Uma aluna, Dona Maria, tinha 62 anos e vivia em área rural. Ela caminhava 4 quilômetros para chegar à escola. Quando começou a chover forte numa terça-feira, ela simplesmente não apareceu mais. Eu fui até a casa dela no sábado, levei materiais didáticos e combinei aulas semanais em casa por um mês. Ela voltou na quarta semana e concluiu o módulo naquela turma.
O que é pouco mencionado é que adultos analfabetos funcionais representam cerca de 40% dos alunos de EJA. Eles sabem ler placas, reconhecer marcas, mas não conseguem interpretar um contracto de trabalho ou preencher um formulário bancário. Essa diferença entre letramento funcional e alfabetização plena exige uma abordagem específica que a maioria dos materiais didáticos convencionais não contempla.
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Metodologia que funciona no dia a dia
Eu comecei usando o método fônico tradicional porque era o que eu sabia. No terceiro mês, percebi que estava perdendo 60% dos alunos para a frustração. A mudança que eu fiz foi adotar uma abordagem baseada em temas geradores extraídos do cotidiano dos alunos. Cada unidade começava com uma situação real: ler um receita médica, interpretar um contrato de locação, calcular troco numa compra no mercado. O que eu descobri foi que adultos aprendem muito mais rápido quando o conteúdo está diretamente relacionado às suas necessidades práticas. Uma aluna, Dona Lúcia, tinha 47 anos e nunca tinha assestado uma cesta de compras. Depois de seis semanas trabalhando com textos funcionais, ela passou a fazer listas de compras sozinha e conseguiu economizar cerca de R$ 80 por mês no supermercado. Ela contou isso pra turma e isso motivou outros alunos a se envolverem mais.
A dificuldade que eu encontrei foi com a avaliação. O sistema oficial pedia relatórios mensais com critérios muito rígidos. Eu adaptei o formato, criando portfólios individuais onde cada aluno documentava seu progresso com exemplos reais: cópias de textos produzidos, registros fotográficos de atividades praticadas, depoimentos gravados. Isso cortou o tempo de preparação de relatórios de 8 horas para aproximadamente 2 horas por mês.
Oportunidades e limitações
O principal problema que eu observei é que materiais didáticos convencionais para EJA foram desenvolvidos sem considerar a realidade dos alunos trabalhadores. O resultado foi que 70% dos recursos disponíveis na plataforma do governo não se aplicavam ao cotidiano dos meus alunos. A solução que eu encontrei foi desenvolver material próprio baseado em documentos reais: contratos de trabalho simplificados, recibos de pagamento, receitas médicas, extratos bancários. A limitação que eu preciso destacar é que esse modelo não funciona para alunos com deficiência intelectual não diagnosticada. Na minha última turma, tinha um aluno de 35 anos com síndrome de Down não diagnosticada. O método baseado em temas geradores não foi suficiente. A alternativa que eu usei foi solicitar avaliação especializada junto à rede de saúde e adaptar atividades com apoio visual e tátil. Isso levou quatro semanas extras, mas garantiu que ele permanecesse na turma.
O que pouco se fala é que a formação continuada dos professores de EJA é insuficiente para lidar com essa diversidade. Eu tive que estudar por conta própria sobre metodologias de letramento crítico e pedagogia da autonomia. O curso de formação que eu fiz na universidade forneceu a base teórica, mas a prática exigiu adaptação constante baseada nos problemas específicos que eu encontrava todo dia.