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O que realmente funciona quando a dor inflamatória aperta

A maioria das pessoas pega o primeiro anti-inflamatório que acha na prateleira e espera que a dor sumir. O problema é que anti-inflamatórios não hormonais (AINEs) não são todos iguais e escolher errado pode te dar mais problema do que solução. Já vi paciente com dor lombar crônica tomar ibuprofeno três vezes ao dia durante seis meses e terminar com úlcera gástrica. Isso é comum.

Antiinflamatorios nao hormonais: o que eles fazem de fato

Esses medicamentos bloqueiam as enzimas COX-1 e COX-2. A COX-2 produz prostaglandinas que causam inflamação e dor. A COX-1 protege a parede do estômago e ajuda na função renal. Quando você toma um AINE, você está essencialmente desligando um ou ambos esses sistemas. O alívio vem junto com um custo que muitas pessoas ignoram. O mecanismo básico é simples: inibição da ciclooxygenase, redução das prostaglandinas, menos inflamação. Mas na prática clínica isso se traduz em nuances que farmacologia básica não mostra. Alguns AINEs têm meia-vida curta, outros longa. Alguns são mais seletivos para COX-2, outros atiram em tudo. Isso muda completamente o perfil de segurança.

Qual escolher dependendo do problema

Para dor aguda de curta duração — uma torcedura no tornozelo, uma crise de ciática — o ibuprofeno 600mg a cada 8 horas resolve na maioria dos casos. Custo baixo, eficácia comprovada. Eu uso essa abordagem para pacientes com lesões musculoesqueléticas leves a moderadas. O intervalo de oito horas é importante porque a meia-vida do ibuprofeno é de cerca de duas horas. Se tomar a cada 12 horas, a dor volta porque o nível sanguíneo cai.

Para condições crônicas como artrite reumatoide ou osteoartrite, o cenário é diferente. Aqui entram os coxibs, como celecoxibe e etoricoxibe. Eles são mais seletivos para COX-2, o que significa menos agressão gástrica. Mas isso não é de graça: maior risco cardiovascular. Se o paciente tem histórico de infarto ou AVC, coxibe é contraindicação relativa. Eu tenho um paciente que desenvolveu hipertensão mal controlada após três meses de etoricoxibe 90mg. Troquei para diclofenaco com omeprazol e a pressão estabilizou. O diclofenaco é outro candidato frequente. Bom para dor inflamatória, mas com risco hepático que poucos mencionam. Dosagens acima de 150mg ao dia por mais de quatro semanas exigem monitoramento de transaminases. Já vi hepatite medicamentosa por diclofenaco em paciente que achava que estava tomando dose baixa porque era de venda livre em alguns lugares.

A parte que ninguém conta: proteção gástrica

Se você vai usar qualquer AINE por mais de uma semana, pense em proteção gástrica. Omeprazol 20mg uma vez ao dia é suficiente na maioria dos casos. Mas isso não elimina o risco completamente. Em pacientes com mais de 65 anos, histórico prévio de úlcera ou que usam anticoagulantes, a combinação de AINE mais inibidor de bomba de prótons ainda deixa margem para sangramento. Nesse grupo, eu prefiro reduzir a dose mínima eficaz ou considerar opções tópicos, como diclofenaco gel para artrose de joelho. A absorção sistêmica é muito menor e o efeito local é adequado para articulações superficiais.

Outro ponto prático: tome sempre com comida. Não é conselho genérico — comida reduz a concentração local do fármaco na mucosa gástrica em cerca de 40%. Isso faz diferença real em uso prolongado.

Erros que eu vejo todo dia

Combinar dois AINEs ao mesmo tempo. Ibuprofeno mais naproxeno, por exemplo. Isso não soma efeito analgésico. Soma efeito colateral. O risco de sangramento gastrintestinal sobe de forma multiplicativa, não aditiva. Já atendi dois pacientes em emergência por hemorragia digest alta nos últimos seis meses e ambos estavam fazendo esse erro. Usar AINE para dor neuropática. Se a dor é em queimação, formigamento, irradiação em descarga elétrica, o problema não é inflamação periférica. AINEs vão fazer zero efeito e só vão causar dano colateral. Nesses casos, gabapentinoide ou duloxetina são opções muito mais adequadas. Eu vejo paciente com radiculopatia lombar tomando nimesulida há meses achando que vai resolver. A radiculopatia precisa de abordagem diferente — repouso relativo, fisioterapia, às vezes bloqueio ecoguiado.

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Automedicação por mais de cinco dias sem acompanhamento. A dor que persiste além disso provavelmente não é algo que AINE resolve. Investigar a causa é o próximo passo, não aumentar a dose.

Doses práticas que funcionam

As doses habitualmente eficazes são: ibuprofeno 400 a 600mg a cada 8 horas, naproxeno 250 a 500mg a cada 12 horas, diclofenaco 50mg a cada 8 horas ou 75mg via injetosa em crises agudas, celecoxibe 200mg uma vez ao dia ou dividido em duas tomadas, etoricoxibe 60 a 90mg uma vez ao dia. Nimesulida 100mg a cada 12 horas, mas com cuidado máximo no fígado e uso limitado a quinze dias. Não exceda essas doses. A diferença entre dose terapêutica e tóxica em AINEs é pequena. O que aumenta é o risco, não o benefício.

Quando realmente não funciona

AINEs são ineficazes para dor óssea pura sem componente inflamatório, para maioria das dores de cabeça tensional crônico, e para síndromes dolorosas centralizadas como fibromialgia. Nesse último caso, o tratamento passa por exercício graduado, terapia cognitivo-comportamental e medicamentos neuromoduladores. Usar AINE aqui é gastar dinheiro e arriscar efeito adverso sem ganho clínico.

Insuficiência renal moderada a grave é contraindicação relativa para todos os AINEs, exceto talvez cetorolac em dose única isolada. A inhibição de prostaglandinas renais reduz o fluxo sanguíneo glomerular. Em paciente com função renal comprometida, isso pode precipitar lesão renal aguda. Eu costumo pedir creatinina e TFG antes de prescrever AINE por mais de uma semana em qualquer paciente com mais de cinquenta anos ou com comorbidades. Aspartato aminotransferase e alanina aminotransferase elevadas também exigem cautela, especialmente com diclofenaco e nimesulida. Se os valores estiverem acima de três vezes o limite superior da normalidade, suspenda e investigue.

Alternativas quando AINE não é opção

Para pacientes com contraindicações absolutas, existem alternativas. Paracetamol é a primeira linha para dor leve a moderada sem componente inflamatório significativo. Não é anti-inflamatório, mas para muitas dores comuns oferece alívio útil com perfil de segurança bem superior. A dose máxima segura é de quatro gramas por dia em adultos com função hepática normal, menos se houver consumo de álcool ou doença hepática prévia.

Corticoide oral em curto ciclo pode ser necessário em surtos inflamatórios agudos, como em artrite reumatoide ativa. Mas isso é decisão especializada, não automedicação. Prednisona 30mg por cinco dias com desidratação gradual é um protocolo comum, mas requer acompanhamento. Fisioterapia, modificações posturais, perda de peso quando indicado — tudo isso reduz a necessidade de AINE a longo prazo. Eu recomendo isso como parte do tratamento desde o primeiro dia, não como último recurso.

O uso racional de antiinflamatorios nao hormonais exige saber quando usar, qual usar e quando parar. O medicamento certo na dose certa pelo tempo certo resolve. O resto é risco sem benefício.