Configurando um arado de trator: o que realmente funciona no campo
A maioria das pessoas acha que montar um arado no trator é só engatar e começar a lavrar. A realidade é bem mais chata. O equipamento precisa ser nivelado, ajustado nos três pontos e, principalmente, alinhado corretamente antes de colocar uma única alqueirada. Já vi gente ligar o implemento e só perceber que estava torto depois que já tinha gasto meia hora de diesel e feito um sulco que não parecia com nada. O arado de trator mais comum no Brasil é o arado de discos ou o arado de aivecas, cada um com seu jeito de se comportar. O de aivecas revira a terra de verdade. O de discos é mais rápido e serve bem para solos com mais pedras ou raízes. Se o seu objetivo é apenas incorporar resíduos e deixar o solo fofinho para o plantio, os discos resolvem. Se você quer mesmo virar o solo e enterrar cobertura vegetal, o de aivecas é a escolha certa. Não tem meio-termo mágico.
Escolhendo e instalando o arado de trator no seu equipamento
Antes de qualquer coisa, olhe a ficha técnica do trator. A potência e o peso importa mais do que a maioria imagina. Um trator de 60 cavalos mal consegue puxar um arado de aivecas com três corpos em solo firme. O motor vai entrar em sobrecarga, o embreagem vai patinar e o resultado é sulco raso e solo mal trabalhado. Um trator de 90 a 100 cv com peso adequado é o mínimo recomendável para um arado de três corpos em condições normais. A instalação começa com o trator desligado e o implemento baixado no chão. Conecte a parte inferior dos dois braços laterais primeiro, depois a barra superior. Ajuste a barra superior para que o arado fique levemente inclinado para a direita quando visto de trás. Isso não é opcional. Se a barra estiver totalmente reta, o arado tende a fugir para o lado oposto quando entra em trabalho. Um ângulo de inclinação de cerca de 2 a 3 graus é suficiente.
O limitador de profundidade vem em seguida. A barra de referência deve tocar o chão levemente, sem pressão excessiva. Você vai controlar a profundidade pelo sistema hidráulico, não pelo limitador. O limitador serve apenas para evitar que o arado enterre demais em solo muito mole ou bata em pedras grandes. Me deparei com um caso específico num solo argiloso pesado no interior de Minas Gerais. O arado de aivecas de dois corpos estava fazendo sulcos desiguais e empinando para a esquerda toda vez que encontrava uma camada mais compacta. O problema não era a regulagem hidráulica. Era o centróide do implemento. O arado estava deslocado para a esquerda em relação ao ponto de tração do trator. A solução foi repositionar a barra superior mais para a esquerda e adicionar sacos de areia na parte traseira do trator para contrabalançar. Depois disso, o sulco ficou reto e a profundidade uniforme em cerca de 15 centímetros.
Regulagens que fazem diferença prática
A profundidade de lavração varia conforme o tipo de solo e o objetivo. Para preparo convencional de bed, entre 20 e 25 centímetros é o padrão. Solos arenosos podem ir até 30 centímetros sem problemas. Argilosos pesados devem ficar entre 15 e 20 centímetros para não sobrecarregar o trator. Passar disso em argila úmida é pedir para o trator capotar ou quebrar um braço do implemento. O ângulo de ataque das aivecas é outro ponto que poucos ajustam corretamente. O deslocamento lateral do eixo da aiveca em relação ao ponto de fixação define se o sulco será mais aberto ou mais fechado. Deslocar para frente abre o sulco. Deslocar para trás fecha. Na prática, o ideal é começar com o deslocamento central e ajustar conforme a necessidade. Solo muito duro pede um ângulo mais fechado. Solo solto pede um ângulo mais aberto para melhor revolvimento.
A velocidade de trabalho também é subestimada. A maioria dos operadores puxa o arado rápido demais. A rotação ideal do PTO não se aplica aqui porque o arado é puxado, não acionado. Mas a velocidade do trator importa. Entre 4 e 6 km/h é o intervalo que garante bom revolvimento sem perda de profundidade. Acima de 8 km/h, o solo simplesmente escorrega por baixo das aivecas e o sulco fica raso e irregular.
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Problemas comuns e como resolver sem chamar assistência
Sulco torto é o defeito mais frequente. As causas são, na ordem de probabilidade: barra superior mal ajustada, pressão irregular nos cilindros hidráulicos ou solo irregular. Verifique primeiro a barra superior. Depois, bombeie o hidráulico algumas vezes e observe se um dos lados baixa mais rápido que o outro. Se tiver diferença significativa, pode ser vazamento interno no cilindro ou válvula distribuidora suja. Aiveca travando é outro problema recorrente. Aivecas batem em pedras e travam. O dispositivo de segurança por mola ou por cisalhamento deve liberar o impacto. Se o seu arado usa pinos de cisalhamento, verifique se estão na especificação correta. Pinos mais duros que o especificado não quebram quando deveriam, e aí o braço da aiveca ou o eixo principal é que sofrem o dano. Já troquei três braçadeiras de aiveca num único dia porque o operacional anterior havia colocado pinos de ferro tratado no lugar dos de aço macio recomendados pelo fabricante.
O arado que arrasta e não levanta a terra inteira é sinal de profundidade excessiva ou solo muito compactado. Reduza a profundidade em 5 centímetros e passe uma segunda vez, mais rasa. Duas passadas rasas sempre produzem melhor resultado que uma passage funda em solo seco e duro.
Manutenção que evita dor de cabeça
Limpe o arado após cada uso. Terra úmida grudada nas aivecas e nos candongueiros endurece como concreto e altera o fluxo do solo na próxima operação. Uma mangueira de água resolve em 10 minutos. Ignorar isso por uma temporada e depois tentar trabalhar com o implemento empastado é perda de tempo e combustível. Verifique os rolamentos dos discos e dos eixos das aivecas a cada 50 horas de uso. Graxa insuficiente ou contaminada com terra mata o rolamento em poucas horas de trabalho. O custo de um rolamento é risível comparado ao tempo que você perde desmontando tudo para substituir um componente estragado.
Os cortes das aivecas se desgastam uniformemente em solo normal. Em solo pedregoso, o desgaste é irregular e acelera. Meça a espessura restante periodicamente. Aivecas com menos de 8 milímetros de espessura na parte de corte perdem eficiência rapidamente. Substituir no momento certo evita que você termine comprometendo a qualidade do sulco e gastando mais combustível para fazer o mesmo serviço.
Quando o arado não é a solução correta
Existem situações em que um arado de trator é a escolha errada desde o início. Solos em declive acentuado acima de 12 graus têm risco alto de erosão severa se trabalhados com arado de aivecas. A terraceamento ou o cultivo em nível deve vir antes de qualquer decisão de preparo do solo. Usar arado nesses casos é só acelerar a perda de terra boa. Terrenos com muitas pedras de tamanho variável também não são bons candidatos. O arado de discos aguenta melhor, mas mesmo assim o desgaste prematuro e os travamentos constantes tornam a operação economicamente inviável. Nesses casos, o subsolador combinado com grades é uma alternativa mais sensata. Ele quebra a camada compactada sem revirar o solo inteiramente e lida melhor com obstáculos.
O arado também não resolve problemas de compactação em camadas profundas. Se o solo está compactado a 40 centímetros de profundidade, passar um arado a 25 centímetros não faz diferença nenhuma. O trator de passagem vai compactar ainda mais a camada superficial. Nesse cenário, um subsolador ou um arado de sub-solo é o equipamento adequado. O mais importante é entender que um arado de trator bem regulado faz um serviço decente com manutenção simples. Um arado mal regulado faz um serviço ruim e consome recursos a mais sem nenhum benefício. A diferença entre um e outro geralmente está nos primeiros 30 minutos de ajuste, não nas horas de trabalho.