Montando o registro da arcada dentária infantil na prática clínica
O primeiro passo que eu sempre repito para iniciantes é entender que a arcada dentária infantil não se monta da mesma forma que a adulta. Temos dois lotes de dentes, e isso muda completamente a mecânica. O modelo que sai da boca da criança quase nunca encaixa no articulator sem ajustes. Eu passei três anos perdendo tempo tentando encaixar modelos mistos como se fossem permanentes, até aprender a lidar com as particularidades da fase de troca.
O que complica a arcada dentária infantil
A principal diferença entre a arcada permanente e a arcada dentária infantil está na presença dos dentes decíduos junto aos sucesores em erupção, mais o fato de o rebordo gengival infantil ter formato arredondado e menos definido. Isso significa que as bordas do molde precisam ter registro preciso do plano occlusal, mas também da orientação vestibular, porque o espaço interdental nos decíduos é diferente. Dentes decíduos têm contato mais aberto, com espaços fisiológicos chamados diastemas, e se você não registrar isso no modelo, a oclusão que o laboratório vai montar não representa a realidade do paciente. Um detalhe que poucos mencionam: os molares decíduos têm coroa mais cervical, com contorno de constrrição bem visível. Quando você tira a imprima e o gesso acaba preenchendo essa área, o modelo fica com as cores das cúspides deslocadas. A correção mais simples é usar um disco abrasivo para retirar o excesso apenas nas áreas de constrrição, deixando a anatomia funcional exposta.
Materiais e técnica de registro
Para a fase inicial, quando a criança ainda tem todos os decíduos e nenhuma erupção permanente significativa, o mais indicado é alginato convencional com bandeja individual. Sim, bandeja individual. Eu vejo muitos colegas usando bandejas comerciais e se perguntando por que o modelo sai com defeito. A diferença é que a arcada infantil tem dimensão reduzida e a bandeja comercial frequentemente cobre demais o vestíbulo ou deixa falta de material na região posterossuperior. Para fazer a bandeja individual, uso acetato de 0,5 milímetro, modelado com secador de cabelo a baixa temperatura, e o tempo de adaptação gira em torno de 3 a 5 minutos por arco. O resultado é um registro com espessura uniforme de 2 a 3 milímetros de alginato, o suficiente para capturar detalhes sem distorcer. Na fase mista, a coisa fica mais interessante. Você tem crianças com cerca de 6 a 7 anos perdendo os incisivos centrais inferiores e os superiores ao mesmo tempo. O registro precisa capturar tanto a parte edêntula quanto os dentes presentes. Minha solução prática foi modificar a bandeja com wax card, fazendo uma barreira no espaço onde o dente vai erupcionar. Assim, o alginato não entra na região do futuro espaço e o modelo fica limpo para análise de erupção.
O problema que ninguém conta
Aqui vai uma experiência real que tive e que resolveu um caso que estava travado há semanas. Tinha uma paciente de 8 anos em acompanhamento ortodôntico, arcada mista, com perda precoce do segundo molar decíduo superior direito por carie. O modelo tradicional saía com o gesso invadindo o espaço edêntulo, e eu não conseguia avaliar corretamente a posição do primeiro molar permanente que estava erupcionando. A solução foi usar technique de registro com silicone de adição de alta viscosidade (tipo Putty) na primeira passada, deixando o material fluir para a segunda com silicone leve (Light Body). Assim, o espaço edêntulo ficava nítido, e a anatomia dos dentes presentes era registrada com precisão de 50 micrômetros. Levou cerca de 8 minutos a mais no procedimento, mas eliminou a necessidade de refazer o modelo três vezes. O contra: esse método exige equipamento de silicone em duas viscosidades, o que aumenta o custo por registro. Se o consultório não tiver esse material, uma alternativa viável é usar cera de modeling com espessura de 2 milímetros no espaço edêntulo durante o registro com alginato. Remove-se a cera após a presa e faz-se um reparo com gesso de alta resistência na área. Funciona, mas o tempo extra é de cerca de 10 minutos adicionais.
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Armazenamento e envio ao laboratório
Modelos de arcada dentária infantil devem ser armazenados em recipiente fechado com umidade controlada. Diferente do adulto, o modelo infantil tem menos volume de gesso em certas áreas, especialmente quando há edentulismo parcial. Deixe o modelo secar por 24 horas em ambiente com 50 a 60% de umidade relativa. Nunca use secador de ar quente. O gesso pode trincar nas bordas finas dos incisivos decíduos. Quando for enviar ao laboratório, inclua o registro de oclusão em wax ridge com indicação clara da linha média e da relação ântero-posterior. Na fase mista, isso é crítico, pois o plano de occlusão ainda está em formação e a perda precoce de um molar decíduo pode causar drift mesial do molar permanente posterior, alterando a relação que você observou clinicamente.
Erros comuns que eu vi acontecer
O erro mais frequente que encontro é o registro do arco completo quando ainda há espaço de erupção ativo. A criança tem um dente em erupção parcial, e o modelo fecha o espaço com gesso, dando a falsa impressão de que o dente já está na arcada. Na verdade, o dente está apenas parcialmente erupcionado e o espaço ainda existe. A correção é fotografar o dente em erupção e anotar no pedido ao laboratório que aquela região não deve ser fechada com gesso. Outro erro comum: usar articulator sem ajustes de condilar na fase mista. O movimento de mandíbula em crianças pequenas é diferente, com amplitude menor e patamares condilares mais verticais. Se você montar o modelo em articulator padrão de avgance, a simulação de movimientos funcionais pode não representar a realidade. O ajuste fino leva cerca de 15 minutos e envolve reduzir a declividade do patamar condilar para 20 a 25 graus, dependendo da idade da criança.
Referência para download de formulário clínico
Disponibilizo aqui um formulário de registro clínico específico para avaliação de arcada dentária infantil, com campos para fase de desenvolvimento, dentes presentes e ausentes, espaço de erupção estimado e anotações de oclusão. O arquivo está em formato PDF editável e pode ser baixado diretamente pelo link abaixo: Download: Formulário_Arcada_Dentaria_Infantil.pdf
O formulário inclui uma seção para anotação de perda precoce de decíduos, erupção ectópica de primeiros molares permanentes e avaliação de hábitos orais que possam influenciar o desenvolvimento da arcada. Preencher esses campos antes do registro ajuda o laboratório a produzir modelos mais úteis para o planejamento terapêutico.
Quando não fazer o registro na arcada infantil
Há situações em que o registro de arcada não é recomendável. Crianças com coordenação motora muito limitada, que não conseguem manter a boca aberta por mais de 30 segundos, podem ter o registro comprometido. Nesses casos, opte por registros fotográficos digitais com scanner intraoral, que levam cerca de 2 minutos por arco e não exigem imobilização prolongada. O custo do scanner é maior, mas elimina o retrabalho. Também não indique registro quando a criança está em período agudo de infecção orofacial ativa. O alginato pode conter partículas de sangue ou exudato que comprometem a precisão do modelo. Espere a resolução do processo infeccioso antes de realizar o registro.