Guia prático para identificação e manejo da arteria umbilical unica
Quando você está de plantão no Setor de Medicina Fetal e a equipe de enfermaria manda fazer uma ultrassonografia morfológica de rotina, às vezes aparece uma coisa que pode passar despercebida se não estiver prestando atenção no cordão. Arteria umbilical unica é uma alteração anatômica em que o cordão umbilical apresenta apenas uma artéria em vez das duas habituais. A prevalência é de cerca de 0,2% a 1% das gestações singleton e aumenta para algo em torno de 5% a 7% em gêmeos monocoriônicos. Não é algo raro, mas precisa ser comunicado de forma correta porque muda o acompanhamento. O diagnóstico é basicamente ultrassonográfico. Você visualiza a bexiga fetal normal, depois sobe e procura o cordão inserido. Com a sonda multiface, consegue enxergar a seção transversal do cordão umbilical. O padrão é ver três vasos: duas artérias e uma veia. Quando aparece apenas dois vasos, aí é a suspeita inicial. Confirma com Doppler colorido mostrando o fluxo arterial da artéria umbilical única e a veia umbilical. A diferença de fluxo entre as artérias normais é que a artéria umbilical única tende a ter calibre um pouco maior e curso mais retilíneo ao longo do cordão.
Arteria umbilical unica no ultrassom morfológico
Uma coisa que não ensinam na residência é como fazer a confirmação sem depender apenas da seção transversal do cordão. O problema é que em gestações com pouca quantidade de líquido ou feto de posição desfavorável, às vezes a visualização do cordão fica ruim mesmo. Minha abordagem costuma ser essa: primeiro comprovar que a anatomia renal está intacta. A associação com malformações renais é significativa, então se os rins estão normais em ambas as vistas, reduz consideravelmente a probabilidade de outra anomalia associada. Depois faço uma busca ativa por outras malformações maiores, principalmente cardíacas e gastrointestinais. Se tudo vier limpo, o prognóstico é geralmente bom. Um detalhe importante que muitos passam ao largo: a arteria umbilical unica isolada, sem outras anomalias, na maioria das vezes tem desfecho favorável. O risco de restrição de crescimento intrauterino aumenta, mas não é regra. O que eu recomendo é acompanhamento de crescimento a cada 4 semanas a partir da 28ª semana e monitorização de Doppler da artéria umbilical se houver qualquer suspeita de restrição. Isso já é protocolo padrão, mas na prática muita gente deixa de fazer por falta de tempo ou por achar que é caso simples demais.
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Encontrei um caso recentemente que vale registrar. Gestante de 32 anos, primípara, morfológica de 20 semanas mostrou arteria umbilical unica isolada, rins normais, coração normal. Acompanhei normalmente com medidas de crescimento trimestrais. Na semana 34, o crescimento desacelerou e o Doppler umbilical apresentou ondas de diástole ausentes. Internamos, fizemos corticoide para maturação pulmonar e induzimos o parto na 36 semanas. Bebê nasceu com peso abaixo do 10º percentil, APGAR 7 e 9, mas foi necessário internação neonatal por 5 dias. Esse tipo de cenário mostra que a vigilância contínua é essencial, mesmo quando o achado inicial parece isolado. Ao fazer o relatório ultrassonográfico, a comunicação precisa ser clara. Escreva explicitamente que se trata de arteria umbilical unica, que não foram identificadas outras malformações associadas (ou liste-as), e recomenda-se acompanhamento de crescimento e Doppler obstétrico conforme a idade gestacional. Isso evita que o médico assistente subestime o caso e deixe de indicar acompanhamento adequado. Relatórios vagos como "alteração do cordão" ou "anomalia simples" são inúteis na prática clínica real e geram dor de cabeça para todo mundo.
Sobre a técnica de imagiologia em si, vale dizer que a resolução do equipamento importa mais do que se imagina. Em ultrassons mais antigos, sem Doppler colorido adequado, a confirmação pode ficar duvidosa. Se você não consegue visualizar claramente os vasos no Doppler, o ideal é solicitar uma consulta especializada ou repetir o exame com transdutor de maior frequência se o feto permitir. Erros de falsos positivos acontecem, especialmente quando há torção do cordão ou compressão transitória dos vasos durante o exame. Outro ponto que merece atenção é o aspecto genético. Arteria umbilical unica tem associação modesta com aneuploidias, principalmente trissomia 18 e 13. Se a paciente já fez triagem de aneuploidias normal nos primeiros trimestres, geralmente não há necessidade de investigar mais, a menos que apareçam outras alterações estruturais. Quando não há triagem prévia ou os resultados foram de risco intermediário, a conversa sobre amniocentese ou teste genético fetal no sangue materno faz sentido. Na prática, eu sempre abordo isso com a gestante de forma tranquila, sem alarmismo, explicando os números reais de risco.
O manejo no trabalho de parto também segue protocolos normais para a maioria dos casos. Parto vaginal é possível desde que não haja outras complicações. O único cuidado extra é monitorização fetal mais atenta, já que a presença de arteria umbilical unica isolada aumenta levemente o risco de sofrimento fetal intraparto por questões relacionadas a restrição de crescimento. Se o feto crescer normalmente até o final e o Doppler estiver boa, não há motivo para preocupação excessiva. Em resumo, arteria umbilical unica é um achado que exige vigilância, mas não necessariamente pânico. A maioria dos bebês nasce saudável. O trabalho do médico é garantir que ninguém seja deixado de lado por causa da preguiça de acompanhar. Identificar, comunicar, monitorar. Esse é o caminho.