O que são estrangeirismos e por que eles aparecem nas atividades escolares
A maioria dos alunos trava na hora de identificar um estrangeirismo porque acha que toda palavra estrangeira vira estrangeirismo automaticamente. Não é bem assim. A diferença entre um empréstimo lexical consagrado e um estrangeirismo em uso depende de como o termo se comporta no dia a dia. "Software" continua sendo estrangeirismo porque ninguém naturalizou a pronúncia e o uso foi mantido no original. "Pizza" já não é mais visto como tal pela maioria dos falantes, apesar de ser italiano, porque entrou tão fundo no vocabulário que virou palavra do português comum. Quando estou montando atividades sobre estrangeirismo para turmas do ensino fundamental ou médio, o primeiro ponto que preciso deixar claro é que o tema não existe num vácuo. Ele conversa diretamente com variação linguística, prestígio social e até com políticas de língua. Um aluno do interior de São Paulo pode usar "blitz" no dia a dia sem pensar duas vezes, enquanto outro, de outra região, pode achar estranho. Isso gera confusão na hora de correção, porque o critério de certo e errado nunca é só linguístico.
Atividades sobre estrangeirismo: lista prática para sala de aula
Preparei uma lista que costumo usar há anos. O formato varia conforme o nível da turma. Começo sempre pedindo que os alunos marquem palavras estrangeiras em notícias de sites de tecnologia, pois é onde os estrangeirismos aparecem com mais força. Depois peço que classifiquem cada uma: se foi aportuguesada, se mantém grafia original, se tem sinônimo em português. Esse último passo é onde a atividade realmente funciona. Numa aplicação recente, pedi para alunos do terceiro ano do ensino médio revisar um artigo de economia e identificar termos como " Hedge fund", "start-up", "crowdfunding". O problema é que muitos deles marcaram "fund" isoladamente, o que é um erro clássico. O estrangeirismo ali é a expressão inteira, não a palavra solta. A correção que faço é simples: peço para sublinharem as unidades lexicais completas antes de classificar. Isso resolve em 90% dos casos sem precisar de explicação longa.
Uma variante interessante da atividade é o mapeamento de no noticiário local. Pedir que encontrem estrangeirismos em jornais de bairro ou rádio comunitária mostra que o fenômeno não é restrito a revistas especializadas. Os dados sempre surpreendem. Em um recorte de três meses de um jornal regional do Rio Grande do Sul, consegui mais de sessenta exemplos, muitos deles vindos do espanhol e do alemão, linguagens que raramente aparecem nos exercícios padrão.
Como construir questões objetivas e dissertativas que realmente funcionam
O erro mais comum ao elaborar atividades sobre estrangeirismo é criar questões que confundem o aluno com armadilhas mal desenhadas. Colocar "email" como exemplo de estrangeirismo sem notar que a ortografia brasileira já adota "e-mail" com hífen, segundo o Acordo Ortográfico, gera debate desnecessário. A solução é consultar a nomenclatura do VOLP e do acordo antes de propor qualquer item. Se o verbete existe no dicionário como forma aceita, a questão perde o sentido pedagógico. Para questões dissertativas, a estrutura que melhor funciona pede três coisas: identificação, classificação e justificação. O aluno deve encontrar o estrangeirismo num texto, dizer de qual língua veio e explicar por que a língua portuguesa ainda não o assimilou completamente. Isso evoca noções de frequência de uso, necessidade comunicativa e pressão normativa. É um exercício que leva cerca de vinte minutos para ser respondido e corrigido com rubrica simples.
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Uma pegada que notei ao longo dos anos é que alunos tendem a marcar qualquer termo em inglês como estrangeirismo, mesmo quando já há sinônimos consolidados. "Download" vira alvo fácil, mas "baixar" já é verbo. A atividade ganha mais profundidade quando se pede para o aluno propor substituições válidas e argumentar prós e contras de cada opção. O debate que surge vale mais do que qualquer gabarito fechado.
Problemas reais que aparecem na correção e como contorná-los
Existe um caso específico que se repete sempre. Quando peço para classificarem "click" como estrangeirismo, a maioria dos alunos responde que é inglês e pronto. O problema é que "clic" já existe em português, com grafia aportuguesada, e é registrado em dicionários. A distinção entre a forma estrangeira mantida e a forma aportuguesada exige atenção ao repertório lexicográfico. Minha solução foi criar uma tabela comparativa que coloco à disposição dos alunos durante a atividade. Nele, constam as formas originais e as correspondentes aportuguesadas, com indicação de status normativo. Outro ponto delicado são os estrangeirismos em tecnologias emergentes. Termos como "prompt engineering" chegam tão rápido que ainda não houve tempo de estabilização. Nesse cenário, a atividade perde o foco normativo e precisa se voltar para a descrição. Pede-se ao aluno que observe o padrão de uso, não que julgue se está certo ou errado. Isso alivia a pressão e aproxima a tarefa da realidade sociolinguística.
Recursos e referências para quem quer montar material próprio
Para baixar modelos prontos de atividades sobre estrangeirismo, recomendo começar pelo acervo do INEP e de secretarias estaduais de educação, que costmam disponibilizar bancos de itens com gabarito comentado. Também é útil consultar capítulos sobre variação e contato linguístico de Gramática do Português Contemporâneo, de Evanildo Bechara, e os artigos de Luiza Lamedica sobre empréstimos lexicais. A base teórica evita que a atividade caia no senso comum. Se quiser montar sua própria lista, o procedimento mais eficiente leva de trinta a quarenta minutos. Você baixa três matérias recentes de portais de notícias, extrai os termos estrangeiros com um script simples de busca, cruza com o VOLP e separa em três colunas: aportuguesado, não aportuguesado e neologismo em consolidação. O resultado é um material classificado que pode ser usado em várias turmas sem repetição.
Quando a abordagem de estrangeirismo dá errado e o que fazer nesses casos
Às vezes, a atividade simplesmente não pega. Isso acontece quando o público-alvo tem vocabulário técnico extremamente restrito ou quando a turma é muito heterogênea linguisticamente. Nesses cenários, insistir na classificação pura dos empréstimos gera frustração. O redirecionamento mais eficaz é deslocar o foco para a compreensão do conceito de contato linguístico e mostrar exemplos históricos. Colocar "charuto", "mandioca" e "canoa" ao lado de "software" e "smartphone" ajuda o aluno a perceber que a fronteira entre empréstimo antigo e empréstimo recente é fluida. Também não recomendo usar estrangeirismo como ferramenta de exclusão. Já vi professores corrigirem produções textuais com a lógica de que usar termos em inglês Automaticamente indica má formação. Isso é um equívoco profissional e pedagógico. O papel da atividade é descrever, não sancionar. Se o objetivo for apenas apontar erros, é melhor trabalhar pontuação ou concordância, temas onde a norma tem mais consenso.
No final das contas, montar atividades sobre estrangeirismo exige paciência com a ambiguidade. A língua muda, os dicionários atualizam e os alunos observam mudanças antes delas aparecerem nos livros. Trabalhar com essa realidade, em vez de contra ela, produz resultados muito mais consistentes e menos desgaste na correção.