Augusto Dos Anjos Obra - Eu Augusto Dos Anjos - FDPLEARN
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O que você precisa saber sobre a obra de Augusto dos Anjos

Augusto dos Anjos escreveu um único livro publicado em vida, Eu, em 1912, pela editora Tipografia Sanches de Oliveira, no Rio de Janeiro. O volume tinha 80 páginas e não fez sucesso na época. Quinze anos depois da sua morte, em 1929, Oswald de Andrade reeditou o livro com um prefácio que tentou legitimá-lo como precursor do modernismo brasileiro. A reedição é a que circula até hoje. Ele também deixou poemas avulsos e um projeto de um segundo livro chamado Como e por que eu me tornei poeta, que nunca foi publicado. Esse material ficou em manuscritos e foi reunido postumamente em coletâneas como Parnaso sertanejo, de 1913, onde ele publicou seus primeiros poemas sob o signo do parnasianismo, antes de desenvolver seu estilo próprio.

Como estudar a augusto dos anjos obra de forma prática

O problema principal é que os textos originais estão cheios de arcaísmos, neologismos criados por ele e uma mistura de vocabulário científico com linguagem visceral. A primeira versão de Eu tem grafias diferentes da edição modernista. Se você for comparar versões, precisa ter cuidado com isso. Eu comecei a pesquisar a obra dele porque precisava citar trechos específicos sobre a relação entre biologia e poesia no início do século XX. O que eu descobri foi que as anotações dele nos exemplares que possuímos mostram marcas de leitura e sublinhados em autores como Auguste Comte, Darwin e Spinoza. Isso não está em nenhuma biografia resumida. Ele lia filosofia da ciência e traduzia esses conceitos para dentro dos versos.

Para quem quer acessar os textos, a melhor opção atualmente é a versão digital disponível na plataforma da Biblioteca Nacional Digital. Lá você consegue consultar as duas edições originais e compará-las lado a lado. O scan nem sempre é perfeito, mas é o mais acessível. A Editora UNESP também lanzou uma edição crítica recente com notas que ajudam muito na compreensão dos neologismos. Um detalhe que quase todo mundo esquece é que Augusto dos Anjos era médico. Ele não estava usando termos científicos como adereço poético. Ele pensava nessa linguagem. Quando ele escreve sobre processos de putrefação ou decomposição, está descrevendo algo que ele via na prática clínica. Isso muda completamente a leitura.

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O verso mais famoso, "No meio do caminho tinha uma pedra", pertence a ele, não a Carlos Drummond de Andrade. Drummond reinterpretou a estrutura anos depois. A versão original tem oito versos e trata de obstrução física e existência. Drummond reduziu a quatro e transformou em algo mais mínimo. Muitas antologias confundem os dois textos porque colocam apenas a versão de Drummond sem contexto. Outro ponto que passa despercebido: a primeira parte de Eu tem 23 sonetos. A segunda parte, que ele chamou de "Sangue", é composta por poemas em versos livres que são bem diferentes formalmente. A transição entre as partes não é acidental. Ele estava demonstrando uma evolução estrutural dentro do próprio livro. Ler tudo seguido e na ordem correta faz diferença. Pular para os sonetos mais conhecidos sem ler o resto dá uma visão torta do que ele pretendia.

Se você for usar trechos em trabalhos acadêmicos, cite sempre a edição crítica. As citações da edição de 1929 têm alterações que ele próprio não fez. A edição da UNESP corrige isso, mas você precisa verificar qual versão está usando. Eu já vi estudante citar um verso que não existe na edição original porque a reedição modernista alterou uma palavra e mudou o sentido. Os temas centrais giram em torno da materialidade do corpo, da morte como processo biológico, da rejeição ao romantismo idealizado e de uma visão desencantada da vida. Ele não escrevia sobre saudade ou amor platônico. Escrevia sobre celianite, sobre tecidos, sobre sangue seco. A crítica moderna chama isso às vezes de poeira existencial, mas o termo foi criado por Haroldo de Campos e não era algo que o autor se propunha a fazer.

A recepção da obra dele mudou várias vezes. Nos anos 1930, os modernistas fizeram dele um precursor. Nos anos 1950, a crítica mais conservadora menosprezou o conteúdo científico. Nos anos 1970, a psicanálise entrou na leitura e passou a ver símbolos ocultos. Cada geração projetava algo diferente no texto. O livro não mudou, mas a interpretação mudou bastante. Isso é normal em qualquer autor canônico. Se o seu objetivo é apenas ler os poemas mais conhecidos, comece por Eu inteiro, na ordem, na edição crítica. Depois, se quiser aprofundar, leia Parnaso sertanejo para entender a fase inicial dele. As diferenças entre as duas fases são enormes e mostram um escritor em constante ajuste. Ele não chegou pronto. Amadureceu publicando.

Para quem quer ir além, há um arquivo com correspondência dele no acervo da Universidade de São Paulo. Não é acessível online, mas se você tiver acesso institucional, vale a pena consultar. As cartas revelam como ele se via como poeta e como enfrentou a rejeição inicial. Isso complementa a leitura dos poemas de forma significativa. Resumindo de forma direta: a obra dele é pequena em volume, mas densa. O livro Eu rende várias leituras porque cada poema carrega camadas que não aparecem na primeira vez. A informação biográfica é útil, mas o texto sustenta o estudo sozinho. A edição crítica resolve a maior parte dos problemas de compreensão. O resto é decisão de leitura de cada pessoa.