Bacia De Evapotranspiracao - O que é BET - Bacia de evapotranspiração?
O que é BET - Bacia de evapotranspiração?

Como monitorar uma bacia de evapotranspiracao na prática

A bacia de evapotranspiracao é basicamente um sistema instrumentado que permite quantificar a perda de água de um solo coberto por vegetação para a atmosfera. O conceito é simples, mas a execução exige cuidado porque o erro mais comum começa na instalação e quase ninguém comenta isso direito.

O que é uma bacia de evapotranspiracao

Trata-se de uma área delimitada do solo, geralmente com perímetro definido por placas ou mantas impermeáveis cravadas nas laterais, onde se mede a evapotranspiração real (ETa) em condições específicas de cultura e clima. Diferente da ET de referência (ETo), que é calculada por equações como Penman-Monteith com dados meteorológicos, a bacia mede o fluxo real sob as condições de campo. Isso faz toda a diferença quando a cultura está sob estresse hídrico ou quando a radiação solar não segue o padrão esperado. Existem dois tipos principais: as bacias pesadas (ou de pesagem) e as bacias de tensão zero. As primeiras usam células de carga para registrar a perda de massa de água ao longo do tempo. As segundas mantêm o nível do lençol freático artificialmente igual ao nível do solo, eliminando o gradiente de fluxo vertical que normalmente existiria. Cada uma tem aplicações distintas e não são intercambiáveis sem revisar toda a metodologia do estudo.

Instalação passo a passo

Comece escolhendo um local representativo da área que deseja monitorar. Evite bordas de talhões, proximidade de árvores, sombra de estruturas e qualquer lugar onde o escoamento superficial de outras áreas possa invadir a bacia. A primeira vez que fiz isso, instalei a bacia colada a um drenaje natural de um caminho de trator e perdi seis semanas de dados porque a água entrava lateralmente sem eu perceber. A correção foi cavar uma trincheira de vedação mais profunda e reconstruir as bordas com manta asfáltica. A profundidade padrão para culturas anuais é entre 80 e 120 centímetros, dependendo do sistema radicular. Para cultivos perenes, a profundidade pode exigir 1,5 metro ou mais. O solo dentro da bacia deve ser reposto na mesma sequência de camadas que o perfil original, preservando a densidade aparente. Compactação excessiva no fundo altera a taxa de infiltração e distorce a leitura de drenagem.

As bordas devem se projetar alguns centímetros acima do nível do solo para evitar entrada de água pluvial externa. Use placas de aço galvanizado, concreto ou manta de PVC reforçado de no mínimo 0,5 mm. Replante a cultura exatamente como no entorno, mas mantenha uma faixa de 30 centímetros sem cultivo ao redor da borda para facilitar o acesso e evitar que raízes das plantas externas penetrem na bacia.

Instrumentação e coleta de dados

Em bacias de pesagem, as células de carga são instaladas sob quatro pontos de apoio distribuídos uniformemente. Um único sensor defeituoso pode enviesar toda a leitura, então use sempre quatro sensores e faça média, mas também monitore individualmente para detectar falhas pontuais. Sensores de umidade do solo (TDR ou FDR) instalados em três profundidades diferentes dentro da bacia permitem calcular a variação no armazenamento de água e separar a evapotranspiração real da drenagem profunda. A frequência de leitura depende do objetivo. Para manejo de irrigação rotineiro, leituras horárias são suficientes. Para pesquisa, sugiro aquisição a cada 10 minutos com registro diário consolidado. Isso reduz o volume de dados sem perder informações críticas sobre variações rápidas, como o pico de evapotranspiração logo após uma irrigação ou uma nuvem passageira que reduz a radiação solar abruptamente.

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Nunca dependa exclusivamente da bacia para decidir irrigação. Sempre cruze os dados com a evapotranspiração de referência calculada por uma estação meteorológica próxima. Quando a ETa medida fica consistentemente abaixo de 70 por cento da ETo esperada para aquela cultura no mesmo estágio fenológico, há algo errado — seja com a instrumentação, seja com a saúde da planta, seja com a representação da bacia em relação à área real.

Pegadinhas que ninguém conta

A maior dificuldade prática é a representatividade. Uma bacia de dois metros quadrados não representa um talhão de dez hectares. A heterogeneidade do solo, a variabilidade espacial da cultura e os microclimas locais fazem com que a bacia capture apenas uma fração do comportamento real. O erro típico fica entre 15 e 25 por cento em relação à média da área, dependendo do grau de uniformidade do terreno. Outro problema silencioso é a borda. Mesmo com vedação adequada, as raízes das plantas cultivadas dentro da bacia tendem a crescer em direção às bordas onde o solo está menos compactado e onde a umidade pode ser ligeiramente maior devido à retenção das próprias paredes. Isso altera a distribuição radial da absorção de água e, consequentemente, a taxa de evapotranspiração medida. A solução prática é replantar a bacia a cada ciclo cultural com novo solo escavado e reposicionado, nunca mantendo a mesma plantação por mais de uma safra seguida.

Bacias de tensão zero exigem manutenção constante do nível d'água. O sistema de reposição precisa ser responsivo porque o déficit se acumula rapidamente em dias de alta demanda atmosférica. Um controlador com válvula solenoide e sensor de nível pode automatizar parte disso, mas o reservatório de reposição deve ter volume suficiente para pelo menos dois dias de funcionamento autônomo em condições de pico. Se o reservatório acabar no meio do dia, a bacia passa a medir evapotranspiração sob estresse, e o dado já não serve para o propósito original.

Quando não usar

A bacia de evapotranspiracao não é indicada para áreas com lençol freático muito raso, solos com camadas impermeáveis a menos de 60 centímetros de profundidade, ou terrenos extremamente inclinados onde a bacia ficaria parcialmente enterrada de forma assimétrica. Nesses casos, a metodologia de balanceamento de massa se torna inválida porque os fluxos laterais de água subsuperficial passam a ser significativos e não podem ser descartados. Para essas situações, o mais eficiente é recorrer ao método de lysímetro não perturbado com coleta de percolado, ou utilizar dados de fluxografia por torres de turbulência (eddy covariance) se o orçamento permitir. O custo de instalação de uma bacia bem feita varia entre R$ 8.000 e R$ 25.000, dependendo do tipo e da automação, enquanto uma torre de turbulência sai a partir de R$ 80.000. Para monitoramento comercial de irrigação, a bacia ainda é o melhor custo-benefício disponível no Brasil.

Configuração básica para um projeto de pesquisa em milho

Uma configuração que funcionou bem num projeto no Cerrado envolveu uma bacia de pesagem com 1,2 metro de profundidade, quatro células de carga de 500 kg cada com precisão de 0,01 kg, sensores TDR em 20, 50 e 90 centímetros, e um controlador LOGGER 400M da Campbell Scientific programado para aquisições a cada 10 minutos. A bacia teve área de 2 m² com bordas de chapas de aço de 1,5 mm. O solo foi repositado em camadas de 20 cm com verificação de densidade aparente em cada camada usando anel volumétrico. A cultura foi milho híbrido semeado na mesma época e espaçamento que o entorno. Os dados de ETa ficaram consistentes por quatro ciclos consecutivos com variação média de 12 por cento em relação à ETo normalizada, o que é aceitável para fins de manejo e publicação. Acima disso, revise a vedação das bordas e a calibração das células de carga.