Bioma De Pernambuco - Projeto prevê plantio de 500 mil mudas nativas para restaurar a ...
Projeto prevê plantio de 500 mil mudas nativas para restaurar a ...

O que é o bioma de pernambuco e por que você precisa entender isso

Pernambuco tem dois biomas principais que se encontram no estado: a Caatinga e a Mata Atlântica. Isso não é uma curiosidade geográfica qualquer. Se você trabalha com agricultura, licenciamento ambiental, preservação ou qualquer coisa que envolva uso do solo no estado, precisar saber exatamente em qual bioma sua área se encaixa muda completamente o que você pode fazer com ela. O problema é que a divisão não é linear. A zona da mata é praticamente toda Mata Atlântica remanescente ou em recuperação. O sertão é Caatinga. Mas o agreste fica nessa zona de transição que muita gente simplifica demais. E essa simplificação custa caro em processos de licenciamento.

Como identificar o bioma de pernambuco na prática

A forma mais confiável de verificar é usando o mapa de vegetação do IBGE combinado com a base do CAR (Cadastro Ambiental Rural). Eu sempre recomendo cruzar os dois porque o CAR sozinho engana. Já vi propriedade com cadastro como Mata Atlântica que, na prática, era Caatinga degradada por decades de pastagem. O processo real é o seguinte: pegue as coordenadas do imóvel, consulte o mapa de cobertura vegetal do IBGE, depois verifique no SICAR se a informação cadastral bate com a realidade de campo. Leva uns vinte minutos bem feitos. Se você está fazendo isso para dezenas de propriedades ao mesmo tempo, dá para automatizar com scripts que consultam as APIs do IBGE e do Incra, mas o resultado final ainda precisa de conferência humana. Não confie cegamente no cruzamento automático.

Caatinga versus Mata Atlântica em Pernambuco

A Caatinga ocupa cerca de 70% do território pernambucano. É um bioma seco, com vegetação adaptada à estiagem prolongada. A legislação ambiental que rege área de Caatinga é diferente da que rege Mata Atlântica, mesmo quando ambas estão na categoria de reserva legal. Isso é algo que muitos profissionais esquecem e acaba gerando autuação. Já a Mata Atlântica em Pernambuco, especialmente na zona da mata, tem um histórico de fragmentação brutal. Restam menos de 15% da cobertura original em muitas regiões. O que resta está majoritariamente em encostas de mata Atlântica de altitude, nas serras do Bosque, do Urubu e outras formações da Borborema. Essa faixa de altitude cria um gradiente interessante: quanto mais alto, mais úmido, maisà floresta ombrófila densa.

O agreste é onde as coisas ficam cinzentas. Literal e figurativamente. É uma transição ecológica que não respeita linha reta no mapa. Uma fazenda pode ter metade em Caatinga arbórea e metade em floresta ombrófila secundária. Nesse caso, a resolução do conselho estadual de meio ambiente que tratará do caso dependerá de laudo técnico com amostragem botânica. Planilha não resolve isso.

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Um caso real que me deu trabalho

Em 2022, fiz análise de uma propriedade rural no município de São José do Belmonte, interior do estado, na divisa com a Bahia. O proprietário tinha tudo certinho no CAR como Caatinga. O mapa do IBGE também indicava Caatinga. Mas a varredura com imagem de satélite Sentinel-2, analisando o índice NDVI ao longo de quatro estações secas consecutivas, mostrou comportamento espectral compatível com floresta estacional semidecidual em estágio avançado de regeneração. A vegetação aparentava ser Caatinga porque o estrato arbóreo tinha sido eliminado décadas antes, mas o estrato arbustivo e as espécies de fundo eram tipicamente de floresta úmida. O laudo que encaminhei recomendou o reconhecimento como área em regeneração de Mata Atlântica, com base na floração observada em campo durante a transição chuvosa. A multa por suposto desmatamento irregular foi convertida em obrigação de recuperação. Se eu tivesse seguido só o mapa do IBGE, o proprietário estaria com uma autuação que não teria fundamento ecológico. A lição: mapa é ponto de partida, não resposta.

Pegadinhas comuns que iniciantes caem

Primeira pegadinha: confundir domínio hidrico com bioma. Ribeirões e igarapés cortam ambos os biomas. O fato de uma área estar numa cabeceira de rio não a torna automaticamente Mata Atlântica. Segundo: achar que APP de Caatinga segue as mesmas larguras de APP de Mata Atlântica. A Lei 12.651/2012 (Código Florestal) unificou algumas regras, mas os decretos estaduais de Pernambuco estabeleceram parâmetros específicos para APPs em Caatinga que diferem dos padrões gerais. O artigo 18 do código fala em larguras fixas baseadas na largura do curso d'água, mas o estado tem tolerâncias diferentes para áreas de seca. A terceira pegadinha é mais sutil e é a que mais gera dor de cabeça: a sobreposição de biomas em microescala. Um vale úmido numa encosta de Caatinga pode abrigar um remanescente de floresta pluvial de altitude que não aparece em nenhuma carta institucional. Mapeamento por sensoriamento remoto com resolução espacial baixa perde esses bolsões. Se o seu projeto envolve preservação ou compensação florestal, invista em levantamentos botânicos de campo. Vai te salvar de erro caro.

O que fazer quando a situação não é clara

Se você está numa zona de transição e o mapeamento oficial é ambíguo, o caminho é contratar um engenheiro florestal ou biólogo para emitir laudo pericial com identificação florística. Esse laudo tem peso técnico em processos administrativos junto ao CPRH (Conselho Permanente de Recursos Hídricos e Meio Ambiente de Pernambuco). O órgão aceita laudos de profissional habilitado com registro no CREA ou no conselho regional de biologia. Um detalhe importante: o laudo precisa ter datação compatível com a época de coleta. Espécies caducifólias da Caatinga perdem as folhas no secco e ficam quase impossíveis de identificar sem flores ou frutos. Se você for a campo na seca e tentar laudar como Caatinga pura, pode estar ignorando espécimes de floresta que estão apenas adormecidos. Aguarde a estação das chuvas para conferência se houver dúvida real.

Alternativamente, se o laudo não for viável por questões orçamentárias, há o mapeamento participativo com comunidades locais. Moradores antigos conhecem a vegetação nativa de cada microárea melhor que qualquer modelo de satélite. Essa abordagem não substitui o laudo técnico, mas pode ser um subsidio válido em análises preliminares.

Recursos úteis

O site do CPRH disponibiliza o mapa de unidades de conservação do estado. O INPE mantém o PRODES e o DETER, que monitoram desmatamento em tempo quase real. O MapBiomas, projeto civil organizado anualmente desde 2016, oferece mapas anuais de cobertura e uso do solo com resolução de 30 metros que cobrem todo o território brasileiro, incluindo Pernambuco. A versão mais recente permite filtro por bioma e por município. Vale a pena consultar antes de tomar qualquer decisão que envolva área territorial no estado.