O problema de encontrar filmes decentes hoje em dia
A gente passa mais tempo decidindo o que assistir do que realmente assistindo. Tem gente que gasta meia hora só rolando a tela do serviço de streaming e no fim acaba pegando aquela série que já viu três vezes. O algoritmo sugere sempre a mesma coisa: o que viralizou no TikTok, o que todo mundo tá falando no Twitter, ou o remake genérico de algo que já existia e era melhor. Se você me pede bons filmes para ver com alguma seriedade, eu vou direto ao ponto e te digo que a maioria das recomendações por aí é irrelevante.
Como eu filtro bons filmes para ver sem perder o dia todo
Minha abordagem é simples e não tem muito segredo. Eu ignoro as listas de "os 10 melhores filmes de 2024" que todo site pop faz. Essas listas são escritas por pessoas que assistiram ao filme uma vez, viram o trailer três vezes, e escreveram o texto em vinte minutos entre um café e outro. O que eu faço é ir direto para o IMDb e olhar os rankings por gênero, mas com um filtro específico: filmes com nota acima de 7.0 e pelo menos 50 mil votos. Filmes com nota alta e poucos votos geralmente são produções muito nichadas que podem não ter qualidade real, só falta de competição. Aí eu entro no site do TMDb e cruzo com os dados de orçamento versus receita. Filmes que fizeram bom dinheiro com orçamento baixo muitas vezes são produções que funcionaram porque eram realmente bons, não porque tiveram milhões em marketing. Um exemplo prático: Possessões (Midsommar), dirigido por Ari Aster, tinha um orçamento de 9 milhões de dólares e faturou quase 48 milhões. O filme é perturbador, lento em alguns momentos, e não é para todo mundo. Mas a razão pela qual funcionou foi a construção consistente do tom, algo que dinheiro não compra.
Outra coisa que muita gente não considera é a filmografia do diretor antes de escolher o filme. Se o diretor tem dois ou três filmes consistentes com notas acima de 6.5 no TMDb, as chances de o próximo trabalho também ser bom aumentam significativamente. Diretores que têm um único filme famoso e o resto é invisível costumam ser um tiro no escuro. Já vi isso na prática com diretores que estouraram com um filme independente e depois perderam o fio da meada em produções maiores com mais interferência de estúdio. Um problema real que eu enfrentei recentemente: eu estava procurando algo para assistir numa noite específica e acabei escolhendo A Batida (The Fall Guy), um filme de ação com Ryan Gosling que tinha nota 7.2 no IMDb. Eu fui com expectativa alta porque o diretor, David Leitch, tinha feito John Wick 2 e Deadpool 2, ambos excelentes. O filme era agradável, mas decepcionante em vários momentos. O problema era que eu não levei em conta que filmes de ação com orçamento muito alto (A Batida custou 150 milhões) tendem a ter roteiros mais genéricos porque o estúdio quer algo seguro para público amplo. O conselho que eu daria é: se o orçamento ultrapassa 120 milhões, fique atento. Filmes assim raramente arriscam anything criativo porque têm muito dinheiro em jogo.
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Minha lista pessoal, baseada em critérios reais
Vou listar alguns que eu realmente recomendaria, não por hype, mas porque cumprem o que prometem e têm consistência técnica e narrativa. A primeira é Parasita, de Bong Joon-ho. É um filme que mistura comédia, thriller e drama social sem jamais parecer confuso. O roteiro é tão bem construído que cada cena tem propósito, e nada é desperdiçado. Foi o primeiro filme não americano a ganhar o Oscar de Melhor Filme, e a razão é simples: a direção de arte, a fotografia e a edição trabalham em sincronia perfeita. Depois vem Furie, do diretor français Ladj Ly. É um filme sobre tensão policial em uma periferia de Paris, baseado em eventos reais. O que eu gostei foi a forma como o filme mostra que o problema não é individual, mas sistêmico. Cada personagem tem motivações compreensíveis, mesmo quando estão errados. A trilha sonora e a fotografia contribuem para criar uma atmosfera de urgência constante. Não é um filme fácil de assistir, mas é honesto.
Para quem gosta de ficção científica, Ex Machina é essencial. Alex Garland dirigiu e escreveu o roteiro com um orçamento de 15 milhões, e o resultado parece muito mais caro. O filme explora a consciência artificial de forma inteligente sem recorrer a explosões ou perseguições. A atuação de Alicia Vikander como a androida Ava é convincente porque o roteiro dá a ela camadas de manipulação e vulnerabilidade que alternam constantemente. O problema é que o filme é muito fechado, tudo acontece basicamente em uma casa, o que pode entediar quem busca ação. Mas se você curte diálogos densos e ideias que te fazem pensar, é um dos melhores do gênero nos últimos anos. Dune: Parte 2 é outro que merece menção, especialmente pela escala visual. Denis Villeneuve conseguiu transformar um livro que era considerado "inadaptável" em algo que funciona no cinema. A cinematografia de Greig Fraser é impressionante, e a trilha sonora de Hans Zimmer adiciona peso emocional sem ser excessiva. O único senão é que o filme é longo, quase três horas, e exige que você tenha visto o primeiro para realmente aproveitar. Se você não viu o primeiro, não pula direto para este.
O que funciona e o que não funciona nas recomendações
A maioria das pessoas escolhe filmes baseando-se no gênero. Isso é um erro comum. Gênero não define qualidade. Um terror pode ser terrível, e um drama pode ser envolvente. O que importa é a execução. Eu já vi filmes de terror com orçamentos baixos serem mais assustadores do que blockbusters de horror com dezenas de milhões. O segredo está no ritmo, na construção de tensão e no respeito ao público. Filmes que explicam demais o que está acontecendo geralmente não confiam na audiência, e isso se percebe rapidamente. Outro ponto: trailers são ferramentas de marketing, não reflexos fiéis do filme. Um trailer bem editado pode fazer um filme ruim parecer excelente, e um trailer malfeito pode esconder um filme bom. Eu recomendo que, após escolher um filme, você assista aos primeiros dez minutos sem pausar. Se não tiver sua atenção nesse período, o filme provavelmente não vai melhorar. A maioria das pessoas deixa o filme começar e depois pensa "talvez mejore depois", mas os dez primeiros minutos são exatamente o teste do diretor para ver se você continua assistindo.
Se você quer apenas names pra maratona sem muita análise, aqui vai uma lista rápida que eu uso quando não tenho disposição para pesquisar: A Batida (2023, ação/comédia, 2h 5min), Possessões (2019, terror/drama, 2h 33min), O Som do Som (2023, drama musical, 2h 37min), Society of the Snow (2023, drama/sobrevivência, 2h 44min), Oppenheimer (2023, drama/biografia, 3h 1min). Todos têm nota acima de 7.5 no IMDb e foram bem recebidos pela crítica especializada. A diferença é que uns são mais acessíveis e outros exigem mais concentração. É questão de humor do momento. A verdade é que não existe fórmula mágica. Filmes bons existem, mas a quantidade de conteúdo lançado todo ano é tão enorme que encontrar o que combina com seu gosto exige algum trabalho. O método que descrevi acima funciona para mim há anos, e a taxa de acerto é razoavelmente alta. O importante é parar de confiar cegamente em listas prontas e começar a desenvolver seu próprio critério. Com o tempo, você para de precisar de recomendações e passa a saber exatamente o que buscar.