Encontrar e usar brincadeiras africanas para imprimir não é tão simples quanto parece
Achei que fosse fácil no começo. Você vai até um site de materiais educativos, digita o que precisa e baixa uns PDFs bonitos. Na prática, as coisas são diferentes. A maioria dos resultados que aparecem são adaptações genéricas feitas por autores que nunca tiveram contato real com a cultura africana. O jogo do morubixaba que todo mundo compartilha no Pinterest, por exemplo, é uma versão suavizada de uma dinâmica indígena brasileira misturada com elements que não têm relação com nada específico do continente. Isso não quer dizer que seja inútil, mas se você está procurando algo que faça sentido pedagogicamente, precisa saber onde procurar e como avaliar. Meu primeiro problema real aconteceu quando comecei a montar um material para uma turma do ensino fundamental sobre histórias e jogos africanos. Baixei oito arquivos diferentes de sites variados. Três tinham regras contraditórias. Dois pegavam um jogo e atribuíam a uma etnia específica sem nenhuma fonte. Um deles chamava "Jogo dos Ancestrais" e era claramente uma adaptação livre de algo que vi em artigo acadêmico, mas sem menção nenhuma ao autor original. Perdi duas tardes conferindo fontes antes de decidir usar apenas dois dos eight PDFs.
Onde conseguir brincadeiras africanas para imprimir com alguma confiabilidade
O caminho mais direto é entrar nos repositórios universitários. A USP, a Unicamp e a UFRJ têm acervos digitais com jogos e brincadeiras coletados de comunidades quilombolas e povos tradicionais. O formato geralmente é PDF simples, às vezes com ilustrações básicas, mas o conteúdo é referenciado. Outra opção decente é o portal Domínio Público do Ministério da Educação, que tem materiais produzidos por secretarias estaduais de educação de estados como Bahia, Maranhão e Rondônia, regiões com maior presença de herança africana no Brasil. Se você não tem paciência para cavar isso sozinho, o site do Instituto Rosita Gurgel tem uma seção de materiais pedagógicos com foco em educação antirracista. Não é tudo voltado especificamente para jogos, mas o que é, vem com ficha técnica que inclui origem, faixa etária indicada e adaptação necessária. O arquivo costuma ter entre 2 e 5 páginas. Recomendo imprimir em papel couchê 90g se for usar em sala, porque o comum 75g rasga rápido com o manuseio de criança.
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Como montar seu próprio banco de brincadeiras africanas para imprimir
Achei que o melhor jeito era construir minha própria coleção. Comecei fazendo uma planilha com quatro colunas: nome do jogo, origem étnica ou regional, descrição das regras e link da fonte. Isso parece bobo, mas depois de seis meses já tinha mais de quarenta entradas e percebi padrões que facilitam a busca. Jogos que envolvem contagem e movimento corporal aparecem em praticamente todas as regiões da África subsaariana. Se você pegar um que funcione em Angola, provavelmente vai funcionar também em Moçambique com pequenas variações de regras. Um detalhe que as pessoas ignoram é a questão da terminologia. Muitos jogos africanos têm nomes em línguas bantas, iorubás ou hauçás que não existem em português. Os PDFs que circulam na internet costumam traduzir grosseiramente ou inventar nomes. Quando eu vejo "Bao" escrito como "Báu", por exemplo, já sei que o material foi feito por alguém que não consultou nenhuma fonte linguística. O correto é Bao, que é um jogo de tabuleiro praticado no Litoral Quente de Moçambique e em partes de Tanzânia. Se o material que você encontrou não menciona isso, desconfie.
Limitações que ninguém conta
O maior problema de brincadeiras africanas para imprimir é que a maioria dos jogos dependem de materiais que não estão numa folha A4. O Bao precisa de tabuleiro esculpido e sementes ou pedras específicas. O Dambwe, jogo de habilidade com vassourilha, precisa de um espaço físico adequado. Você pode imprimir as regras e os tabuleiros em branco, mas a experiência completa exige preparação prévia. Eu cheguei a tentar adaptar alguns jogos para usar apenas com materiais de sala de aula convencional, como tampinhas de garrafa no lugar das pedras e papel cartolina no lugar do tabuleiro talhado. Funcionou para cerca de sessenta por cento dos jogos que testei. Outro ponto é que muitos desses materiais foram coletados em contextos específicos e carregam significados culturais que não estão nas regras impressas. Um jogo que parece apenas uma competição de velocidade pode estar ligado a uma cerimônia de iniciação. Quando você imprime e distribui sem contexto, acaba esvaziando o conteúdo. Eu resolvi isso adicionando uma ficha cultural em cada jogo, com duas ou três linhas explicando o contexto de origem. Leva mais tempo na montagem, mas faz diferença quando a criança pergunta o porquê das coisas.
Jogos específicos que valem a pena buscar
O Malla é um jogo de puxão com corda que tem variações em vários países africanos. O tabuleiro ou campo pode ser desenhado facilmente em papel e as regras são simples o suficiente para imprimir e entregar direto. O Conga, que nada tem a ver com a música, é um jogo de contagem e estratégia usado em várias regiões da África Oriental. O material disponível online costuma vir com tabuleiro pronto para colorir, o que já é um diferencial. O Gwari, também conhecido como Bao, é o mais complexo dos três e exige uma explicação mais longa. Recomendo não tentar imprimir as regras completas de uma vez só. Faça uma versão simplificada para iniciantes e deixe a versão completa como material de consulta. Se o seu objetivo é realmente montar um caderno de brincadeiras, o formato que funciona melhor é o A5 com margem de dois centímetros. Assim dá para grampear sem cobrir o conteúdo. Eu produzo os meus em lotes de dez jogos por caderno, porqueAnything acima disso fica pesado demais para a criança manusear sozinha. O tempo de produção de um caderno completo com doze jogos, incluindo pesquisa, validação de fontes e formatação, gira em torno de três a quatro horas para quem já tem familiaridade. Para quem está começando, considere o dobro desse tempo.