Manual de restauração e manuseio de brinquedos antigos do tipo vai e vem
A maior parte dos brinquedos que as pessoas chamam de "vai e vem" — basicamente piões de corda ou iô-iôs tradicionais — são mais frágeis do que parecem. O material mudou muito. Os originais dos anos 40 aos 60 eram feitos de madeira maciça, baquelite ou plástico celulóide, e a corda era de algodão encerado. Isso significa que se você pegar um exemplar usado hoje, a maioria já tem microfissuras que ninguém vê até tentar usar.
Entendendo o mecanismo por trás do brinquedo antigo vai e vem
O funcionamento é simples na teoria: a corda enrola num eixo central e o peso do brinquedo gera inércia que faz ele descer e subir. Na prática, o problema é o atrito interno. A corda de algodão original absorve umidade e estica, o que altera completamente o equilíbrio. Já os modelos em plástico dos anos 70 e 80 tendem a ter folga no eixo, o que causa tremores e faz o brinquedo sair da linha vertical. O que muita gente não sabe é que o ângulo de enrolamento da corda determina tudo. Se você enrolar para a esquerda quando o brinquedo foi fabricado para enrolar para a direita, ele simplesmente não volta. Isso acontece constantemente com quem tenta usar brinquedos herdados sem verificar primeiro a orientação do enrolamento. Verifique antes de tentar: segure o brinquedo e gire o eixo com o dedo. A direção natural do enrolamento é a que vem da fábrica.
Como trocar a corda de um brinquedo antigo vai e vem
Comece retirando a corda antiga completamente. Não tente reaproveitar. Mesmo que pareça intacta, fibras de algodão antigas já estão fatigadas. Meça o diâmetro do eixo com um paquímetro ou régua precisa antes de comprar fio novo. O tamanho ideal varia entre 1,5mm e 2,5mm dependendo do modelo. Para a corda, use nylon encerado ou fio de nylon comum de pescaria, não algodão. O algodão funciona nos primeiros usos mas desgasta rápido demais. Eu substituí a corda original de um iô-iô de madeira dos anos 50 que estava com o eixo gasto, e o resultado foi melhor do que original porque o nylon encerado desliza com menos atrito e não estica com a umidade. A diferença foi imediata: o brinquedo voltou a subir reto em vez de zigzaguear.
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A técnica de enfiar é a seguinte: passe a ponta da corda pelo buraco do eixo, faça um nó simples na parte interna, puxe até o nó travar dentro da cavidade. Deixe cerca de 30cm de corda sobrando. Enrole o brinquedo firmemente mas sem forçar — cerca de 8 a 12 voltas completas é o suficiente para a maioria dos modelos. O excesso de voltas só aumenta o atrito.
Problemas comuns e soluções
O problema mais frequente em brinquedos antigos desses tipos é o eixo desgastado. Com o tempo, o atrito da corda rasa o metal ou o plástico do eixo, criando uma ranhura. Quando isso acontece, a corda fica presa na ranhura e o brinquedo não sobe. A solução caseira que funciona é usar lixa d'água bem fina (grão 600 ou superior) para alisar a ranhura sem alterar o diâmetro original. Não use limas ou qualquer ferramenta que remova material de forma agressiva. Outro problema sério é a trincagem do corpo em modelos de celulóide ou baquelite. Esses materiais ficam quebradiços com a idade. Se você notar qualquer sinal de fissura, não force o uso. Um brinquedo trinca sob tensão pode se partir completamente. Nesse caso, a única opção é exposição estática ou descarte responsável.
Existe também o caso dos modelos com rolamento interno — mais comuns a partir dos anos 80. Esses têm vida útil limitada porque o rolamento embutido trava com poeira e oleosidade. Não adianta desmontar para limpar na maioria dos casos porque não foi feito para manutenção. Trocar o rolamento é viável apenas em modelos que usam rolamentos padrão como os de skate, que custam entre R$5 e R$15 e resolvem o problema permanentemente.
Manutenção preventiva e armazenamento
Guarde sempre em local seco. Umidade é o inimigo número um desses brinquedos. Corda de algodão mofa, madeira incha e empena, e metais oxidam. Um saco zipper com sílica gel dentro da caixa do brinquedo resolve boa parte do problema. Para quem coleciona, um desumidificador no armário onde ficam as peças custa cerca de R$80 e preserva o acervo inteiro por décadas. Só use os brinquedos que estão em boas condições estruturais. Os bons para exposição ficam parado mesmo. Teste cada peça antes de decidir se usa ou não. A maior parte das reclamações que vejo em fóruns de coleção vem de pessoas que tentaram fazer o brinquedo funcionar sem verificar o estado primeiro.