CID-10 e CID-11: critério diagnóstico e sintomas do TDAH
O código CID para TDAH não é único. No CID-10 ele aparece em F90.0 (transtorno hiperativo de conduta com retardo mental), F90.1 (outros transtornos hiperativos de conduta) e, quando predominam apenas sintomas de desatenção sem hiperatividade, F98.8. No CID-11 o código mudou para 6A05, com subcategorias 6A05.0 (predomínio de desatenção), 6A05.1 (predomínio de hiperatividade/impulsividade) e 6A05.Y (combinado). A mudança não é só burocrática — ela corrige um erro antigo do CID-10, que exigia hiperatividade para diagnosticar quase todo mundo. Na prática clínica brasileira isso ainda causa confusão, porque muitos psiquiatras e neurologistas seguem usando o CID-10 por costume ou por exigência de convênio.
cid tdah sintomas: lista oficial por domínio
Os sintomas estão agrupados em dois domínios principais. Desatenção (6 itens obrigatórios para crianças, 5 para adultos):
Não presta atenção a detalhes ou comete erros por descuido. Dificuldade em manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas. Parece não ouvir quando falamos diretamente com ele. Não segue instruções e não termina tarefas escolares, laborais ou domésticas. Dificuldade em organizar tarefas e atividades. Evita ou reluta em executar tarefas que exigem esforço mental sustentado. Perde coisas necessárias para tarefas ou atividades. Distrai-se facilmente por estímulos externos. Esquecimentos nas atividades do dia a dia. Hiperatividade e impulsividade (6 itens obrigatórios para crianças, 5 para adultos):
Torcem as mãos ou os pés, remexem-se na cadeira. Abandonam a cadeira em situações nas quais se espera que permaneçam sentados. Correm ou escalam em situações inadequadas. Dificuldade em brincar ou se envolver silenciosamente em atividades de lazer. Estão "a toda" ou agem como se fossem "movidos a motor". Falam em excesso. Dão respostas antes das perguntas serem completadas. Têm dificuldade em esperar a vez. Intrometem-se ou importunam os outros. A diferença entre crianças e adultos não é apenas o número de critérios — a manifestação muda. Em adultos, a agitação motora muitas vezes se internaliza como inquietação subjetiva, não como correr pela sala. O esquecimento se traduz em esquecer prazos, devolvendo um efeito prático: perda de emprego ou término de relacionamento por negligência repetida, não por desrespeito intencional.
Como eu uso esses critérios no dia a dia
Eu nunca preencho checklist sozinho. O critério CID exige que os sintomas estejam presentes há pelo menos 6 meses, que tenham início antes dos 12 anos, que estejam em dois ou mais contextos (casa, trabalho/escola, relations interpessoais) e que causem prejuízo clinicamente significativo. Esse último ponto é o que mais gera falsos positivos. Tranquilidade elevada por si só não justifica diagnóstico. Déficit de atenção pós-COVID, depressão, privação de sono e hipotireoidismo produzem quadros que imitam TDAH em escala. Um erro comum que eu vejo todo dia é confundir sintomas de ansiedade generalizada com desatenção. Pessoas com ansiedade têm dificuldade de concentração, mas o mecanismo é diferente: a desatenção no TDAH é uma falha no filtro seletivo de estímulos; na ansiedade é uma sobrecarga de preocupação que rouba recursos cognitivos. Se você testa TSH, ferritina, hemograma e sono e ainda assim o padrão persiste, o TDAH se torna muito mais plausível. A triagem inicial deve incluir, no mínimo, essas três verificações antes de qualquer discussão terapêutica.
Outro ponto que a maioria ignora: o critério CID exige que alguns sintomas estejam presentes antes dos 12 anos. Isso significa que, se o histórico não prova isso, o diagnóstico precisa ser revisitado ou codificado de outra forma. Eu já vi gente receber diagnóstico de TDAH com base apenas em sintomas adultois porque ninguém pediu evidência de infância. Isso é erro diagnóstico, não especialidade.
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Pegadinhas que ninguém conta
1. Superdiagnóstico em mulheres e meninas. A apresentação predominantemente desatenta é mais comum nelas, e como o CID-10 historicamente associava TDAH a hiperatividade, muitas ficaram escondidas até a vida adulta. Quando chegam para avaliação, elas muitas vezes já têm trauma de ter sido rotuladas de "preguiçosas" ou "desorganizadas" por décadas. O diagnóstico chega tarde, e o prejuízo acumulado é enorme. 2. Comorbidades são a regra, não a exceção. Tristeza persistente, ansiedade, uso de substâncias, transtornos de personalidade e dificuldades de aprendizado aparecem em grande parte dos casos. Diagnosticar TDAH sem investigar comorbidades é cortar pela metade o problema. E tratar só a comorbidade, ignorando o TDAH, muitas vezes não resolve porque o substrato neurocognitivo permanece.
3. Medicamento não é solução única. Estimulantes como metilfenidato e anfetaminas têm eficácia documentada em cerca de 70–80% dos pacientes, mas a resposta varia muito. Dosagem, horário, formulação (liberação imediata vs. prolongada) e interação com outras condições mudam completamente o resultado. Eu já vi pacientes que pararam de funcionar bem com a dose padrão simplesmente porque tinham comorbidade de síndrome das pernas inquietas não tratada — o estímulo melhorava o foco mas piorava o movimento, e a combinação destruía o sono. Resolver o problema das pernas primeiro, depois recalcular a dose, mudou tudo.
CID-11 vs. CID-10 na prática brasileira
O Brasil ainda convive com os dois sistemas. Planos de saúde e prontuários eletrônicos antigos usam CID-10; o novo sistema do SUS já está migrando para CID-11. Isso gera inconsistência: um laudo pode citar F90.0, outro 6A05.0, para a mesma pessoa. Se você está lidando com burocracia — licença médica, reembolso, perícia — confirme qual código sua instituição aceita antes de agendarAnything. A diferença entre códigos também afeta o que aparece no plano de cobertura: alguns convênios cobrem avaliação neuro psicológica apenas com 6A05, outros exigem F90.0. Ligue antes de gastar tempo e dinheiro.
Checklist prático para iniciar a avaliação
Comece com história clínica detalhada, preferencialmente com relatos de pessoas que convivem com o paciente desde a infância. Isso reduz o viés de autopercepção. Use instrumentos validados como a escala ASRS v1.1 da OMS para triagem em adultos, a Conners para crianças e a scala de SNAP-IV. Mas lembre-se: nenhum questionário substitui o julgamento clínico fundamentado. Pergunte especificamente sobre desempenho escolar antigo, relatórios de professores, queixas de pais e professores quando criança. Esses documentos são mais valiosos que qualquer teste isolado. Testes neuropsicológicos como TOVA, IVA e Continuous Performance Test dão dados objetivos de tempo de reação evariabilidade, mas têm taxa moderada de falsos positivos e negativos. Eles ajudam, mas não decisam. O que realmente define o diagnóstico é a convergência de múltiplas fontes de informação ao longo do tempo.
Quando não diagnosticar TDAH
Insônia crônica, apneia obstrutiva do sono, deficiência de ferro, hipotireoidismo, uso de cannabis regular, depressão maior, transtorno bipolar na fase depressiva, trauma cranioencefálico recente e exposição a chumbo podem produzir sintomas idênticos. Se houver qualquer um desses fatores, investigue primeiro. Tratar a causa primária pode eliminar completamente a apresentação que parecia TDAH. Também não se trata TDAH quando os sintomas são exclusivamente situacionais — por exemplo, aparecem apenas em reuniões longas mas não em tarefas autodirigidas. Isso é mais provavelmente déficit de envolvimento, estilo de gestão tóxico ou incompatibilidade vocacional, não transtorno neurodesenvolvimental.
Resumo rápido para quem quer ir direto ao ponto
CID-10 usa F90.x; CID-11 usa 6A05.x. Critério principal: sintomas de desatenção e/ou hiperatividade-impulsividade, presentes há pelo menos 6 meses, com início antes dos 12 anos, em dois ou mais contextos, causando prejuízo clinicamente significativo. Triagem inicial deve excluir causas médicas e psiquiátricas alternativas. Tratamento combina farmacológico (stimulantes e não stimulantes como atomoxetina e guanfacina) e não farmacológico (psicoeducação, terapia cognitivo-comportamental, adaptações ambientais). Nenhum protocolo funciona para todo mundo; ajuste fino é parte do processo, não exceção. Se você está tentando entender se tem TDAH ou ajudando alguém a entender, o caminho mais seguro é procurar profissional de saúde mental com experiência em avaliação diagnóstica de TDAH em adultos ou crianças, conforme o caso. Laudos genéricos de internet não substituem avaliação clínica. Mas agora você sabe quais critérios precisam ser atendidos, quais códigos procurar e onde as armadilhas costumam aparecer.