Como fazer citação com apud na prática
Você lê um artigo do autor A que menciona uma ideia do autor B, mas não tem acesso ao trabalho original do autor B. Nesse momento, você precisa citar o autor B usando a expressão latina apud, que significa "citado por". O conceito é simples, mas a execução gera confusão constante, principalmente porque as normas variam dependendo de qual manual você está seguindo.
Quando usar citação com apud
A citação com apud entra em cena quando você quer referenciar uma fonte primária que você não consultou diretamente. Em vez de ir atrás do trabalho original — que pode estar esgotado, em outra língua, ou em uma biblioteca a quilômetros de distância —, você usa a referência secundária que você realmente leu. Isso é honestidade acadêmica: você deixa claro para o leitor qual trabalho você teve em mãos. A estrutura básica, segundo a ABNT NBR 10520:2023, é a seguinte: no corpo do texto, você coloca o sobrenome do autor original, seguido de apud e o sobrenome do autor da obra que você efetivamente leu. Na bibliografia final, você lista apenas a obra que você consultou — a obra secundária. Jamais coloque a obra original na lista de referências se você não a leu diretamente.
Exemplo prático: se você leu um livro de Silva (2020) que cita uma frase de Foucault (1977), a citação no texto ficaria assim: Foucault apud SILVA (2020, p. 45) afirma que o poder não se posee, mas se exerce.
Na bibliografia, apenas: SILVA, J. O poder e seus mecanismos. São Paulo: Editora X, 2020.
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Nada de Foucault na lista. Isso é erro comum em trabalhos de iniciação científica.
O problema que ninguém avisa
Escrevendo orientações e revisando artigos, encontrei um caso específico que vale a pena destacar. Um estudante tinha acesso à edição traduzida de um clássico francês, mas encontrou uma passagem cuja numeração de página era diferente da edição original em português que eu tinha. O problema: ele queria usar a citação com apud, mas precisava indicar o número da página. A solução? Consultei a edição francesa diretamente para cruzar as páginas, e usei a página da edição que ele havia lido, com a indicação de que se tratava de uma citação secundária. Se você não consegue verificar a página da obra original, informe a página da obra secundária. O importante é não inventar numeração. Outro detalhe que passa despercebido: a expressão "apud" deve estar em itálico na maioria dos estilos, mas em algumas normas ela vem em negrito ou sem formatação especial. Verifique sempre qual manual seu programa ou revista exige antes de formatar.
Pegadinhas frequentes
Uma dessas situações que todo mundo erra é confundir a ordem dos nomes. O autor citado vai primeiro, depois o apud, e só então o autor que você leu. Inverter essa ordem inverte o significado e torna a citação imprecisa. Outro erro: colocar o apud entre parênteses. A expressão não é parte da citação direta nem de uma nota de rodapé; ela integra a estrutura da chamada bibliográfica no corpo do texto. Se a obra secundária que você leu é uma tradução, mencione isso. Exemplo: "KANT apud SOUZA, 2018, p. 67". Se souber o ano da obra original, pode incluir após o nome do autor primário, entre parênteses: "KANT (1785) apud SOUZA, 2018, p. 67". Isso dá contexto ao leitor sem exigir que você consulte a edição original.
Limitações do método
A citação com apud funciona bem quando você está apenas citando uma ideia ou dado pontual. Mas se o argumento central do seu trabalho depende criticamente da obra original — por exemplo, você está analisando a interpretação que o autor secundário faz de uma teoria —, o uso de apud enfraquece seu posicionamento. Nesses casos, procure a obra primária. Não adianta construir uma crítica sobre uma interpretação que você nunca verificou no fonte. Também vale notar que algumas revistas científicas e programas de pós-graduação proibem o uso de citações secundárias em artigos de revisão sistemática. Antes de submeter, confirme se a norma permite. Se não permitir, você terá que encontrar a obra original ou descartar a referência.
Resumindo: use apud com moderação, indique sempre a página da obra que você efetivamente leu, e coloque na bibliografia apenas a fonte secundária. É tudo o que a norma pede. O resto é questão de prática.