Citação De Magda Soares Alfabetização E Letramento - Alfabetização e Letramento: Contribuições de Magda Soares | PDF ...
Alfabetização e Letramento: Contribuições de Magda Soares | PDF ...

O que Magda Soares realmente disse sobre alfabetização e letramento

Muita gente copia citações dela sem ler o livro original. A confusão mais comum é achar que Magda Soares separou alfabetização e letramento como coisas que devem ser ensinadas em momentos diferentes. Não é isso. Ela disse exatamente o oposto.

A citação mais citada (e mal interpretada): alfabetização e letramento

A frase que aparece o tempo todo é algo como: "Alfabetizar e letrar são atos coordenados e indissociáveis." Isso está em "Letramento: um tema em três gêneros", primeiro volume, onde ela constrói todo o argumento. O ponto central é que o ato de alfabetizar — ensinar o sistema de escrita alfabética — e o ato de letrar — inserir o sujeito nas práticas sociais de leitura e escrita — precisam acontecer juntos. Não adianta decorar sílabas num quadro negro e depois, no ano seguinte, "trazer o mundo pra dentro da sala". O mundo já tá lá. A criança precisa usar a letra enquanto aprende a letra. O problema é que asSecretarias de Educação e muitos materiais didáticos tratam esses dois processos como se fossem etapas separadas. Eu já vi material pedagógico que propunha "trabalhar só decodificação" no primeiro semestre e só produção textual no segundo. Isso vai contra o que Magda propôs.

O conceito por trás da citação

Magda Soares trabalha com uma distinção clássica, herdada de autores como Mark Haney e Ruth Behar, mas traz uma contribuição prática importantíssima: ela mostra que letramento não é um "extra" que se adiciona depois da alfabetização. É parte constitutiva do processo. Aprender o código alfabético sem uso social do código é mecânico. Ter contato com textos sem aprender a codificar e decodificar é insuficiente. As duas dimensões precisam se sustentarem mutuamente. Isso tem implicações diretas na prática. Um aluno que decora o nome das letras mas não lê nada fora da escola não está alfabetizado no sentido pleno que Magda propõe. Outro que lê jornais mas não consegue escrever seu próprio nome também não está.

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Como aplicar isso na sala de aula — e onde dá errado

Um exemplo concreto: eu trabalho com um aluno que estava na fase de consolidação da alfabetização. Ele já decodificava bem, mas não via sentido em produzir textos. Só sabia copiar. A intervenção que funcionou foi simples e contraintuitiva: comecei por pedir que ele escrevesse um bilhete para a mãe explicando o que tinha aprendido no dia, antes mesmo de revisar a ortografia. O objetivo era mostrar que a escrita serve pra alguma coisa. A técnica veio junto com o uso, não antes. O erro mais comum que eu vejo acontece quando o professor acha que precisa esperar a criança "dominar o código" para começar as práticas de letramento. Isso é um atraso desnecessário. Na verdade, quanto mais cedo o aluno entrar em contato com textos reais — receitas, notícias, histórias, placas, rótulos — mais significado ele dá ao ato de aprender o sistema alfabético. O código ganha sentido quando é ferramenta de algo que a criança quer fazer.

O lado obscuro: quando a teoria colide com a realidade

Não vou fingir que é fácil. A principal dificuldade que encontro é a pressão por resultados imediatos em avaliações externas. Provas como o SAEB e oProvinha Brasil cobram competências de leitura e escrita de forma separada. Os professores se sentem pressionados a priorizar a decodificação porque é o que aparece nos testes. Mas Magda Soares aponta exatamente pra essa armadilha: se você formar alunos que sabem decodificar mas não sabem usar a leitura e a escrita no dia a dia, você fracassou na parte mais importante. Outro problema prático: turmas com 35 alunos, alguns já alfabetizados e outros ainda na fase pré-silábica. Tentar trabalhar alfabetização e letramento de forma coordenada exige planejamento diferenciado, o que nem sempre é viável com a carga horária e o número de alunos. O que eu faço nesses casos é dividir a turma em grupos menores com atividades complementares — um grupo trabalha com o professor, outro com materiais estruturados de letramento, como rodas de leitura ou estações de texto — e rotacionar ao longo da semana.

Alternativas quando o contexto não permite

Se a estrutura escolar não permite esse trabalho integrado, a saída que eu recomendo é começar pelo que é possível: garantir que todos os alunos tenham acesso a textos autênticos diariamente, mesmo que seja apenas 15 minutos de leitura compartilhada. Isso já é letramento. E já é mais do que a maioria das escolas oferece. Depois, ajustar o método gradualmente conforme as condições permitirem. Magda Soares morreu em 2023, deixando uma obra vasta. Quem quiser ler a fonte direta, os livros dela estão disponíveis em editoras como Autêntica e Mediação, e muitos capítulos podem ser encontrados em bancos de teses e artigos acadêmicos. O essencial é entender que a citação sobre alfabetização e letramento não é um slogans — é um chamado pra repensar como a prática de sala de aula integra dois processos que são, na verdade, um só.