Como Era As Brincadeiras De Antigamente - Como Eram As Brincadeiras De Antigamente - FDPLEARN
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Brincadeiras antigas e a gente que cresceu sem telas

A gente nunca paramos de brincar, só mudaram os objetos. Nas décadas de 1970, 1980 e 1990, o material era o que aparecia no chão ou na caixa de sapato. Elástico comprado aos pedaços, bola de futebol de borracha gastada, tampinha de refrigerante, papel dobrado e um pedacinho de giz riscando o asfalto. O jogo em si era simples, mas a execução exigia atenção e coordenação que hoje em dia a maioria das crianças nunca precisou desenvolver. Eu ainda lembro de uma tarde inteira jogando amarelinha com uma peça de tijolo quebrado como marcador. A linha do giz tinha sido riscada na calçada da minha rua há dias, e a parte do céu com o número 13 estava quase apagada. A gente improvisava passando o pé por cima quando o marcador não caía direito. Isso é o cerne das brincadeiras de antigamente. Não havia manual. Não tinha vídeo no YouTube ensinando. A regra era transmitida de criança para criança, e cada quadra ou conjunto de amigos tinha sua versão ligeiramente diferente.

Como era as brincadeiras de antigamente na prática

O formato básico funcionava assim: um grupo se reunia num espaço disponível — rua, praça, quintal, campo vazio — e a primeira criança dizia qual jogo iam jogar. As regras eram orais e podiam ser adaptadas no meio do jogo. Se uma nova criança chegasse, ela perguntava e entrava, ou criava uma variação. O limite era o espaço físico e a quantidade de participantes. Os jogos mais comuns que eu vejo surgirem nessas conversas são:

Pega-pega e suas variantes
O mais simples de todos. Uma criança era "que" e precisava tocar nos outros. Havia a variante "pega-pega gelo", onde quem era tocado congelava até que outro colega o libertasse. E tinha também o "pega-pega de mão", em que só se podia tocar com uma mão nas costas do outro. A regra variava conforme o grupo. Ninguém levava isso a sério demais, mas a discussão na hora de definir era constante. Amarelinha
Desenhava-se o esquema no chão com giz ou pedra. Cada casa tinha um número. A criança lançava um marcador — geralmente uma pedra achatada ou uma tampinha — e pulava o trajeto sem pisar nas linhas e sem pisar na casa onde o marcador estava. O erro mais comum era pisar na linha. Nesse caso, a vez passava. O jogo terminava quando alguém completasse todos os números de volta.

Elástico
Dois meninas prendiam as pontas do elástico nos pés enquanto uma terceira saltava. O elástico ia subindo de nível: tornozelo, joelho, cintura, peito, pescoço. Quem errava o salto ou enroscava o elástico com o pé saía da rodada. Esse jogo exigia coordenação motora fina, equilíbrio e ritmo. A falta de elástico barato nos anos 2000 praticamente eliminou essa brincadeira das ruas. Batalha de tampinhas
Tampinhas de garrafa PET ou de metal eram collectedas e usadas como moeda de jogo. Duas crianças colocavam as próprias tampinhas no chão e sopravam ou batiam com a mão para tentar virar a do adversário. A tampinha virada ia para o grupo de quem venceu. Esse jogo era intenso. Eu já vi crianças chegando em casa com os dedos ralados e roxos depois de bater forte demais no asfalto.

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Boca de forno, boneca de lata, pião, cabra-cega, pega-varetas
Cada um desses tinha suas regras específicas. Boca de forno misturava elementos de hide-and-seek com corrida. Pião dependia de técnica de arremesso e do equilíbrio do brinquedo. Cabra-cega funcionava com um tecido nos olhos e contagem até dez. Pega-varetas usava palitos de sorvete pintados com cores diferentes, e o desafio era retirar sem mover os outros. O que eu percebo ao analisar essas brincadeiras é que o aprendizado era social, não institucional. Não existia professor ou instrutor. As crianças observavam, erravam, corrigiam e ajustavam. Quando uma criança nova chegava, ela copiava o que via e, com o tempo,Propunha alterações. Esse ciclo de feedback rápido era eficiente e criava um senso de comunidade que jogos estruturados atualmente raramente oferecem.

Existe um detalhe prático que poucos mencionam: o risco real. As quedas, os joelhos ralados, osdedos atingidos por tampinhas ou bolinhas de gude. Isso moldava a percepção de perigo das crianças. Elas aprendiam a calcular distância, velocidade e impacto sem precisar de adulto dizendo "cuidado". Esseinstinto corporal era desenvolvido naturalmente e hoje é cada vez mais raro de se ver em crianças que passam todo o tempo em ambientes controlados. Um problema que eu enfrentei recentemente ao tentar essas brincadeiras para meus sobrinhos foi a falta de materiais básicos. Não se encontra mais giz de rua fácil. Tampinhas de metal sumiram por completo. Elástico de qualidade também. A solução que funcionou foi adaptar: usar giz atóxico em superfícies internas, substituir tampinhas por pedras lisas e comprar elástico novo em lojas de artesanato. O resultado foi bom, mas reconheço que a experiência original perde um pouco do sabor quando tudo é comprado pronto.

Outro ponto que vale a pena considerar é a questão do espaço. Brincadeiras como pega-pega e amarelinha precisam de área ampla e superfície plana. Em apartamentos ou cidades pequenas, isso é limitante. A alternativa é focar em jogos que cabem em espaços menores, como peões, boneca de lata e peças de papel dobrado. Se você quer introduzir essas brincadeiras para crianças hoje, o caminho mais simples é começar pelo pega-pega e amarelinha. São os mais fáceis de explicar e requerem menos preparação. Depois, conforme o interesse aumentar, você pode introduzir elástico, tampinhas e os demais. O importante é manter a atmosfera de diversão e não transformar tudo em uma aula estruturada. A magia dessas brincadeiras está justamente na espontaneidade e na participação direta das crianças na construção das regras.

Uma observação final: muitas dessas brincadeiras são patrimônio cultural imaterial e estão sendo documentadas por pesquisadores e educadores. Existem iniciativas online para preservar as regras originais, mas nada substitui a experiência prática de brincar. A teoria é útil, mas a prática é o que faz o jogo funcionar de verdade.