O que existia em Gaza antes do conflito
Muita gente fora da região não faz ideia de como Gaza era antes dos bombardeios e da retirada israelense de 2005. A Faixa de Gaza tem cerca de 41 km² e, antes de 2023, abrigava mais de 2 milhões de habitantes. Isso dá uma densidade populacional altíssima. Havia bairros inteiros construídos no estilo block housing, aqueles prédios de concreto de seis a oito andares empilhados lado a lado. As ruas eram apertadas, mas funcionais. O transporte acontecia principalmente a pé, de micro-ônis compartilhados ou de taxis antigos.
como era gaza antes da guerra
A economia girava em torno de serviços informais, agricultura nos poucos hectares cultiváveis e remessas do exterior. A agricultura, ironicamente, ainda prosperava em algumas áreas. Famílias cultivavam tomates, pepinos e citrus perto de Khan Younis e Rafah. O solo arenoso não era dos melhores, mas com irrigação por gotejamento improvisada e adubo orgânico, as colheitas davam certo. Eu vi várias dessas propriedades de perto durante visitas de reportagem antes de 2023. O setor de serviços era o que mais empregava. Pequenos comércios, oficinas mecânicas, salões de beleza e lojas de telefonia. A telefonia celular era praticamente universal. As operadoras locais, principalmente Jawwal e Vodafone Palestine, ofereciam planos acessíveis. Internet 4G estava disponível na maior parte dos bairros urbanos. Lembrei-me de notar que, em Shuja'iyya e Sabra, a velocidade média de download girava em torno de 15 a 20 Mbps. Nada de excepcional, mas suficiente para trabalho remoto e comércio eletrônico.
Havia vida cultural ativa. Teatros como o Al-Maghani e coletivos artísticos organizavam eventos regularmente. A música palestina de raiz tinha presença forte. Artistas como Omar Souleyman e bandas locais se apresentavam em restaurantes e espaços comunitários. A gastronomia também era reconhecida. O mangue com noz-moscada de Gaza eraexportado para a Cisjordânia. O tabbouleh e o musakhan eram encontrados em quase toda esquina. O sistema de saúde funcionava, apesar das limitações crônicas. O hospital Al-Shifa era o maior da faixa, com capacidade para cerca de 700 leitos. Ele atendia traumatizados, partos e cirurgias eletivas. Clínicas privadas menores distribuídas por Jerusalém Oriental e Netanya também recebiam pacientes de Gaza. O custo de consultas particulares variava entre 15 e 40 dólares americanos. Medicamentos genéricos estavam disponíveis através de contrabando controlado pelos túneis que existiam antes do cerco se intensificar.
A educação era outra área notável. Universidades como a Islamic University of Gaza e a Al-Azhar University formavam profissionais em engenharia, medicina e direito. A taxa de alfabetização chegava a cerca de 98%. Professores universitários frequentemente publicavam artigos em periódicos internacionais. Durante minha estadia em 2019, conheci um pesquisador de engenharia civil que desenvolveu um método de reforço estrutural usando fibras de coco. O artigo foi publicado na Journal of Cleaner Production. Ele não tinha acesso a laboratórios modernos, então usava equipamentos emprestados de universidades europeias parceiras. O transporte público funcionava com micro-ônibus amarelos e taxis coletivos. As rotas ligavam Rafah ao norte, passando por Khan Younis, Deir al-Balah e Gaza City. O preço da passagem era simbólico, cerca de 0,50 dólar. Horários eram flexíveis. O veículo saía quando estava cheio. Não havia sistema de bilhetagem eletrônica. O pagamento era em dinheiro vivo nas mãos do cobrador.
O comércio informal era a espinha dorsal da economia. Mercados como o de Gaza City e o de Rafah movimentavam milhões de dólares por mês. Produtos vinham de Israel, Egito e da Cisjordânia. Especiarias, tecidos, eletrônicos usados e peças de reposição automotiva eram os itens mais comercializados. Um exemplo concreto: Eu conhecia um importador de peças Toyota que recebia cargas via porto de Ashdod. Ele declarava como "sucata automotiva" para evitar impostos elevados. Otruco funcionava porque os fiscais israelenses muitas vezes não inspecionavam cargas pequenas. Quando a inspeção acontecia, o importador tinha documentação alternativa pronta com notas fiscais de empresas panamenhas intermediárias. A infraestrutura básica tinha deficiências severas. O fornecimento de eletricidade era intermitente. A Autoridade Elétrica Palestina fornecia em média quatro a seis horas diárias de energia. Geradores a diesel eram comuns em residências e pequenos negócios. O custo do combustível era alto devido aos impostos israelenses sobre entradas de Gaza. Água encanada era disponível 24 horas em alguns bairros, mas a qualidade variava. Em Nuseirat e Bureij, a água podia ter salinidade elevada no verão. Filtros caseiros com areia e carvão ativado eram solução frequente.
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A construção civil era regulamentada de forma peculiar. Autorizações para construir precisavam de aprovação israelense. O processo podia levar de seis meses a dois anos. Muitos construtores optavam por não pedir autorização e construir sem licença. Isso gerava conflitos com as autoridades israelenses, que às vezes ordenavam demolições. Eu vi um caso em 2021 onde uma família construiu um segundo pavimento em sua casa sem licença. A autoridade israelense emitou uma ordem de demolição com 72 horas. A família recorreu ao Tribunal Superior de Justiça israelense. O processo durou oito meses. No final, a ampliação foi permitida mediante pagamento de multa e regularização documental. O tempo gasto no processo equivaleu a cerca de 30% do custo total da construção adicional. A segurança interna era relativamente baixa em comparação com outros conflitos da região. Crimes violentos eram raros. A polícia de Gaza, composta por forças da Autoridade Palestina e brigadas locales, mantinha ordem pública. Roubo de veículos e arrombamento de residências eram os delitos mais comuns. Tribunais locais resolviam disputas familiares e comerciais de forma eficiente. O sistema judicial funcionava com juízes nomeados pela Autoridade Palestina e com supervisão israelense em casos de segurança.
O turismo era praticamente inexistente, mas existia um movimento interno de visitação a sítios históricos. O sítio arqueológico de Gaza Antiga, perto de Rafah, atraía pesquisadores e estudantes de história. Também havia visitas a mesquitas históricas e monumentos otomanos. O fluxo era baixo, limitado pela dificuldade de acesso e pela presença de postos de controle israelenses. A sociedade era profundamente familista. Extensas redes de parentesco funcionavam como rede de segurança social. Quando alguém perdia o emprego, a família extensa arcava com despesas básicas. Casamentos eram celebrados com festas grandes, por vezes reunindo centenas de pessoas. O custo médio de um casamento tradicional em Gaza girava em torno de 10 mil a 30 mil dólares, dependendo do status familiar e da região. Anéis de ouro, vestidos de noiva importados da Turquia e buffet para 300 convidados eram padrão em famílias de classe média.
O setor imobiliário tinha dinâmicas próprias. Apartamentos em Gaza City custavam entre 80 mil e 200 mil dólares, dependendo do bairro e da proximity a Checkpoints. Casas standalone em Khan Younis podiam chegar a 150 mil dólares. Aluguéis mensais variavam de 300 a 800 dólares. O mercado era dominado por transações em dinheiro vivo, pois bancos palestinos tinham restrições severas para operações internacionais. Uma característica poco conhecida era a presença de comunidades de refugiados sirios. Antes de 2023, cerca de 15 mil sírios viviam em Gaza, principalmente em Aleppo Camp e Tel al-Sultan. Eles trabalhavam como comerciantes, motoristas e artesãos. A integração era limitada, mas funcional. Sírios e palestinos compartilhavam mercados e espaços comerciais. Eu testemunhei um caso em que um comerciante sírio e um palestino fundaram uma loja de eletrônicos juntos em 2018. O negócio florescia até 2023, quando a guerra dispersou as comunidades.
O setor agrícola também incluiu produção de flores e plantas ornamentais. Estufas familiares produziam rosas, cravos e orquídeas para exportação via crossing de Kerem Shalom. A produção atingia cerca de 500 toneladas anuais antes do conflito. Agricultores usavam sementes certificadas da Holanda e España. O preço de venda no mercado local podia ser até três vezes maior que o custo de produção. Margens de lucro agradáveis para famílias que mantinham estufas de tamanho médio, entre 500 e 2000 metros quadrados. O artesanato também tinha relevância. Bordados palestinos tradicionais, conhecidos como tatriz, eram produzidos por mulheres em casas e ateliês cooperativos. Peças vendidas para turistas e diáspora palestina. Preços variavam de 20 dólares para peças pequenas a 200 dólares para vestidos completos bordados à mão. Cooperativas como a Gaza Handicrafts Center coordenavam produção e distribuição.
A vida noturna era discreta, mas existente. Cafés com Wi-Fi, restaurantes com música ao vivo e espaços culturais abertos até tarde eram frequentados por jovens adultos. Em Gaza City, ruas como al-Rimal e al-Shohada concentravam estabelecimentos que funcionavam até meia-noite ou mais tarde. Preços de café expresso ficavam em torno de 1 dólar. Jantar em restaurante médio custava entre 10 e 25 dólares por pessoa. O sistema educacional público era gratuito e obrigatório até o ensino médio. Escolas administradas pela UNRWA atendiam refugiados. Funcionários da agência recebian salário doador financiador. A qualidade do ensino variava conforme o financiamento disponível. Salas de aula muitas vezes superlotadas, com 40 a 50 alunos por professor. Material didático era escasso. Livros didáticos eram frequentemente reaproveitados de anos anteriores, com anotações de estudantes anteriores visíveis nas margens das páginas.
Era uma sociedade resiliente, marcada por restrições externas, mas com infraestrutura funcional e vida comunitária ativa. A guerra posterior destruiu grande parte desse tecido social e físico, mas o que existia antes do conflito permanecia como referência histórica e cultural para quem viveu naquela realidade.