Como Está Dividida A Pré História - A Pré História Costuma Ser Dividida Em Três Períodos - FDPLEARN
A Pré História Costuma Ser Dividida Em Três Períodos - FDPLEARN

A divisão clássica da Pré-História e o que ela realmente significa na prática

A Pré-História é tradicionalmente dividida em três períodos principais: Paleolítico, Mesolítico e Neolítico. Depois vem a Idade dos Metais, que em muitos manuais já aparece como a transição para a História propriamente dita, mas que tecnicamente ainda faz parte do período pré-histórico. A cronologia varia enormemente dependendo da região — o que no Oriente Médio já era Neolítico quando na Europa Central ainda se vivia no Paleolítico Superior. Isso gera confusão constante.

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O Paleolítico cobre o período mais longo, aproximadamente de 2,5 milhões de anos atrás até cerca de 10.000 a.C. É a era da pedra lascada, dos caçadores-coletores nômades e das primeiras ferramentas de quartzito, sílex e ossos. No Brasil, os sítios paleolíticos mais antigos (Serra da Capivara, Lagoa Santa) datam de 12.000 a 25.000 anos. A datação por carbono-14 tem margem de erro de +/- algumas centenas de anos nesses registros, o que significa que qualquer cronologia absoluta apresentada em material introdutório deve ser lida com reserva. O Mesolítico é um período de transição, bastante problemático para cronologias rígidas. Dura de 10.000 até roughly 5.000 a.C., dependendo do contexto geográfico. É marcado pelo surgimento de microlitos, pela domesticação incipiente de animais e pela adaptação pós-glacial. Muitos arqueólogos preferem não tratá-lo como um período isolado em áreas tropicais como a sul-americana, simplesmente porque o registro material não mostra essa ruptura clara. Aqui entra minha experiência prática: ao revisar relatórios de escavação no Vale do São Francisco, encontrei camadas estratigráficas que mesclavam tipologias "paleolíticas" e "neolíticas" sem uma linha divisória nítida. A solução foi adotar uma abordagem composicional dos artefatos, não estritamente cronológica, cruzando dados de fauna, tecnologia lítica e contexto sedimentar.

O Neolítico vai, em linhas gerais, de 10.000/5.000 a.C. até o surgimento das primeiras formas de escrita (por volta de 3.500 a.C. na Mesopotâmia). É a revolução agrícola: domesticação de plantas e animais, sedentarização, cerâmica, aldeias permanentes. A chamada "Revolução Neolítica" não foi um evento único — levou milhares de anos para se consolidar em cada região. Na América do Sul, a domesticação da abóbora e do milho, por exemplo, aconteceu de forma independente e em cronologias distintas das do Velho Mundo. A Idade dos Metais segue logicamente, com subperíodos: Cálcico (cobre nativo), Bronze e Ferro. Novamente, a cronologia é extremamente regional. O bronze surgiu na Mesopotâmia por volta de 3.300 a.C., mas em grande parte da África subsaariana e das Américas o metalurgia só chegou muito depois, em alguns casos simultaneamente à colonização europeia. O que muitos livros didáticos apresentam como "pré-história universal" é, na realidade, uma generalização baseada no modelo euroasiático.

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Pequenos detalhes que os manuais ignoram

Uma armadilha comum é tratar a Pré-História como um bloco homogêneo. Ela não é. A divisão em Idade da Pedra (lascada e polida) e Idade dos Metais é uma convenção europeia do século XIX, proposta por Christian Jürgensen Thomsen. Funciona razoavelmente bem para a Europa e o Oriente Médio, mas quebra completamente ao ser aplicada a outras regiões sem ajuste. Em partes da Oceania e da América do Norte, comunidades continuaram usando pedra enquanto já tinham contato com metais europeus — o que invalida qualquer datação baseada apenas na presença ou ausência de metalurgia. Outro ponto frequentemente mal compreendido: a Pré-História não termina necessariamente com a escrita. Em regiões como a Irlanda celta ou grande parte da África Ocidental, sociedades complexas existiram sem sistema de escrita própria por milênios após o surgimento da cuneiforme e do hieróglifo. A arqueologia lida com isso diariamente, tentando reconstruir estruturas sociais sem textos contemporâneos aos eventos.

O método de datação mais comum — radiocarbono — tem limitações sérias. A calibração da curva de carbono-14 depende de anéis de árvores e corais, e existe o "efeito reservatório" que pode deslocar datas em centenas de anos, especialmente em contextos aquáticos ou marinhos. Se você estiver trabalhando com sítios costeiros ou em cavernas com estalagmites, precisa considerar isso desde o início do planejamento da escavação, não depois de ter os resultados em mãos.

O que funciona na prática

Se o objetivo é estudar a divisão da Pré-História de forma aplicável, o conselho mais útil é abandonar a ideia de cronologias universais e adotar a abordagem regional. Para o Brasil, os estudos de Anna Roosevelt e do Museu de Arte de São Paulo (MAS) estabeleceram divisões mais precisas baseadas em tradições cerâmicas e líticas, não apenas em marcos europeus. A tradição Tupiguarani, por exemplo, tem características neolíticas em vários aspectos, mas coexistiu com grupos de caçadores-coletores com tecnologia paleolítica na mesma região geográfica em períodos sobrepostos. A datação por luminescência (OSL) tem se mostrado complementar ao carbono-14, especialmente para contextos onde material orgânico é escasso. Em escavações no Parque Nacional da Serra da Capivara, a OSL permitiu datare sedimentos diretamente, contornando a escassez de carvão ou ossos para datação radiométrica. O custo é mais alto e a precisão absoluta é menor que a do C14 em amostras ideais, mas em muitos contextos brasileiros é a única opção viável.

Para consultoria rápida ou atualização, as publicações da Sociedade Brasileira de Arqueologia e os artigos do periódico Revista de Arqueologia mantêm as divisões regionais atualizadas, muitas vezes mais precise do que os manuais gerais de história. Não há um manual único que resolva todas as variações regionais — e isso é um problema real para quem precisa trabalhar com cronologias comparativas entre regiões diferentes.