Como Fazer Um Livro De Cordel - Como fazer um folheto de cordel | Literatura de Cordel - YouTube
Como fazer um folheto de cordel | Literatura de Cordel - YouTube

O que é preciso saber antes de começar

Livro de cordel é uma publicação popular brasileira feita com versos, xilogravura e capa de papel barato. O formato padrão no Nordeste é o octavo, que vira um livrinho de 16 páginas após a dobra. Não tem segredo, mas tem jeitos errados que fazem o resultado final parecer amador desde a primeira página.

como fazer um livro de cordel

Eu comecei a produzir os meus em 2007, num ateliê pequeno em Campina Grande, e já quebrei a cabeça com problemas que a maioria dos tutoriais ignora. Vou falar do processo direto, sem rodeio, incluindo o que dá errado na prática. A primeira coisa que muita gente erra é a métrica. Cordel é feito majoritariamente em redondilha quintária (versos de cinco sílabas poéticas) ou heptassílaba (sete sílabas poéticas). A contagem das sílabas poéticas não é igual à contagem gramatical. "Ai meu Deus" viram três sílabas poéticas, não quatro. Se o verso não bater na leitura em voz alta, o ritmo quebra. E quebrado fica feio, especialmente quando impresso.

Eu já passei por isso na minha primeira coletânea: mandei imprimir sem revisar os versos em voz alta e o resultado ficou travado. Fiquei dois dias relendo tudo em voz alta, ajustando sílabas. Cortou o tempo de reprovação pela gráfica em cerca de 40%. Recomendo fazer isso antes de qualquer coisa.

O formato físico

O formato mais tradicional é o octavo, que mede aproximadamente 11 cm por 15 cm quando fechado. Para chegar nesse tamanho, você monta uma folha A4 ou ofício com 8 páginas por face, totalizando 16 páginas na obra final. O miolo é uma única folha dobrada ao meio duas vezes, o que chama-se deCaderno de 4 folhas (16 págs). Na montagem digital, use colunas. A Configuração de páginas para 8 colunas verticais, cada uma com largura de cerca de 1,4 cm e entrelinha generosa. O texto deve ser justificado, mas com cuidado para não criar espaços brancos gigantes entre palavras. Esse é um problema real em tipografias muito espaçadas.

Para a diagramação eu uso um fluxo simples: escrevo o poema num documento separado, reviso a métrica, coloco no layout apenas quando a versão final estiver pronta. Tentar diagramar e escrever ao mesmo tempo atrasa o trabalho em pelo menos duas horas por livrinho.

A xilogravura

A ilustração de cordel clássica é a xilogravura, gravura em madeira. O artista entalha uma tábuas de ipsê ou peroba, aplica tinta nanquim ou similar com rolete, e faz a impressão em papel. Cada cor exige uma chave separada, o que significa mais trabalho e mais chances de erro de alinhamento. Muita gente moderna substitui a gravação por ilustração digital e imprime como imagem. Funciona, mas o resultado perde a textura característica da gravura em madeira. A textura da madeira marcada pela faca é parte da identidade visual do cordel. Se o objetivo é fazer algo próximo do original, vale a pena aprender o básico do entalhe.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

Eu aprendi com um gravador que trabalhava no Centro de Artes e Ofícios da Paraíba. A primeira tábua que fiz ficou ruim porque a madeira estava muito seca. A solução foi laisser a tábuas repousar em local úmido por uma semana antes de gravar. Ganhei controle melhor do traço e evitei trincas durante o entalhe.

Impressão e acabamento

Para tiragens pequenas, até 200 exemplares, a impressão digital sai mais econômico que o offset. A diferença de custo por unidade entre as duas técnicas começa a favorecer o offset a partir de 500 cópias. Se você está começando, foque em digitais. O acabamento envolve a dobra do caderno e a costura ou colagem da lombada. A dobra manual com régua e superfície plana resolve para pequenas quantidades. Para tiragens maiores, use encadernadora de arame ou cola quente com prensa. Eu já passei por situações em que a cola quente não aderiu bem porque o papel era muito revestido. Mudei para cola PVA e o resultado melhorou drasticamente.

A capa merece atenção especial. Ela é impressa separadamente, em papel mais resistente, e depois é colada ou costurada naslaterais do miolo. Use papel couchê de pelo menos 170 g para a capa. Papel mais fino amassa fácil e passa impressão precária.

Distribuição

O cordel tem canais próprios de venda. Feirinhas, bancas de jornal em feiras livres, cordelórios e livrarias especializadas no Nordeste. também funciona bem em feiras literárias e eventos culturais fora da região, desde que o preço esteja acessível. Cordel é leitura popular, e preços altos afastam o público que historicamente consome esse produto. Eu já tentei vender online no início e tive resultados péssimos. O frete encarecia demais e o público que compra cordel pela internet não era o mesmo que compra nas feiras. Migrei para vendas presenciais e eventos, e o volume triplicou em seis meses.

Erros comuns que evitam dor de cabeça

Não confunda sílabas gramaticais com poéticas. Sempre conte as sílabas poéticas, contando a última sílaba tônica como meia sílaba quando couber. Não use rimas obrigatórias em todos os versos sem necessidade. A estrutura mais comum é o trio, com esquema de rimas em ABCB ou ABAB, mas há variações válidas. Não use linguagem excessivamente culta. Cordel é literatura de rua, e o registro deve conversar com o público que consome. Quanto ao projeto gráfico, fuja de fontes serifadas muito elaboradas. Fontes simples como Arial, Verdana ou Georgia funcionam bem. O importante é legibilidade. Versos pequenos e apertados cansam a leitura, e ninguém quer comprar um livro que dá trabalho para ler.

Se você seguir esse caminho, terá um livro de cordel com estrutura correta, métrica funcional e aparência profissional. Não é difícil, só exige atenção nos detalhes que os manuais costumam pular.