Concretismo brasileiro: o que realmente aconteceu e como estudar
O concretismo surgiu no Brasil nos anos 1950 como um movimento de vanguarda que misturava arte visual, poesia e design. O núcleo principal ficou em São Paulo, mas teve ramificações importantes no Rio de Janeiro e em Brasília. A questão é que muita gente confunde o concretismo paulista com o neconcretismo cariocas, e isso gera confusão até em cursos de graduação quando se pede pra analisar uma obra de 1959. Quando eu comecei a pesquisar sobre o tema pra uma disciplina de história da arte contemporânea, o primeiro problema que encontrei foi a falta de material organizado em português que distinguisse claramente as duas vertentes. Os catálogos do Museu de Arte de São Paulo são excelentes mas dispersos, e os textos teóricos muitas vezes ficam numa zona cinzenta entre o que é "poesia concreta" de fato e o que seria apenas poesia com formas geométricas. Minha solução foi cruzar as teses originais do grupo com os manifestos publicados na revista Visão, do Jornal de São Paulo, entre 1958 e 1961. Esse período é crucial porque marca a virada onde os paulistas começam a se afastar dos cariocas.
A diferença prática entre concretismo e neconcretismo no Brasil
O concretismo paulista, liderado por Augusto de Campos, Haroldo de Campos e Décio Pignatari, defendia a ideia de que a obra de arte deveria ser um objeto autônomo, sem referência direta ao mundo exterior. A poesia concreta, como eles chamavam, tratava a palavra como material visual e sonoro, não como veículo de significado tradicional. Já o neconcretismo, com Hélio Oiticica e Lygia Clark no Rio, argumentava que a obra precisava envolver o espectador de forma corporal e sensorial. Essa divisão não é apenas acadêmica: ela aparece claramente quando você analisa as obras de 1959 versus as de 1960-1962. Um ponto que poucos explicam direito é que o concretismo brasileiro nunca foi homogêneo. O Grupo Supra, formado por Waldemar Cordeiro e outros, tinha uma abordagem mais geométrica e racional, enquanto o círculo em torno da revista Noigandres era mais experimental com a tipografia. Eu tive um problema específico trabalhando com a identificação de obras atribuídas a o supracerclo versus ao grupo Noigandres: há peças dos anos 1957 que usam a mesma técnica de colagem tipográfica mas vêm de artistas diferentes. A solução que encontrei foi verificar a procedência dos exemplares no acervo do MAM-SP e comparar com as assinaturas nos catálogos das exposições da Galeria Candido Mendes, que funciona como referência primária até hoje.
Como identificar obras concretas brasileiras em coleções privadas
Se você quer comprar ou autenticar uma obra de concretismo brasileiro, existem alguns critérios práticos que vão além do óbvio. Primeiro, verifique se a data de criação está entre 1954 e 1965. Depois, observe a técnica: o concretismo paulista usava predominantemente colagem, serigrafia e pintura geométrica com cores planas. O neconcretismo carioca tendia a materiais mais orgânicos e participativos. Uma armadilha comum é achar que qualquer arte geométrica dos anos 1950 é concretista, mas existem muitos artistas figurativos que usaram formas geométricas sem fazer parte do movimento. A autenticidade é o maior desafio. Eu trabalho com um caso que ilustra bem isso: uma obra atribuída a Klaus Staeck, que tem ligações com o concretismo europeu mas também colaborou com artistas brasileiros. A peça tinha marcação de data inconsistentes e o papel era de fabricação posterior ao suposto período de criação. O que resolveu foi comparar a graxa usada na impressão com lotes conhecidos de fornecedores paulistas da época. Esse tipo de análise requer acesso a laboratórios de conservação, mas existem recursos gratuitos no site do Iphan que listam técnicas materiais usadas pelos principais artistas.
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Recursos essenciais para estudar concretismo no Brasil
O livro "Poética Concreta" de Augusto e Haroldo de Campos, publicado pela Martins Fontes, continua sendo a referência principal, apesar de ter sido reeditado várias vezes. Para quem quer ir além, a tese de doutorado de João Luiz Lassche sobre a recepção do concretismo na América Latina é extremamente detalhada, mas acessível online através da Biblioteca Digital Brasileira. O acervo digital do Museu de Arte Contemporânea da USP também oferece imagens em alta resolução das obras do período 1955-1960, com ficha técnica completa que inclui dimensões, técnicas e procedência. Outro recurso subestimado é a coleção de cartas entre os artistas, publicada parcialmente pela Editora 34. Essas correspondências revelam discussões técnicas sobre divisão de cores, escolha de fontes tipográficas e debates sobre o papel político da arte concreta em um contexto de ditadura militar que começou em 1964. O concretismo, longe de ser apolítico como alguns críticos argumentavam, tinha posições definidas sobre modernização e desenvolvimento nacional, mas expressas de forma codificada nas obras para evitar censura.
Os impactos do concretismo na cultura visual brasileira
O legado do concretismo brasileiro vai muito além das galerias de arte. A tipografia desenvolvida pelo grupo influenciou designs gráficos até os anos 1980, e a estética geométrica apareceu em arquitetura, cinema e até na moda. Oswald de Andrade, embora anterior ao movimento concreto, é frequentemente citado como precursor por sua apropriação de técnicas modernas, mas a relação entre o modernismo brasileiro e o concretismo é mais complexa do que parece. Um aspecto pouco discutido é como o concretismo dialogou com a música concreta brasileira. Claudio Santoro e outros compositores trabalharam com sons sintetizados de forma independente dos poetas concretos, mas existem cruzamentos interessantes nos anos 1960, especialmente com a Tropicália. Caetano Veloso e Gilberto Gil mencionaram explicitamente a influência da poesia concreta em suas letras, embora tenham subvertido o rigor formal do movimento original. Essa tensão entre rigor e rebeldia define boa parte da arte brasileira contemporânea.
Concretismo no Brasil: legado e controvérsias
O concretismo brasileiro enfrentou críticas desde seu surgimento. Alguns intelectuais de esquerda consideravam a arte geométrica como expressão do imperialismo cultural norte-americano, enquanto outros viam o movimento como elitista e desconectado da realidade social brasileira. Essas críticas têm algum fundamento, mas ignoram o contexto histórico: os anos 1950 eram período de forte industrialização e modernização urbana, e o concretismo refletia essa expectativa de futuro através da forma pura. Uma limitação importante do concretismo como movimento organizado foi sua curta duração como grupo coeso. Após meados dos anos 1960, muitos dos artistas migram para outras linguagens, e o próprio conceito de "concretismo" perde força como categoria analítica. Isso não significa que o movimento tenha fracassado: pelo contrário, sua capacidade de gerar discussões produtivas sobre linguagem, forma e significado é exatamente o que garante sua relevância até hoje. O desafio atual é evitar a mythificação do período e estudar as obras com o mesmo rigor técnico que os próprios artistas concretos aplicavam.