Congada Em Minas Gerais - Minas Gerais traz a tradição das congadas e quadrilha para o Festival ...
Minas Gerais traz a tradição das congadas e quadrilha para o Festival ...

O que é e como funciona a congada mineira na prática

A congada em Minas Gerais é uma tradição que mistura música, dança e devoção com raízes africanas, católicas e indígenas. Ela acontece principalmente durante as festas de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário. Existem dois grupos principais que você precisa entender logo de cara: os Congos de Caipira e os Congos de Mato. Cada um tem coreografia, indumentária e repertório próprios. Muita gente acha que é só subir num palco e tocar. A realidade é bem mais burocrática. Para realizar uma congada em Minas Gerais de forma legal, você precisa de autorização da prefeitura, alvará de uso do solo para o local, e se for em via pública, o afastamento de faixa e o controle de ruído. Isso sem contar a questões de segurança e primeros socorros que exigem profissional habilitado.

Por que a congada em minas gerais é diferente das outras?

O que torna a congada mineira distinta é a mistura específica de elementos. Enquanto no Rio de Janeiro você tem o maracatu e a congada carioca com suas características próprias, em Minas a presença dos batuques de terreiro e as influências das irmandades religiosas do século XVIII criam um cenário único. O uso do gonguê, da caçamba e dos berimbaus varia de região para região dentro do estado. Em Patos de Minas, por exemplo, os Congos de Caupim têm uma tradição completamente diferente dos Congos de Uberlândia, que ficam do outro lado da fronteira mas compartilham raízes. Outro ponto que os iniciantes sempre ignoram: a congada não é uma única performance. Ela tem uma estrutura ritualística própria que inclui a vovó, o capitão-mor, os congos de cavalo, as princesinhas, as baianas e os batuqueiros. Cada personagem tem função específica e saber a hierarquia é essencial para organizar qualquer apresentação ou evento.

Um problema real que eu encontrei na prática diz respeito à questão dos instrumentos de percussão artesanais. Muitos grupos tentam reproduzir os tambores originais mas acabam usando couro sintético ou peles tratado com produtos químicos que estragam o som e ainda podem ser rejeitados por fiscalizações de vigilância sanitária quando o grupo entra em espaços fechados ou gastronômicos. A solução que funcionou foi mapear curtidores tradicionais em cidades como Araxá e São João del-Rei, que trabalham com couro vegetal de forma adequada, garantindo tanto a qualidade sonora quanto a conformidade com normas básicas de saúde.

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Montando um grupo de congada: o passo a passo técnico

Se você quer formar um grupo ou organizar uma apresentação, comece pelos fundadores. Pelo menos três pessoas comprometidas a longo prazo. Congada é tradição, não produto descartável, e grupos que nascem sem estrutura social sólida geralmente se desfazem em dois ou três anos. O primeiro grupo que vi desmoronar foi por falta de acordo escrito sobre quem compra os instrumentos, quem define o repertório e como são divididos os custos de deslocamento. Depois disso, você precisa decidir qual linhagem vai seguir. Os Congos de Caipira seguem uma coreografia mais abierta, com cavalinhos de pau e uma movimentação que lembra o bumba meu boi. Já os Congos de Mato mantêm uma estrutura mais fechada e solene. Isso define tudo: desde o que vocês vão vestar até as músicas que vão tocar. Não adianta querer fazer os dois, porque o repertório é incompatível.

O repertório em si é composto por pontos de tambor, cantigas de chamado e resposta, e os toques específicos de cada personagem. Um grupo completo de congada precisa de pelo menos oito percussionistas, quatro cantadores, um gongueiro, um caçambeiro e os dançarinos de cavalo. Menos que isso, a coisa não funciona musicalmente. A densidade sonora é que dá a textura certa. A questão financeira é outro ponto cego. A maioria dos grupos subestima o custo anual. Um gonguê de tamanho adequado custa entre 1.500 e 4.000 reais, dependendo da origem e do artesão. Cada cavalinho de congo varia de 300 a 800 reais. O conjunto de fantasias para um grupo de 20 pessoas gira em torno de 8.000 a 15.000 reais se feito sob medida por mestres trapisqueiros locais. Sem contar os instrumentais de percussão adicionais, o transporte, os salários dos músicos para eventos pagos e a alimentação durante as apresentações.

Questões legais e preservação cultural

O INEPAC, o Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural de Minas Gerais, reconheceu a congada como patrimônio cultural imaterial do estado em 2010. Isso traz algumas vantagens, como acesso a editais e possíveis incentivos fiscais, mas também impõe obrigações. Grupos que recebem recursos públicos precisam prestar contas e manter registros documentais das atividades. É burocrático, mas evita problemas futuros. Para eventos religiosos, a situação muda. As festas de São Benedito e de Nossa Senhora do Rosário são tradicionalmente organizadas por irmandades e confrarias. Se você quer se apresentar nessas festas, precisa entrar em contato com a irmandade local com meses de antecedência. O calendário é apertado e as vagas são disputadas. Muitos grupos jovens acabam tocando apenas em espaços seculares porque não conseguem inserção nos terreiros tradicionais, o que acaba empobrecendo a transmissão cultural.

Um detalhe que poucas pessoas levam em conta: a gravação audiovisual de congadas emcontextos religiosos pode conflitar com normas canônicas e com a própria sensibilidade dos fiéis. Alguns grupos foram multados ou tiveram apresentação suspensa por gravarem durante momentos de reza e procissão. Sempre consulte a comissão organizadora antes de qualquer registro de imagem. O maior gargalo atual da congada em Minas Gerais é a falta de continuidade geracional. Os mestres estão envelhecendo e os jovens estão migrando para outros estilos musicais mais visíveis comercialmente. Grupos que conseguem manter a tradição sem abandonar a renovação, como os que atuam em Diamantina e Teófilo Otoni, investem em oficinas dentro das escolas e em parcerias com universidades para documentação etnomusicológica. Isso funciona, mas exige dedicação de tempo que muitos líderes de grupo não têm disponível por necessidade de renda alternativa.