Covid Em Gravidas - Governo recomenda vacinação contra Covid-19 em gestantes e puérperas ...
Governo recomenda vacinação contra Covid-19 em gestantes e puérperas ...

O que realmente acontece com a gravidez quando o paciente testa positivo

A maioria das gestantes que chegam ao meu consultório com suspeita de covid não estão preocupadas com o vírus em si. Elas estão preocupadas com o que ele pode fazer com o feto. Essa é a primeira coisa que eu preciso deixar clara logo de cara: o risco maior não é a placenta ser invadida, porque isso é relativamente raro. O risco real está na reação inflamatória sistêmica que a mãe desenvolve. Já vi casos em que a gestante estava com febre de 39 graus e três dias de evolução, e o monitoramento fetal mostrou variabilidade reduzida no cardiotocograma. Não era hypoxia direta do feto. Era a resposta materna que estava comprometendo a perfusão uteroplacentária por vasoconstrição e dessaturação. Quando a febre foi controlada, tudo voltou ao normal em algumas horas. Esse é o tipo de coisa que não aparece nos resumos de guideline.

O que a literatura recente mostra sobre covid em gravidas

Os dados mais sólidos que temos agora apontam que gestantes infectadas pelo SARS-CoV-2 têm risco aumentado de pré-eclâmpsia, parto prematuro e cesárea de emergência. O risco relativo de pré-eclâmpsia dobra em gestantes hospitalizadas por covid, segundo metanálises de 2023. O mecanismo parece estar ligado à disfunção endotelial causada pela citokinemia, não pela invasão viral direta do trofoblasto. Igualmente importante: a vacinação prévia altera completamente o curso da doença. Gestantes vacinadas que desenvolvem covid têm taxa de internação cerca de 80% menor do que as não vacinadas, segundo dados do SIVEP-Gripe. Isso não é especulação, é número que eu vejo todo dia nos prontuários aqui.

Um detalhe que muitos profissionais ainda passam por alto é o timing da infecção. Covid no primeiro trimestre está associada a um leve aumento no risco de defeitos cardíacos congênitos, mas o risco absoluto continua baixo — na casa de 1 a 2 por mil adicionais. Já a infecção no terceiro trimestre é quem mais preocupa, porque é quando a placenta atinge sua maturidade máxima e qualquer comprometimento inflamatório afeta diretamente o crescimento fetal. Já atendi uma gestante de 34 semanas que teve covid severa e, ao final, o ultrassom mostrou restrição de crescimento intrauterino diagnóstico. Ela tinha tido febre alta persistente entre a 31ª e a 33ª semana. Não conseguimoś reconectar a linha temporal com 100% de certeza, mas a associação clinicamente faz sentido.

Conduta prática quando o exame der positivo

O primeiro passo é confirmar se a paciente realmente precisa de acompanhamento especializado ou se pode ser manejada em nível ambulatorial. Os critérios de hospitalização incluem: saturação abaixo de 95% em ar ambiente, frequência respiratória acima de 24, frequência cardíaca acima de 125, pressão sistólica abaixo de 90, ou alteração na consciência. Se algum desses estiver presente, a gestante precisa ir para o hospital. Sem discussão. Para os casos leves que ficam em casa, o manejo é basicamente de suporte. Dipirona para febre, hidratação oral ou venosa se necessário, e monitoramento fetal diário a partir da viabilidade — que na maioria dos lugares é considerada a partir das 23 semanas. A regra dos chutes é simples: contar os movimentos fetais. Se a gestante perceber redução significativa, volta para a unidade. Eu sempre peço para ela fazer a contagem de duas em duas horas após as refeições, porque é quando o feto tende a estar mais ativo.

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Sobre nirsevimabe e anticorpos monoclonais: a gestante elegível para nirsevimabe (RN prematuros e crianças até 8 meses em grupos de risco) não se aplica diretamente, mas a prevenção passiva por anticorpos monoclonais anti-SARS-CoV-2 tem sido estudada em gestantes como forma de proteger o neonato. Ainda não é protocolo universal no SUS, mas alguns serviços públicos já oferecem em contextos de surto.

Pegadinhas que eu vi dar errado muitas vezes

Uma coisa que todo mundo erra é subestimar a dessaturação em gestantes. O consumo de oxigênio aumenta cerca de 20% na gravidez, e a capacidade residual funcional diminui porque o diafragma é comprimido pelo útero grávido. Isso significa que uma gestante pode parecer estável com saturação de 92% quando, na verdade, ela já está em descompensação respiratória precoce. A saturação cai mais rápido e mais fundo do que em pacientes não gestantes. Eu já vi uma paciente de 36 semanas com saturação de 90% que disse estar "bem". Ela estava ofegante, mas achava que era normal pela gravidez. Foi internada e precisou de O2 de alto fluxo no dia seguinte. Outro ponto: a interpretação do cardiotocograma durante a infecção. Febre materna altera a frequência cardíaca fetal. Cada grau de febre materna eleva a FC fetal em aproximadamente 10 batimentos por minuto. Se você não registrar a temperatura da gestante no momento do toque, pode interpretar erroneamente uma taquicardia fetal como sofrimento agudo, quando na verdade é apenas febre. Anotar a temperatura junto com o CTC muda completamente a leitura.

Também vale mencionar que a COVID não é contraindicação para amamentação. O vírus não é transmitido pelo leite materno, e os anticorpos IgA e IgG específicos são encontrados no colostro e no leite maduro. O que eu recomendo é que a mãe use máscara durante a amamentação se estiver ainda no período contagioso, lave bem as mãos antes, e sempre que possível expresse o leite se estiver muito sintomática para que outra pessoa faça a oferta. Isso preserva a lactação e protege o recém-nascido com os anticorpos maternos.

Informações sobre covid em gravidas que valem a pena consultar

O Ministério da Saúde atualizou suas orientações diversas vezes ao longo da pandemia, e as versões mais recentes podem ser encontradas no portal gov.br/saude. O Colégio Brasileiro de Ginecologia e Obstetrícia (COBRASG) também publicou diretrizes específicas para o manejo da covid-19 na gestação, com algoritmos de conduta baseados no trimestre e na gravidade. A Organização Mundial da Saúde mantém um documento guia que é referência internacional e é gratuito. Um recurso prático que uso frequentemente é o calculador de risco do NIHB (National Institute for Health and Care Excellence) do Reino Unido, que leva em conta idade gestacional, comorbidades e resultados de exames para estratificar o risco de desfecho adverso. Ele não é específico para gestantes brasileiras, mas os princípios fisiopatológicos são os mesmos.

O que eu gostaria que ficasse claro é que a gestante com covid precisa de acompanhamento multidisciplinar. Não adianta só o obstetra ou só o infectologista. O manejo ideal envolve os dois, com participação de neonatologia quando há risco de prematuridade, e de clínica médica se a gestante tiver comorbidades prévias. Esse é o padrão que eu sigo e que tenho visto melhores desfechos.