Criança Com Tontura - A tontura na infância pode ser... - Dr. Douglas Ribeiro
A tontura na infância pode ser... - Dr. Douglas Ribeiro

Entendendo e Lidando com Tontura em Crianças

Um dos temas que mais aparecem nos fóruns pediátricos é criança com tontura. Pais chegam desesperados porque o filho de repente relata que o quarto está girando, que sente falta de equilíbrio, ou simplesmente desmaia na sala de aula. O problema é que "tontura" é um termo extremamente vago, tanto para a criança descrever quanto para o médico interpretar. Na prática, o que os pais relatam pode ser desde uma vertigem verdadeira até apenas mal-estar passageiro por desidratação leve.

Quando uma criança com tontura precisa de atenção médica imediata

Aqui vai algo que poucos pais sabem: a maioria dos casos de tontura infantil não é grave. As causas mais comuns são desidratação, hipoglicemia, ansiedade, efeitos colaterais de medicamentos e distúrbios vestibulares benignos como a vertigem posicional paroxística benigna (VPPB). Mas existem sinais de alerta que exigem consulta urgente. Dor de cabeça intensa e repentina, vômitos persistentes sem náusea previa, perda de consciência, dificuldade para andar ou falar, fraqueza em membros, ou tontura que ocorre após trauma craniano são motivos para ir ao pronto socorro imediatamente. No meu atendimento, já vi um caso em que uma menina de 9 anos fazia birra na escola porque "o chão tremeu". A mãe achava que era problema comportamental. Na verdade, ela tinha uma deficiência auditiva não diagnosticada no ouvido interno que causava vertigem intermitente. Levaram três consultas até o pediatra solicitar uma avaliação otoneurológica completa. Isso mostra que o histórico clínico detalhado vale mais do que qualquer exame isolado.

O primeiro passo quando uma criança relata tontura é documentar exatamente o que acontece. Anote a hora do dia, o que ela estava fazendo antes do episódio, quanto tempo durou, se houve perda de consciência, e se ela consegue se lembrar do que sentiu depois. Esses detalhes eliminam cerca de 60% das hipóteses diagnósticas antes mesmo do exame físico. Uma coisa importante que muitos profissionais de saúde esquecem é que crianças pequenas frequentemente descrevem sensações viscerais como tontura. Um estômago revirado por ansiedade, uma palpitação por febre, ou mesmo fome — tudo isso pode ser relatado como "tontura" pela criança. O pediatra precisa fazer o diferencial entre vertigem verdadeira (sensação de movimento do ambiente), pressyncope (quase desmaio por queda pressórica), e desequilíbrio propriocetivo (dificuldade de coordenação motora).

Métodos de Avaliação Clínica

A abordagem prática começa com a medição de pressão arterial ortostática. Peça para a criança medir a pressão deitada, depois em pé, aos 1 minuto e aos 3 minutos. Uma queda de 20 mmHg na sistólica ou 10 mmHg na diastólica em pé já indica hipotensão ortostática, uma das causas mais frequentes de tontura em adolescentes, especialmente meninas. Em um estudo com mais de 2.000 adolescentes, 18% apresentaram alterações orthostáticas significativas. O exame de Hallpike, usado para diagnosticar VPPB, é pouco conhecido fora da otorrinolaringologia mas relativamente simples de aplicar. Consiste em deitar a criança rapidamente com a cabeça virada para um lado e pendendo para trás da cama. Se houver nistagmo (movimento rápido dos olhos) seguido de vertigem, o diagnóstico é confirmado. O tratamento é o manobra de Epley, que reposiciona os cristais de carbonato de cálcio deslocados no labirinto. Funciona na grande maioria dos casos em uma única sessão.

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Exames laboratoriais de rotina para tontura infantil incluem hemograma completo, glicemia, eletrólitos sódico e potássio, e função tireoidiana. A taxa de saturação de ferritina também merece atenção, pois deficiência de ferro sem anemia franca já foi associada a tonturas recorrentes em crianças. Um erro comum é pedir tomografia de crânio de imediato para qualquer criança com queixa de tontura. Isso raramente é necessário sem sinais neurológicos focais e expõe a criança a radiação desnecessária.

Cuidados e Manejo no Dia a Dia

Para os casos benignos, que representam a maioria esmagadora, o manejo é simples mas exige consistência. Hidratação adequada é fundamental. Crianças em idade escolar muitas vezes seguram a sede durante as aulas porque têm vergonha de pedir para ir ao banheiro. O resultado é desidratação crônica leve que se manifesta como tontura intermitente. Estimular a ingestão de água durante o dia, não apenas quando a criança já está com sede, resolve muitos casos. A alimentação também desempenha papel importante. Pular o café da manhã é um gatilho frequente de tontura em crianças, especialmente naquelas com tendência a hipoglicemia reativa. Um pequeno lanche rico em proteína e fibras antes da escola pode evitar episódios ao longo do dia. Já vi pacientes adolescentes que tinham crises de tontura toda tarde apenas porque não tinham comido nada desde o almoço.

Em casos de vertigem recorrente sem causa identificável, a reabilitação vestibular com fisioterapeuta especializado pode reduzir a frequência dos episódios em até 70% em algumas semanas. O tratamento consiste em exercícios de habituação e estabilização da visão que promovem a adaptação central do sistema vestibular. É honesto dizer que existem limitações nessa abordagem. A tontura psicogênica, por exemplo, não responde bem a exames ou medicamentos convencionais e requer avaliação psicológica. O mesmo vale para migranas vestibulares, que podem se manifestar apenas como tontura sem dor de cabeça significativa, especialmente em crianças mais jovens. Nestes casos, o diagnóstico é clinico e o tratamento é preventivo com modificação de estilo de vida e, quando indicado, medicação profilática.

A chave é não subestimar a queixa mas também não medicalizar excessivamente. A maioria das crianças que procuram atendimento por tontura tem um diagnóstico benigno e autolimitado. O que faz diferença é o acompanhamento adequado e a exclusão das causas graves através de uma avaliação clínica cuidadosa.