Entendendo a criatividade segundo Fayga Ostrower na prática
Quando você lê criatividade e processos de criação fayga ostrower pela primeira vez, a sensação é de que está diante de algo muito teórico. O livro de 1987 da artista e teórica brasileira é pesado, dense, com referências a Merleau-Ponty, Bachelard e Sartre distribuídas por quase 200 páginas. Mas o conteúdo em si é diretamente aplicável a qualquer pessoa que produza algo de forma regular. Arquitetos, designers, escritores, artesãos. Qualquer um que precise gerar trabalho novo. A ideia central de Ostrower é simples mas subverte muita coisa que se ouve por aí: a criatividade não é um dom misterioso que cai do céu. É um processo que envolve dimensões cognitiva, afetiva e volitiva funcionando juntas. A dimensão cognitiva é o conhecimento que você tem. A afetiva é o que você sente sobre o problema. A volitiva é a vontade de realmente seguir adiante e executar. Quando uma dessas três fica fraca, o processo criativo travado. Isso é algo que eu aprendi na prática depois de perder semanas inteiras em projetos que pareciam bons no papel mas simplesmente não saíam do lugar.
Como aplicar criatividade e processos de criação fayga ostrower no dia a dia
O primeiro passo é reconhecer que a criatividade exige confrontar a negatividade. Ostrower chama isso de "transcendência da negatividade". Em termos práticos, significa que você precisa encar o vazio, a dúvida, a insegurança como parte necessária do processo. Não são obstáculos a serem eliminados antes de criar. São o material bruto da criação. Eu já vi gente passar dias inteiros tentando "se sentir inspirada" antes de começar qualquer coisa. Segundo Ostrower, essa abordagem está errada do início ao fim. A inspiração não precede a ação. Ela surge durante a ação. O método prático que funciona é o seguinte. Você começa com o problema tal como ele é, sem tentar torna-lo mais interessante ou mais bonito. Anota tudo o que sabe sobre ele na dimensão cognitiva. Depois registra o que sente — frustração, tédio, ansiedade, indiferença. Tudo. Aí vem a parte mais importante: a dimensão volitiva. Você decide agir mesmo sem vontade. E age. A criatividade aparece no meio do movimento, não antes dele.
Um caso específico que eu encontrei recentemente: estava desenvolvendo um conceito visual para um cliente que queria algo "inovador mas seguro". A negociação travou porque eu esperava ter uma ideia clara antes de apresentar qualquer direção. Ostrower diria que estava cometendo o erro clássico de priorizar a cognição em detrimento da ação. Minha solução foi produzir cinco rascunhos deliberadamente ruins em duas horas, apresentá-los ao cliente e pedir feedback direto. O melhor conceito surgiu da interação com as reações dele aos rascunhos ruins. O processo foi de criação coletiva, não solitária. Isso é exatamente o que Ostrower descreve quando fala que a criatividade é relacional. A dimensão afetiva merece atenção especial. Ostrower argumenta que sentimentos como medo, frustração e até raiva são recursos criativos, não ruído a ser filtrado. Em projetos reais, ignorar essa parte gera trabalho estéril. Já participei de briefings onde o cliente dizia abertamente que não queria ver emoção no resultado final. O produto que saiu era tecnicamente impecável e completamente esquecível. A criatividade precisava daquele incômodo emocional para ganhar densidade. A solução prática foi introduzir uma camada sutil de tensão visual — algo que o cliente reconheceu inconscientemente como "algo a mais" mesmo sem conseguir explicar o que era.
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A dimensão volitiva é a que mais falha em contextos profissionais. A gente espera motivação constante, mas ela não existe. Ostrower trata a decisão de criar como um ato de liberdade existencial. Você cria porque escolhe criar, não porque sente vontade. Isso parece simples mas muda completamente a forma como você gerencia prazos e expectativas. Em vez de esperar o momento certo, você cria o momento certo através da ação deliberada. Há um ponto que poucos pesquisadores citam mas faz diferença real: Ostrower distingue criatividade geral (presente em todas as atividades humanas) de criatividade específica (artística, científica). No trabalho diário, essa distinção é importante porque você pode precisar de criatividade geral para resolver um problema logístico e criatividade específica para desenvolver uma solução visual. Misturar os dois sem perceber gera confusão. Eu já perdi tempo tentando aplicar raciocínio artístico a um problema que exigia pensamento analítico, e vice-versa. O reconhecimento dessa diferença economiza horas de trabalho.
Outro aspecto negligenciado é o papel do inconsciente. Ostrower não trata o inconsciente como fonte mágica de ideias mas como um reservatório de experiências processadas de forma não consciente. A prática recomendada aqui é manter um registro das soluções que surgem espontaneamente — aquelas que aparecem no banho, dirigindo, antes de dormir. Anotar essas ocorrências permite identificar padrões nos seus próprios processos criativos ao longo do tempo. Eu mantenho um caderno simples desde 2019 e os padrões que aparecem são consistentes: minhas melhores ideias surgem em contextos de baixa tensão cognitiva, não durante sessões intensas de foco. O livro original pode ser encontrado em bibliotecas universitárias e seções de teoria da arte de livrarias maiores. Edições mais recentes existem mas algumas têm cortes. Se for usar para estudo sério, prefira a edição completa da Universidade Federal de Santa Catarina, que disponibiliza acesso digital em alguns casos. Existem também resumos acadêmicos disponíveis em portais como SciELO e Google Acadêmico que cobrem os pontos principais em formato mais acessível.
O principal defeito da abordagem de Ostrower é que ela não oferece um manual passo a passo com exercícios práticos. Se você busca estruturação rígida, vai ficar frustrado. O método dela exige autossupervisão constante. Além disso, o foco na dimensão afetiva pode parecer excessivo em ambientes corporativos tradicionais onde emoções são frequentemente desconsideradas como variáveis irrelevantes. Nesses casos, a adaptação prática é focar nas dimensões cognitiva e volitiva enquanto se mantém um espaço mínimo para o registro afetivo como ferramenta de autoconhecimento profissional.