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O que é cultura do mato grosso do sul

A cultura do mato grosso do sul é basicamente o resultado de três correntes principais que se fundiram ao longo de séculos: a herança indígena dos povos como os Guarani, Terena e Kaiowá, a tradição sertaneja e porteira que veio com os bandeirantes e peões de gado, e a influência açoriana e italiana que chegou no final do século XIX e início do XX. Se você quiser entender mesmo, tem que passar por isso sem romantizar.

Elementos fundamentais da cultura do mato grosso do sul

O samba de fitas é provavelmente o manifestação cultural mais reconhecida do estado, apesar de muitas pessoas fora do estado nunca terem ouvido falar. Realizado principalmente em Dourados, envolve um círculo de dança onde participantes seguram fitas coloridas e fazem figuras geométricas no ar. Não é algo performático para turista. É uma tradição de comunidade que se mantém viva porque as famílias continuam passando de geração em geração. Eu vi isso funcionando em bairros operários de Dourados onde os mais velhos ensinavam os mais novos nos quintais. A culinária reflete diretamente a geografia do estado. O arroz com peixe do Pantanal, a carne de sol com mandioca que vem da tradição sertaneja, e o chimarrão que você encontra em qualquer esquina rural são pilares. Tem também a influência japonesa em Nova Andradina e Maracaju que introduziu pratos com peixe cru e técnicas de preparo diferentes. A curralada, um ensopado de carnes variadas cozidas em lenha, ainda é feita em sítios e fazendas, embora tenha diminuído bastante nas últimas décadas.

A música sertaneja do estado tem características próprias. O tocador de sanfona e violão de viola caipira tem um estilo mais marcado que o do centro-oeste brasileiro em geral. Os forrós de interior no verão, especialmente entre janeiro e março, atraem gente de todos os municípios vizinhos. As comunidades que moram perto da divisa com São Paulo e Minas Gerais desenvolveram versões locais que misturam elementos das regiões vizinhas sem perder a identidade própria. O artesanato indígena Terena e Guarani é amplamente conhecido, mas o que poucas pessoas entendem é que existe uma diferença clara entre peças feitas para turismo e peças com significado ritual ou doméstico real. As cestarias Terena, por exemplo, usam fibras naturais da região e técnicas que levam dias para serem completadas. Um cesteiro experiente leva entre três e cinco dias para fazer uma peça média, dependendo do tamanho e do padrão desejado.

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Como participar ou preservar essas tradições

Se você mora fora do estado e quer se conectar, o caminho mais direto é visitar nos períodos de festas juninas. Junho é o mês principal, com eventos em Campo Grande, Dourados, Naviraí e Miranda que reúnem arraiais, danças folclóricas e exposições gastronômicas. Mas avise já: muitos desses eventos têm lotação limitada e aquecem rapidamente. Chegar antes das 17 horas costuma garantir um bom lugar, especialmente se o evento for na pista de terra em área rural. Para quem mora na região e quer envolver os filhos nas tradições, a entrada mais prática é através das escolas rurais e grupos de cavalhada. As cavalhadas acontecem em cidades como Miranda e Antônio João e combinam arte equestre com narrativa histórica. Meu filho participou de um grupo de cavalhada em Sidrolândia há alguns anos e a coisa ficou real quando começamos a preparar o cavalo, escolher a roupa de cavalheiro e aprender os movimentos básicos. Leva pelo menos seis meses de treino para um iniciante se sentir confortável executando acoreografia completa.

O artesanato indígena tem uma questão séria de apropriação cultural que todo mundo deveria levar a sério. Comprar peças diretamente de artesãos Terena e Guarani, preferencialmente em feiras ou cooperativas registradas, é o mínimo que se pode fazer. A quantidade de réplicas fabricadas em série e vendidas como artesanato autêntico em pontos turísticos é enorme. O custo de uma cesta Terena verdadeira, feita à mão com fibras naturais da região, gira em torno de R$ 80 a R$ 200 dependendo do tamanho, enquanto réplicas industriais custam entre R$ 15 e R$ 40. A diferença é óbvia quando você segura as duas peças lado a lado.

Problemas práticos que eu encontrei e como resolvi

Um problema específico que tive foi com a documentação necessária para registrar e proteger uma expressão cultural local junto ao IPHAN. A burocracia não é tão simples quanto parece. A maior dificuldade foi justamente entender qual tipo de registro era o correto para o samba de fitas de Dourados, já que ele se enquadra tanto como tradição oral quanto como manifestação corporal. A resposta correta é o processo de registro de saberes, que é diferente do registro de formas populares ou do registro de festejos. Eu precisei procurar um advogado especializado em patrimônio cultural porque a indicação que recebi inicialmente estava errada e quase fiz o processo errado. Outro problema é a sazonalidade dos eventos. Muitos festivais e encontros culturais acontecem apenas no verão ou em junho. Se você tentar participar fora dessas épocas, vai encontrar muita coisa fechada. A estação seca, entre maio e agosto, é a melhor época para eventos ao ar livre, mas a chuva intensa de dezembro a março pode cancelar cavalgadas e apresentações a qualquer momento. O planejamento tem que ser flexível e ter plano B.

Se o objetivo é estudar a cultura do mato grosso do sul de forma mais acadêmica, a UFMS e a UCDB têm grupos de pesquisa ativos em antropologia e história regional. As bibliografias disponíveis são limitadas em comparação com outras regiões brasileiras, então a pesquisa de campo acaba sendo essencial. Artigos mais recentes podem ser encontrados no portal de periódicos da CAPES usando os termos "patrimônio cultural MS", "samba de fitas" e "cultura sertaneja sul-mato-grossense". O que menos se discute é o impacto do agronegócio na cultura tradicional. O crescimento acelerado da fronteira agrícola nas últimas décadas deslocou muitas comunidades rurales e alterou profundamente a paisagem onde essas tradições nasceram. Fazer feiras e Cavalgatas anuais continua acontecendo, mas a base material que sustenta essas práticas — terreiros, matilhas, cavalos de criação familiar — está cada vez mais escassa em certos municípios. Isso é um dado que todo mundo que trabalha com patrimônio cultural na região precisa considerar seriamente ao planejar qualquer projeto de preservação.