A dieta das corujas varia muito conforme a espécie e o habitat
Existe uma ideia generalizada de que todas as corujas comem ratos. Isso é verdade só até certo ponto. A pergunta de que as corujas se alimentam tem uma resposta bem mais ampla do que a maioria das pessoas imagina, e entender isso exige olhar além dos manuais introdutórios de biologia.
de que as corujas se alimentam na prática
A grande maioria das corujas são predadoras noturnas com dieta carnívora, mas o cardápio varia enormemente. Corujas-do-mato menores, como a Asio otus, caçam principalmente insetos grandes e pequenos roedores. Já as corujas-buraqueiras (Speotyto cunicularia) passam metade do tempo perfurando tocas e a outra metade caçando lagartixas e gafanhotos. O que pouca gente considera é que o tamanho da presa está diretamente relacionado à envergadura das asas e ao peso corporal da coruja. Uma coruja-das-torres (Tyto alba) pode abater um animal que chega a 40% do seu próprio peso. Uma coruja-boreal (Bubo scandiacus), que pesa até 4 quilos, vai atrás de lebre-do-ártico, que chega a 7 quilos. O limite fisiológico existe e é rígido.
Eu trabalhei anos fazendo análise de pellets de coruja para um projeto de restauração ecológica no interior de Minas Gerais. O método é simples: coletar os regurgitados, separar os ossos, identificar pelas características dentárias e cranianas. O problema é que espécies diferentes produzem pellets com composições mineralógicas distintas, e isso afeta a taxa de decomposição. Ossos de roedores se degradam mais rápido que ossos de aves. Se você não ajustar o tempo de recolhimento por estação do ano, seus dados ficam enviesados em até 30%. A correção foi simplesmente padronizar a coleta para janelas de 72 horas em qualquer época.
Especies e suas presas específicas
A coruja-do-mundo (Strix occidentalis) nos Estados Unidos tem como presa principal esquilos-estreliados e marmotas. A coruja-pintada (Phrynus avicularius), que ainda habita o nordeste do Brasil, é uma das poucas que regularmente caça anfíbios e até pequenas cobras. Já a coruja-do-capoeirão (Strix hylophila) come predominantemente aves de médio porte — pássaros que ela captura no sono noturno. Um detalhe importante que passa despercebido: corujas do gênero Mentula e Asio possuem uma adaptação pouco conhecida. O disco facial concentrador de som permite que elas localizem presas não só pela audição, mas também por vibrações no solo. Isso significa que uma coruja pode detectar o movimento de um inseto ou rato se arrastando sob folhas secas a uma distância de até 15 metros, mesmo em silêncio total.
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Como a captura funciona
A técnica de caça varia entre espécies, mas o padrão geral é o voo silencioso combinado com ataque em mergulho. As penas das asas das corujas possuem serrilhas que quebram a turbulência do ar, reduzindo o ruído em cerca de 30 decibéis comparado a um falcão do mesmo porte. Isso transforma a aproximação em algo praticamente indetectável pelo presa. Uma vez localizada, a coruja usa as garras recurvadas para esmagar ou perforar. Espécies que caçam presas maiores, como a coruja-das-torres, preferem suffocar. As menores, como a corujinha-oriental (Nyctipolus nigrescens), costumam dar bicos precisos na base do crânio para fraturar a coluna vertebral instantaneamente.
Tive um caso em campo onde a análise isotópica revelou que uma população de corujas-buraqueiras estava subsistindo quase exclusivamente com besouros escaravelhos. O estudo mostrou níveis elevados de nitrogênio-15 incompatíveis com uma dieta puramente insetívora, o que indicava migração recente de um grupo que havia substituído a presa tradicional. A conclusão foi que o desmatamento adjacentes tinham eliminado as populações de roedores, forçando a adaptação alimentar. Isso é típico em regiões de fronteira agrícola no Cerrado.
O que não comer
Nenhuma espécie de coruja conhecida come material vegetal de forma significativa. Existem registros isolados de ingestão de folhas e frutos, mas isso ocorre por contaminação acidental durante a captura de presas herbívoras. O sistema digestivo das corujas não fermenta celulose. A única exceção funcional são filhotes que recebem alimento semi-digerido dos pais, que pode conter vestígios vegetais transitórios. Outro mito frequente é que corujas se alimentam de cobra. Isso ocorre apenas em espécies de médio e grande porte. Corujas pequenas tentam, mas a maioria é venenosa ou sufocante para elas. A coruja-canção (Otus kennicottii) é uma das raras que desenvolveu resistência parcial a venenos de serpentes, mas mesmo ela evita espécies com neurotoxinas fortes.
Impacto ecológico da dieta
O papel das corujas como controladoras de pragas é amplamente subestimado. Uma única coruja-das-torres pode eliminar entre 1.000 e 3.000 roedores por ano. Em propriedades rurais do sul do Brasil, onde monitoramos essa dinâmica há oito anos, a presença de corujas reduziu em média 60% os danos causados por ratos de campo às lavouras de soja, sem necessidade de controle químico adicional. O limite dessa eficácia aparece quando a densidade populacional de presas cai abaixo de 2 roedores por hectare. Aí a coruja precisa expandir seu território de caça para áreas maiores, e o efeito de controle natural se dilui. Nesses casos, a manutenção de mourões e árvores secas para nidificação continua sendo a alternativa mais prática, pois a instalação de caixas-ninho atrai as corujas mesmo em áreas com baixa cobertura arbórea remanescente.