Como fazer um desenho do descobrimento do Brasil que não pareça amador
A maioria dos desenhos sobre o tema que eu vejo sendo enviados por alunos ou usados em materiais didáticos têm os mesmos problemas desde sempre. O navio parece uma caixa com mastro, os pássaros são repetições idênticas, e a perspectiva da costa é completamente plana. Isso acontece porque as pessoas tentam desenhar a cena inteira de uma vez sem planejar a composição primeiro.Vou explicar o processo que eu uso, baseado em anos vendo esses desenhos serem feitos e refeitos.
descobrimento do brasil desenho: estrutura básica
O ponto de partida é definir quantos elementos você realmente precisa. Um desenho do descobrimento do Brasil não exige três caravelas, tripulação com detalhes faciais e um mapa topográfico do litoral ao mesmo tempo. Isso só cria bagunça visual. Escolha um foco: a chegada, o encontro com os indígenas, ou a paisagem costeira. Cada um deles exige uma abordagem diferente de composição.Eu costumo começar pelo esboço geométrico simples antes de qualquer linha definida. Círculos para as velas, triângulos para as velas triangulares, retângulos arredondados para os cascos. Nada de detalhes ainda. Só as formas básicas no papel.
Elementos que precisam aparecer e os que podem ser ignorados
As caravelas portuguesas de 1500 têm características específicas que diferenciam um desenho correto de um que parece genérico. Elas não eram navios grandes como as naus posteriores. Eram embarcações menores, entre 50 e 80 toneladas, com dois ou três mastros. O mastro maior, o troncal, carregava uma vela quadra. Os mastros dianteiro e traseiro tinham velas latinas, aquelas triangularidades que permitem navegar contra o vento. Se você desenhar só velas quadradas em tudo, o desenho fica historicamente impreciso, o que importa se o trabalho for para escola ou para publicação.Outro detalhe que quase todo mundo esquece: o castelo de popa e o castelo de proa. Eram estruturas de madeira elevadas nos extremos do navio, usadas tanto para combate quanto para abrigo. Sem elas, o navio parece um barco de pescado moderno disfarçado. Quanto à costa brasileira, o erro mais comum é desenhar uma praia infinita com coqueiros em fila. A costa real vista pelos portugueses na região de Porto Seguro tinha Mata Atlântica densa chegando até a beira-mar em muitos trechos. Coqueiros existem, mas não são a vegetação dominante daquela paisagem costeira específica. Troncos de árvores, arbustos, a linha irregular da praia. Isso já dá credibilidade visual sem precisar de um desenho hiper-detallhado.
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Problema prático que eu encontrei e a solução
Num projeto escolar onde eu orientava alunos a fazerem descobrimento do brasil desenho em aquarela, a maioria enfrentava o mesmo problema: a tinta escorria pelos convés dos navios e transformava tudo num borrão marrom. A tinta acrílica seca rápido demais e marcas de pincel visíveis, mas a aquarela pura não tem corpo suficiente para as superfícies horizontais dos navios.A solução que eu passei a recomendar foi usar gouache para os navios e aquarela para o mar e o céu. O gouache tem opacidade suficiente para cobrir ajustes e permitir camadas, enquanto a aquarela funciona bem para os degradês do horizonte e da água. Separar os planos por técnica resolveu o problema na maioria dos casos. O tempo adicional de secagem entre camadas de gouache compensa amplamente a diferença de qualidade no resultado final.
Detalhes que fazem a diferença sem exigir habilidade avançada
Flagelos, aquelas cordas grossas que descem dos mastros até a água, são um elemento simples que quase ninguém desenha mas que imediatamente comunica que se trata de uma caravela e não de um navio qualquer. São poucas linhas verticais levemente curvas. Leva dez segundos e muda completamente a leitura da embarcação.O pavilhão da cruz da Ordem de Cristo também deve constar nas velas ou no mastro principal. É um simples cruz em formato de espada com a base alargada. Qualquer pessoa consegue desenhar isso em cinco minutos e o selo histórico do desenho fica muito mais sólido. Os indígenas desenhados genericamente com tanga e penacho são o outro erro recorrente. Os povos que os portugueses encontraram na região possuíam culturas visuais variadas. Usar um apenas como representação padrão é reducionista. Se quiser precisão, pesquisar representações dos povos Tupi-Guarani daquela área costeira específica. Se for apenas um desenho escolar sem exigência acadêmica rigorosa, pelo menos variar posições e tamanhos evita a sensação de exercício replicado.
Proporções e perspectiva simplificadas
Para quem não tem treinamento em perspectiva, a regra mais útil é simples: o horizonte deve estar alinhado. Tudo que está abaixo do horizonte mostra a face superior. Tudo acima mostra a face frontal ou lateral. Os navios devem ter a linha da água marcava claramente, senão parecem flutuando no papel. A linha de água no casco é uma curva suave, nunca uma reta horizontal.O tamanho relativo entre os elementos também importa. Um navio não pode ser do mesmo tamanho que uma árvore próxima. Se o navio ocupa um terço da largura do papel, as árvores da costa devem ocupar no máximo um décimo cada uma, dependendo da distância que você quer representar.