Dinamica Setembro Amarelo - Dinamica Do Setembro Amarelo - RETOEDU
Dinamica Do Setembro Amarelo - RETOEDU

Como aplicar dinâmicas de Setembro Amarelo que realmente funcionam

A maioria das dinâmicas de Setembro Amarelo que vejo sendo aplicadas em escolas e empresas é generosa e mal estruturada. O resultado é uma atividade de 40 minutos que ninguém leva a sério, com gente rindo do material e o coordenador achando que fez um bom trabalho. Eu já conduzi dezenas dessas dinâmicas ao longo dos anos, em diferentes contextos, e o que aprendi é que o problema nunca é a atividade em si, mas a forma como ela é preparada. Vou explicar primeiro o que funciona na prática, depois falar dos erros mais comuns e finalizar com um exemplo concreto de dinâmica que posso recomendar. Falo de Setembro Amarelo no sentido das dinâmicas realizadas durante a campanha do mês de setembro, voltadas à prevenção do suicídio e à conscientização sobre saúde mental. O tema é sensível demais para ser tratado com superficialidade.

Como montar uma dinâmica de setembro amarelo com propósito

Antes de escolher qualquer atividade, você precisa definir três coisas: o público-alvo, o tempo disponível e o objetivo real. Isso parece óbvio, mas é exatamente o que falta na maioria dos eventos. Já vi dinâmicas sendo replicadas de um grupo escolar para um grupo corporativo sem nenhuma adaptação, e o resultado foi desastroso. Adolescentes reagem diferente de adultos, e adultos reagem diferente de idosos. Cada público tem um nível de vulnerabilidade e de abertura completamente distinto. O material que costumo preparar inclui: cartas impressas com situaçõeshipotéticas, folhas A4 em branco, canetas, fita adesiva e um espaço onde as pessoas possam fixar os trabalhos. O total de itens para um grupo de 30 pessoas cabe em uma única mochila. O tempo ideal é de 50 minutos a 1 hora, sem interrupções. Acima disso, a atenção cai drasticamente.

Uma coisa que poucos sabem é que a escolha do local importa mais do que a escolha da dinâmica. Já fiz uma dinâmica em uma sala de reunião com cadeiras organizadas em círculo e metade do grupo não participou. Refiz a mesma atividade meses depois, em uma sala com tapete no chão e almofadas espalhadas, e a participação triplicou. A postura física influencia diretamente o nível de confiança que as pessoas sentem ao se abrir. O erro mais frequente é começar a dinâmica já falando sobre suicídio. Isso cria uma resistência imediata. Comece sempre com algo mais leve, que envolva autoconhecimento ou identificação de sentimentos. Só depois de uns cinco minutos de aquecimento é que você introduz o tema central. Leva dois minutos a mais, mas o ganho em engajamento compensa amplamente.

Dinâmica completa: "O que eu carregamos"

Esta é uma dinâmica que aplico regularmente. Funciona para grupos de 15 a 40 pessoas e não exige nenhuma habilidade específica de facilitação. Vou detalhar o passo a passo. Você distribui uma folha A4 em branco para cada participante e pede que eles dobrem a folha ao meio, criando quatro quadrados. Em cada quadrado, a pessoa deve escrever ou desenhar uma coisa que carrega consigo: um medo, uma esperança, uma experiência difícil que marcou sua vida, algo que a faz feliz. Não precisa ser profundo. Pode ser algo simples como "o cheiro de café pela manhã" ou "a ansiedade antes de uma apresentação".

Depois que todos terminarem, peça que dobrem a folha novamente, virando o avesso, de forma que nada do que foi escrito apareça. Em seguida, você entrega um pedaço de barbante ou corda e pede que todos fiquem em círculo, segurando o barbante. Cada pessoa, ao receber uma ponta do barbante, deve falar uma frase curta sobre o que sentiu ao escrever naquele quadrado. A frase não precisa ser sobre o conteúdo do quadrado. Pode ser sobre o ato de escrever. Aqui está a parte que mais funciona: quando todas as pessoas tiverem falado, você pede que elas soltem o barbante e observem como a rede se desfaz. Depois, você pede que peguem o barbante novamente, mas desta vez trocando de posição no círculo. A nova rede fica mais travada, com cruzamentos. O paralelo com as conexões humanas é visível sem precisar explicitar demais.

👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!

A dinâmica dura cerca de 30 minutos, incluindo a reflexão final. A reflexão final é obrigatória e deve ser conduzida por você. Não pule essa parte. Numa aplicação em que perdi o costume de fazer a reflexão, percebi no dia seguinte que várias pessoas ficaram com sentimentos exacerbados e sem nenhum direcionamento. Isso é um risco real quando se trabalha com temas sensíveis. Outra dinâmica que uso com frequência é "A carta que eu gostaria de ter recebido". Você entrega folhas e canetas e pede que as pessoas escrevam uma carta para si mesmas num momento difícil do passado. Não sobre o suicídio em si, mas sobre um momento de dor. A pessoa pode escrever o que gostaria de ter ouvido naquela época. Depois, recolha as cartas e entregue de volta. A maioria das pessoas chora. Não é um efeito colateral indesejado. É o ponto central da atividade.

O que considerar antes de aplicar essas dinâmicas

Existem limitações importantes que todo facilitador precisa conhecer. Dinâmicas de Setembro Amarelo não substituem acompanhamento profissional. Elas são uma ferramenta de conscientização e acolhimento, não tratamento. Se uma pessoa demonstrar sinais claros de sofrimento psíquico agudo durante a dinâmica, o protocolo correto é encaminhar para um profissional de saúde mental, não tentar resolver no momento. Já vi facilitadores tentarem "consertar" alguém ao vivo e acabarem piorando a situação. Outro ponto crítico é a seleção do grupo. Dinâmicas que envolvem sharing emocional são contraindicadas para grupos que não se conhecem bem, como turmas newly formed ou equipes com hierarquia muito rígida. O risco dejudgmento e de exposição inadequada é alto. Nestes casos, o indicado é usar dinâmicas mais estruturadas, com perguntas fechadas ou com uso de cartões pré-impressos, onde a pessoa não precisa criar conteúdo do zero.

Há também o problema do tempo. A maioria das dinâmicas de Setembro Amarelo que circula na internet foi desenhada para grupos pequenos com 60 minutos de disponibilidade. Quando você aplica em uma escola com apenas 45 minutos de intervalo, precisa cortar etapas. O corte mais seguro é eliminar a parte de reflexão final, mas isso tem um custo emocional real. Prefira encurtar a exposição pessoal do que eliminar o fechamento. Um detalhe técnico que muitas pessoas ignoram: o material impresso. Cartas e instruções devem ser impressas em papel sulfite comum, não em papel couchê ou fotográfico. Papel couchê escorrega, não aceita escrita à mão de forma confortável, e dá uma impressão de formalidade que trava a espontaneidade do grupo. Use papel branco padrão, caneta esferográfica azul ou preta, e evite materiais que pareçam "de festa". Isso não é um evento comemorativo. É um momento de reflexão.

Se você estiver levando o material de Setembro Amarelo para escolas, saiba que muitas delas já têm um protocolo próprio para casos de vulnerabilidade entre alunos. Informe-se sobre esse protocolo antes de aplicar qualquer dinâmica. Algumas escolas exigem a presença do orientador educacional ou do psicólogo escolar durante todo o processo. Ignorar isso pode colocar tanto você quanto a instituição em uma situação legal delicada. O último ponto que quero mencionar é sobre a linguagem. Dinâmicas de Setembro Amarelo que usam linguagem muito técnica ou muito simplificada tendem a falhar. Nem todo mundo entende o que é "suicídio" no sentido clínico, e nem todo mundo quer ouvir o termo dito em voz alta. A alternativa que tenho usado com bom resultado é trabalhar com o conceito de "autoextermínio" de forma indireta, focando sempre no acolhimento e não no ato em si. A palavra "suicídio" aparece nos materiais impressos, mas na fala do facilitador o foco é sempre na prevenção e no apoio.

Para quem quer material pronto para usar, existem opções gratuitas como o guia do CVV (Centro de Valorização da Vida), que disponibiliza atividades testadas e aprovadas por profissionais de saúde mental. Também há material no site do Ministério da Saúde, embora seja mais voltado para capacitação de agentes comunitários do que para aplicação direta. A melhor fonte que encontrei até agora é o material do projeto "Setembro Amarelo nas Escolas", do governo federal, que já passou por revisão técnica. Cada dinâmica que você aplicar vai depender do grupo, do contexto e da sua própria disposição em lidar com emoções que não são suas. A regra de ouro é:.prepare menos do que você acha que precisa, mas esteja preparado para o silêncio. O silêncio durante uma dinâmica de Setembro Amarelo é mais significativo do que qualquer fala que você possa oferecer.