Como funciona a coexistência entre dislexia e TDAH na prática clínica
A combinação de dislexia e transtorno de atenção e hiperatividade (TDAH) aparece com frequência em consultórios de neuropsicologia, mas poucas pessoas entendem como os dois transtornos realmente interagem no dia a dia. A dislexia é um transtorno específico de aprendizagem de origem neurobiológica que afeta a leitura e a escrita. O TDAH é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por desatenção, hiperatividade e impulsividade. Quando ocorrem juntos, os sintomas se sobrepõem de maneira que o diagnóstico pode ser confundido ou passado despercebido. O que observo na prática é que muitos adultos são diagnosticados com TDAH apenas, enquanto a dislexia permanece não identificada. Isso acontece porque os problemas de leitura são atribuídos à falta de concentração, quando na realidade há uma dificuldade de decodificação gráfica. Já vi casos em que pessoas adultas desenvolvem estratégias compensatórias tão eficientes que a dislexia só é descoberta após um teste mais aprofundado, quando elas já haviam sido rotuladas como "preguiçosas" ou "desatentas" durante toda a vida escolar.
O desafio do diagnóstico de dislexia e TDAH em adultos
O diagnóstico diferencial entre dislexia e TDAH em adultos requer avaliações específicas. A avaliação da dislexia inclui testes de fluência leitora, precisão na leitura, consciência fonológica e velocidade deNaming. A avaliação do TDAH utiliza questionários padronizados como a Escala de Sintomas de DSM-5, testes de atenção sustentada e funções executivas. Quando os dois transtornos estão presentes, é fundamental distinguir quais dificuldades são decorrentes de cada condição. Um ponto que muitos profissionais negligenciam é que o TDAH pode mascarar a dislexia em crianças pequenas. Uma criança com TDAH tem dificuldade em manter o foco durante a leitura, o que pode ser confundido com dificuldades de compreensão lectora. Na verdade, ela pode não estar processando corretamente as letras e sílabas, mas o comportamento de agitação acaba direcionando a atenção para o TDAH. No meu caso, lidei com um paciente de 34 anos que foi diagnosticado com TDAH aos 8 anos e tratado com medicação, mas nunca fez avaliação específica de dislexia. Só aos 34 anos, quando começou a ter dificuldades no trabalho com textos longos, foi feita a avaliação completa que revelou dislexia não diagnosticada anteriormente.
A sobreposição de sintomas é real. Tanto a dislexia quanto o TDAH podem causar dificuldades escolares, problemas de autoestima e baixo desempenho profissional. Porém, as intervenções são diferentes. A dislexia beneficia-se de métodos fonoaudiológicos específicos, como a abordagem multissensorial. O TDAH responde melhor a intervenções comportamentais e, em muitos casos, tratamento farmacológico. Quando ambos estão presentes, o tratamento precisa ser integrado.
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Estratégias de manejo para dislexia e TDAH
O manejo da dislexia combinada com TDAH requer uma abordagem multidisciplinar. A fonoaudiologia trabalha a decodificação leitora e a consciência fonológica. A psicologia oferece terapia cognitivo-comportamental para lidar com questões emocionais associadas. A psiquiatria avalia a necessidade de medicação para o TDAH. A neurologia pode ser necessária em casos mais complexos. As adaptações escolares e profissionais são fundamentais. Para pessoas com dislexia e TDAH, o uso de tecnologias assistivas pode fazer grande diferença. Leitores de tela, softwares de reconhecimento de fala, aplicativos de organização de tarefas e ferramentas de correção ortográfica ajudam na autonomia. Um estudante com essa comorbidade pode levar até 40% mais tempo para completar provas escritas em comparação com um estudante sem dificuldades de aprendizagem, segundo estudos na área.
Uma estratégia prática que recomendo é o uso de cronogramas visuais e listas de verificação. Pessoas com TDAH frequentemente têm dificuldade com planejamento e organização. A dislexia adiciona a dificuldade de processar texto escrito. Combinar instruções visuais com verbalizações curtas e objetivas facilita a compreensão. Eu pessoalmente adotei o método de dividir tarefas grandes em subtarefas menores, com prazos específicos para cada uma, e isso reduziu significativamente minha procrastinação. O tratamento farmacológico do TDAH pode melhorar a capacidade de concentração, mas não trata a dislexia em si. É importante que o paciente e a família entendam essa distinção. A medicação para TDAH, como metilfenidato e atomoxetina, pode ajudar na atenção sustentada durante a leitura, mas as dificuldades específicas de decodificação continuamendo. A combinação de medicação com terapia fonoaudiológica tende a ser mais eficaz do que qualquer abordagem isolada.
Complicações e limitações do tratamento
Nenhuma abordagem é perfeita. O tratamento do TDAH com estimulação cerebral não invasiva, como a estimulação magnética transcraniana, ainda está em fase de pesquisa e não é amplamente disponível. A terapia fonoaudiológica para dislexia requer tempo e dedicação, e muitos pacientes desistem após poucos meses porque os resultados não são imediatos. Estudos mostram que o tratamento continuado por pelo menos seis meses é necessário para observar melhorias significativas. Outro ponto importante é que a dislexia e o TDAH podem coexistir com outros transtornos, como transtorno de ansiedade e depressão. O estresse crônico causado pelas dificuldades acadêmicas e profissionais ao longo dos anos pode levar ao desenvolvimento de comorbidades psiquiátricas. Nesses casos, o tratamento precisa ser mais abrangente, incluindo acompanhamento psicológico e, quando necessário, medicação para ansiedade ou depressão.
A discriminação e o estigma ainda são problemas reais. Pessoas com dislexia e TDAH frequentemente enfrentam julgamentos preconceituosos em ambientes escolares e profissionais. É essencial que educadores e empregadores estejam informados sobre essas condições e ofereçam as adaptações necessárias. Legislações como a Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) garantem direitos, mas a implementação na prática ainda é insuficiente em muitos contextos.