Domínio Morfoclimático Cerrado - DOMÍNIO MORFOCLIMÁTICO: CERRADO. Geografia Aziz ab saber | PDF
DOMÍNIO MORFOCLIMÁTICO: CERRADO. Geografia Aziz ab saber | PDF

Entendendo o domínio morfoclimático cerrado na prática

Quando eu comecei a trabalhar com mapeamento ecológico e zoneamento ambiental, a primeira coisa que aprendi foi que o cerrado não é só uma formação vegetal qualquer. É um domínio morfoclimático bem definido, com características próprias que exigem um tratamento técnico específico. Muita gente confunde com savana, mas a diferença é importante quando você precisa de precisão em um laudo técnico ou num estudo de impacto. O domínio morfoclimático cerrado cobre uma área enorme no Brasil. Principalmente no planalto central, mas também aparece em trechos do Mato Grosso do Sul, Goiás, Minas Gerais, Bahia e Tocantins. A gente costuma dividir em dois subtipos principais: o cerradão, que é mais fechado, com árvores maiores e mais densidade, e o campo sujo, que já é mais aberto, quase rasteiro. Tem ainda o cerrado sensu stricto, que fica no meio-termo, com vegetação mais esparsa e árvores retorcidas.

O que define o domínio morfoclimático cerrado

A definição técnica envolve solo, clima e vegetação interagindo. Os solos são normalmente profundos, bem drenados, mas extremamente acidificados e pobres em nutrientes. O alumínio trocável é alto, o que limita muitas espécies. Já o clima é tropical típico, com temperatura média entre 22°C e 27°C, e uma estação seca bem marcada de quatro a cinco meses. A precipitação anual varia de 1200mm a 1700mm. Essa combinação de solo pobre e seca prolongada é o que cria a formação vegetal característica. O solo tem pH baixo, geralmente entre 4,0 e 5,5, e alta saturação por alumínio. Isso exige que as plantas tenham adaptações específicas, como sistema radicular profundo e associado a micorrizas para captar nutrientes. As árvores têm cascas grossas, folhas coriáceas e frequentemente apresentam porta-sementes lignificados. O fogo é parte natural do ecossistema, não um evento extraordinário. A vegetação do cerrado evolved com regimes de incêndio periódicos e muitas espécies rebrotam rapidamente após o fogo.

Uma coisa que os manuais não enfatizam o suficiente: a transição entre o domínio morfoclimático cerrado e a Amazônia não é suave. Existem áreas de transição chamadas cerradão de várzea e campinaranas, onde as condições de umidade e solo mudam drasticamente em poucos quilômetros. Se você estiver fazendo um mapeamento de uso do solo nessa fronteira, precisa ter cuidado com a delimitação. Um GPS comum pode te levar a erro de até 50 metros na borda do domínio.

Como identificar e mapear corretamente

Na prática, o mapeamento do domínio morfoclimático cerrado depende de uma combinação de sensoriamento remoto e validação em campo. Imagens Landsat 8 e 9 com índices de vegetação funcionam bem para delimitação em larga escala, mas resolvi um problema específico em 2022 que merece ser contado. Estava mapeando uma área de transição cerrado-Caatinga no semiárido baiano e as imagens de satélite estavam classificando erroneamente trechos de caatinga arbórea como cerrado, porque a fenologia das plantas durante a seca era surpreendentemente similar no NDVI. O workaround que encontrei funcionou: usei dados do Sentinel-2 para calcular o índice EVI2 combinado com a banda do infravermelho de onda curta (SWIR). A reflectância no SWIR é diferente entre as formações, e a análise multitemporal ao longo de três anos consecutivos ajudou a distinguir os padrões de seca. Depois, fiz coletas pontuais de solo e vegetação em 12 pontos de validação, medindo profundidade do solo, textura, presença de latossolos e a composição florística. Isso reduziu o erro de classificação de 23% para cerca de 6%.

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Para quem está começando, o passo a passo prático é o seguinte. Primeiro, defina a área de estudo e colete dados climáticos históricos dos estações da INMET ou do CPTEC. Segundo, processe imagens de satélite, preferencialmente com correção atmosférica e topográfica se a área tiver relevo acidentado. Terceiro, aplique classificações supervisionadas usando amostras de treinamento validadas em campo. Quarto, faça verificação terrestre em pelo menos 30 pontos para calcular o índice de Kappa. Quinto, produza o mapa final com legendas técnicas compatíveis com o código florestal.

Pegadinhas comuns e limitações

O maior erro que eu vejo em relatórios técnicos é tratar o cerrado como uma unidade homogênea. Ele não é. O cerradão pode ter até 70% de cobertura arbórea, enquanto o campo limpo tem menos de 5%. Misturar tudo numa mesma categoria compromete qualquer análise ecológica séria. Outro problema frequente é ignorar o componente subterrâneo. A biomassa do cerrado está majoritariamente abaixo do solo, não acima. Cerca de 60 a 70% da biomassa total está nas raízes. Isso altera completamente o cálculo de estoques de carbono se você usar apenas dados de copa. Existe uma limitação técnica importante que poucas pessoas mencionam: a conversão de uso do solo no cerrado é tão rápida que mapas baseados em imagens satelitais ficam desatualizados em dois ou três anos em áreas de fronteira agrícola. Em Mato Grosso e Goiás, por exemplo, a taxa de desmatamento pode alterar a extensão do domínio em mais de 10% numa única safra. Se seu trabalho depender de dados atualizados, considere usar imagens do Planet Labs, que têm resolução diária, ou fazer revisões semestrais.

Também vale avisar: o ICMBio e o IBGE têm classifications diferentes para o cerrado. O IBGE usa o conceito de bioma, enquanto o domínio morfoclimático é uma categoria mais específica dentro da geomorfologia e climatologia. Se você estiver fazendo um trabalho acadêmico ou técnico, certifique-se de saber qual referência está sendo usada. Caso contrário, pode haver inconsistências sérias nas suas divisões territoriais. Para fins de licenciamento ambiental, recomendo seguir a classificação do MMA, que é a mais utilizada pelos órgãos estaduais.

Domínio morfoclimático cerrado e o Código Florestal

Um ponto prático que afeta diretamente quem trabalha com esse domínio: a proteção legal do cerrado varia conforme o estado e a situação do terreno. Áreas de cerrado em estágio intenso de degradação podem ter restrições menores de APP, mas o cerrado strito sensu em encostas e topos de morro tem proteção reforçada. Eu perdi uma reunião de licenciamento em 2021 por não ter verificado que a área em questão estava sobre um topo de serrania protegido pela resolução estadual. O mapinha que eu havia elaborado mostrava cerrado em transição, mas o mapa geomorfológico oficial indicava topo de morro. A diferença estava em uma escala de 1:25.000 versus 1:100.000. Desde esse episódio, sempre cruzo os mapas antes de qualquer encaminhamento técnico. O estoque de carbono do solo no cerrado é significativo, mas subestimado em muitos inventários. Estima-se que os primeiros 30 centímetros do solo armazenem entre 40 e 80 toneladas de carbono por hectare, dependendo do subtipo e do grau de perturbação. Isso coloca o domínio morfoclimático cerrado como um ator relevante nas discussões sobre mudanças climáticas, embora o foco midiático continue quase inteiramente na Amazônia. Projetos de REDD+ que envolvem cerrado precisam de metodologias específicas, porque as taxas de sequestro e os fatores de emissão são diferentes dos biomas florestais tropicais.

Se você precisa de referências para aprofundar, os trabalhos de Ab'Sáber são indispensáveis. A obra "Os Domínios de Natureza no Brasil" dele mapeou originalmente essas unidades morfoclimáticas. Para dados mais recentes, consulte os boletins do INPE sobre desmatamento no cerrado e os mapas do CPRM sobre a geologia e os solos da região. Há também o projeto MapBiomas Cerrado, que disponibiliza séries temporais anuais de cobertura e uso do solo, gratuito e com boa resolução espacial para estudos regionais.