O que são os domínios dos mares de morros e por que a maioria das pessoas confunde com Mata Atlântica pura
O domínio dos mares de morros, também chamado de domínio florest atlântico perUmbrófilo ou domínio das matas ocidentais em classificações mais antigas, é uma formação fitogeográfica definida originalmente por João Correia da Cunha e depois popularizada por Azevedo Monteiro e outros botânicos brasileiros a partir dos anos 1940. A região se estende ao longo da costa nordestina do Brasil, desde o norte do Espírito Santo até o estado da Bahia, passando por Alagoas, Sergipe, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará. O nome vem da topografia acidentada da área — morros isolados, serraes e escarpas que se erguem abruptamente do litoral plano. A cobertura vegetal original era floresta ombrófila densa, com dossel contínuo entre 25 e 35 metros, estrato arbóreo bem definido e alta biodiversidade endêmica. O que acontece na prática é que esse domínio foi um dos mais devastados do país. Estimativas do INPE e de estudos publicados na Revista Brasileira de Botânica indicam que menos de 7% da cobertura vegetal original permanece em pé, concentrada principalmente em fragmentos de alta altitude e encostas íngremes onde a agricultura mecanizada simplesmente não chega. O restante virou pasto, plantação de cacau nos primórdios, e depois loteamento urbano desordenado. Em Recife, Salvador e Fortaleza, o que restou está praticamente cercado por concreto.
Características dos domínios dos mares de morros: estrutura, espécies-chave e limites geográficos
A floresta dos mares de morros se distingue da Mata Atlântica propriamente dita por alguns critérios que muita gente ignora. O principal é a presença constante de espécies como Tabebuia impetiginosa (ipaú), Myroxylon balsamum (barbatimão), Swinelsonia edulis e Cedrela odorata, além de uma densidade muito maior de lianas e epífitas do que nas formações mais secas do interior. O solo é tipicamente latossolo vermelho-amarelo distrófico, profundo, com boa drenagem natural, o que favorece o desenvolvimento de árvores de grande porte. A precipitação anual varia entre 1.200 e 2.500 mm, com períodos secos menos pronunciados do que no sertão nordestino, o que permite a manutenção de floresta sempre verde. Uma coisa que os manuais de ecologia costumam deixar implícita mas que eu vi na prática acontecer muitas vezes: os limites desse domínio não são lineares. Eles se sobrepõem parcialmente com o domínio caatinga no interior e com o domíniocerrado em altitudes mais elevadas. Quando você faz um inventário florestal nessa região, frequentemente encontra transições bruscas em distâncias de poucos quilômetros — floresta densa de um lado da serra, cerrado rupestre do outro. Isso complica a delimitação precisa para fins de licenciamento ambiental e zoneamento ecológico-econômico.
Como identificar e mapear remanescentes desse domínio em campo
Se o objetivo é levantar dados de campo para um trabalho acadêmico ou para um relatório de licença ambiental, o processo básico funciona assim. Primeiramente, faça o uso de imagens de satélite com resolução mínima de 10 metros — Sentinel-2 é gratuito e costuma ser suficiente para distinguir fragmentos acima de 5 hectares. NDVI combinado com dados SRTM de elevação já dá uma boa noção de onde a floresta ainda existe em encostas íngremes. Depois, valide com vistoria presencial em pelo menos três pontos por fragmento, preferencialmente em diferentes altitudes dentro da mesma área. O método que eu uso e recomendo é o quadrado de 20x20 metros para o inventário florístico, com subparcelas de 10x10 metros para o estrato arbustivo e 5x5 metros para o regenerativo. Cada árvore com DAP igual ou superior a 10 cm deve ser identificada, marcada com fita e georeferenciada. Isso leva em média 4 horas por parcela bem executada, considerando que o relevo acidentado reduce significativamente a velocidade de deslocamento. Eu já perdi meia dia só porque o GPS perdeu sinal em um vale profundo perto de Caruaru-PE. A solução foi usar um navegador topográfico offline com trilhas pré-carregadas e marcar os pontos manualmente com régua e transferidor no mapa impresso. Custou mais tempo mas foi a única forma de não perder a referência espacial.
Para a análise de dados, o índice de riqueza de Simpson e a diversidade de Shannon-Wiener são padrão no meio. O que muita gente não percebe na hora de interpretar os resultados é que a presença de espécies pioneiras em alta proporção (>30% do total de indivíduos) é um sinal forte de degradação avançada, mesmo quando a cobertura arbórea parece fechada. Fragmentos com densidade alta de Cecropia pachystachya ou Varronia bracteosa no sub-bosque geralmente indicam que a floresta está em estágio secundário inicial, não em clímax. Isso altera completamente a avaliação de conservação que você vai apresentar num laudo técnico.
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Restauração ecológica em mares de morros: o que funciona e onde o projeto costuma falhar
Restaurar esse domínio é mais complexo do que simplesmente plantar mudas. A primeira armadilha é acreditar que o plantio de espécies exóticas de rápido crescimento, como eucalipto ou pinus, resolve o problema de cobertura do solo. Na verdade, esses plantios criam um sub-bosque sombreado que impede a regeneração natural das espécies nativas. Eu vi um projeto na divisa entre Pernambuco e Paraíba onde 12 hectares de eucalipto foram abandonados e, após cinco anos, a regeneração natural era praticamente nula sob o dossel fechado. O solo estava acidificado e compactado. A única saída foi fazer corte raso e iniciar o plantio de espécies heliófitas nativas, o que dobrou o custo original do projeto. O que funciona de fato é a combinação de nucleação com espécies-chave do dossel, como Eschweilera coriacea e Inga spp., plantadas em manchas de 3x3 metros com espaçamento de 10 metros entre nucleos. Esse método, documentado em estudos da UFPE e da UFV, acelera a sucessão ecológica em cerca de 40% comparado ao plantio uniforme. A razão é simples: as árvores nucleares criam microclima de umidade e sombra que facilita o estabelecimento de espécies sucessionais posteriores, que muitas vezes chegam via dispersão animal sem necessidade de plantio direto.
Outro ponto crítico é a conectividade entre fragmentos. Um estudo de 2022 da UFRJ mostrou que corredores florestais com largura inferior a 100 metros em terrenos de mares de morros têm taxa de uso por fauna significativa praticamente zero para mamíferos de médio e grande porte. Veado-catingueiro, cachorro-do-mato e até antas simplesmente não atravessam faixas estreitas de vegetação em áreas abertas. O corredor mínimo funcional para integração populacional real gira em torno de 300 metros de largura em relevo acidentado, o que é logisticamente difícil de implementar em regiões já fortemente ocupadas.
Proteção legal e instrumentos existentes
Os remanescentes desse domínio são protegidos pela Lei da Mata Atlântica (Lei 11.428/2006) e pelo Código Florestal (Lei 12.651/2012). Áreas de preservação permanente em encostas com declividade superior a 45 graus são inalienáveis, independentemente de cadastro. O Problema é que o Cadastro Ambiental Rural no Nordeste ainda cobre uma fração pequena das propriedades rurais da região, e fiscalização efetiva é rara fora das unidades de conservação formalmente instituídas. Entre as unidades de conservação que protegem parte significativa desse domínio estão a Reserva Biológica de Sooretama no Espírito Santo, o Parque Estadual da Serra do Mar em trechos nordestinos, e a Estação Ecológica de Carianking na divisa Pernambuco-Piauí. Mas o número de UCs federais na área é surpreendentemente baixo quando comparado ao tamanho do domínio original.
Dados para consulta e download
Para quem precisa de bases espaciais do domínio dos mares de morros, o mapa oficial de domínios fitogeográficos do IBGE está disponível no site do instituto na seção de produtos cartográficos. O mapa inclui a delimitação vetorial em shapefile, com código de identificação de cada domínio. O arquivo tem aproximadamente 180 MB descompactado e cobre todo o território nacional. O repositório de dados abertos do MMA também disponibiliza camadas de remanescentes florestais por bioma, filtráveis por domínio fitogeográfico, com atualização quinzenal. Uma fonte menos conhecida mas muito útil é o banco de dados do Projeto Dinâmicas Demográficas na Mata Atlântica, coordenado pela UFF, que contém inventários florísticos de mais de 200 parcelas permanentes distribuídas em fragmentos do domínio dos mares de morros, com dados de composição, estrutura e dinâmica de mortalidade e crescimento. Os dados estão sob licença aberta e podem ser solicitados diretamente pelo formulário do site do projeto.