Começando pelo monitoramento antes de escolher o vasoativo
A maioria dos residentinhos começa pela pergunta errada: "qual vasoativo eu vou usar?" O problema é que você precisa saber o que está acontecendo no leito antes de prescrever qualquer coisa. Pressão arterial não é sinônimo de perfusão. Um paciente com PA de 150x90 pode estar com débito cardíaco de 2,1L/min e lactato subindo. Já vi mais de um médico titular começar noradrenalina em volume porque a pressão caía, quando na verdade o paciente precisava de inotrópico ou de volume controlado por PVA.
O primeiro passo em drogas vasoativas em uti deve sempre ser a caracterização do perfil hemodinâmico. Isso significa, basicamente, entender se o paciente está em choque distributivo, cardiogênico, obstrutivo ou hipovolêmico. A diferença entre usar vasopressor e inotrópico muda completamente o manejo. Misturar os dois sem saber o porquê é uma das principais causas de iatropatia no UTI.
O que realmente define drogas vasoativas em uti na prática
Na prática diária, as drogas vasoativas em UTI se dividem em três categorias principais, mas a divisão clássica de "vasopressores, inotrópicos e vasodilatadores" esconde nuances que importam muito na hora de prescrever. A noradrenalina, por exemplo, tem ação inotrópica fraca. Ela aumenta a pressão principalmente por vasoconstrição alfa, mas seu efeito beta-1 contribui de forma mensurável. Isso quer dizer que em alguns choques distributivos com depressão miocárdica relativa, doses moderadas de noradrenalina já melhoram a contratilidade sem precisar adicionar dobutamina. Já a adrenalina é frequentemente subestimada ou superestimada. Ela é o único vasopressor com ação beta significativa em doses normais. Em choque séptico refratário, ela pode ser o segundo fármaco lógico, mas o custo metabólico é alto: maior lactato, mais taquicardia, risco de isquemia mesentérica em doses elevadas. Doses acima de 0,5mcg/kg/min começam a dominar os receptores alfa com uma intensidade que não é linear. O paciente pode ter pressão preservada e ainda assim piora da perfusão splanchnica.
Montando oScheme terapêutico passo a passo
Vamos ao que acontece no dia a dia. Você recebe um paciente com sepse grave. PA 85x50, FC 118, satO2 91%, diurese de 15mL/h nas últimas 4 horas. Já recebeu 30mL/kg de cristalóide. O primeiro movimento é colocar monitorização invasiva de PA e, se possível, estimativa de débito cardíaco. Sem isso, você está prescrevendo no escuro. A noradrenalina começa a 0,05mcg/kg/min e sobe de 0,02 a 0,05mcg/kg/min a cada 5 minutos até atingir o alvo de MAP 65mmHg. Se o paciente não responde a 0,5mcg/kg/min, antes de adicionar outro vasopressor, verifique dois pontos que todo mundo esquece: a dose de sedação e a volêmica. Midazolam em infusão contínua pode deprimir a resposta adrenérgica. Um bolo de 250mL de cristalóide às vezes resolve a aparente refratariedade.
Se persistir a hipotensão após noradrenalina em dose moderada, a vasopressina entra como adjuvante. A dose fixa de 0,03UI/min é o padrão, mas muitos centros usam 0,01UI/min como dose inicial e titulam. A vantagem é que ela poupa receptores adrenérgicos e reduz a variabilidade da frequência cardíaca. O ponto cego: ela não tem efeito inotrópico e em pacientes com doença coronariana significativa pode causar isquemia por vasoconstrição coronariana. Não é uma droga para esquecer esse detalhe.
Inotrópicos: quando e como usar
Dobutamina é o inotrópico de primeira linha quando há disfunção ventricular esquerda identificada. Começa a 2,5mcg/kg/min e sobe até 20mcg/kg/min. A regra prática é: se o débito cardíaco está baixo e a PA permite, use dobutamina. Se a PA não permite, use noradrenalina primeiro e depois avalie a adição de dobutamina. Usar dobutamina isoladamente em hipotenso é pedir para o paciente entrar em colapso. Milrinona merece atenção especial. É um inotrópico com efeito vasodilatador concomitante. Excelente para insuficiência cardíaca com PA preservada ou elevada, catastrófica para quem já está hipotenso. O meia-vida longa de 25 minutos também significa que, uma vez iniciado, é difícil reverter efeitos adversos rapidamente. Eu prefiro dobutamina na maioria dos cenários de UTI porque a titulação é mais rápida e previsível.
A digoxina tem lugar muito limitado em UTI. Seu início de ação é lento e a janela terapêutica é estreita. Só vejo utilidade real em fibrilação atrial com resposta ventricular rápida associada a disfunção sistólica, e mesmo assim como coadjuvante, nunca como monoterapia.
Um caso que aprendi da maneira difícil
Tinha um paciente com choque séptico de fonte abdominal que estava em noradrenalina a 0,4mcg/kg/min e vasopressina 0,03UI/min. MAP estava em 68mmHg, mas a lactato subia de 3,2 para 5,8 em 6 horas. O time queria aumentar noradrenalina para 0,6. Parei tudo. Pedi ecocardiografiaside. O VE estava hipercinético, fração de encurtamento de 38%, mas o VD estava dilATADO com função comprometida. Era uma tromboembolia pulmonar massiva disfarçada de sepse refratária. A noradrenalina alta estava piorando a sobrecarga do VD. Troquei a estratégia: reduzi noradrenalina para 0,15, mantive vasopressina e fiz Trombolítico conforme protocolo. O VD melhorou em 4 horas. O lactato normalizou em 24. O aprendizado prático foi simples mas não óbvio: pressão arterial normal com lactato crescente é um sinal de alerta para perfusão inadequada, e a causa pode não ser falta de vasoconstrição, mas sim obstrução mecânica ao fluxo. Droga vasoativa sozinha não resolve isso.
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Problemas comuns e como evitar
O extravasamento de noradrenalina por acesso periférico é mais comum do que o pessoal imagina. A concentração padrão de 4mg em 50mL de D5W já é suficiente para causar necrose tecidual significativa se infiltrar. Sempre acesso central para noradrenalina. Se precisar de acesso periférico temporário, dilua para 1mg em 50mL e monitore o sítio a cada 30 minutos. Isso é protocolo básico que ainda vejo sendo ignorado. A retirada abrupta de vasopressores é outro erro frequente. Reduzir noradrenalina de 0,5 para 0 em uma hora é pedir recaída hipertensiva. A redução deve ser graduada: diminua 0,05mcg/kg/min a cada 15 a 30 minutos, com monitorização contínua de PA e débito urinário. Se a PA cair mais de 20mmHg na média, retenha a dose atual e estabilize por mais 30 minutos antes de nova tentativa.
A fenilefrina como primeira escolha em sepse é controvertida. Ela é pura vasoconstrição alfa, sem ação inotrópica. Em pacientes com função ventricular preservada e choque distributivo puro, pode funcionar. Mas em sepse com depressão miocárdica, ela aumenta a pós-carga sem melhorar o débito, e o débito cardíaco pode cair. A maioria das diretrizes atuais não recomenda mais como primeira linha. Use como rescue em arritmias sob noradrenalina ou em pacientes com elevação de PA que toleram mal a adrenalina.
Dopamina: o medicamento que caiu em desuso
A dopamina era onipresente há quinze anos. Hoje seu uso é restrito a situações muito específicas. O problema principal é a variabilidade farmacocinética individual e o perfil de efeitos adversos. Em doses baixas, o efeito renal supostamente benéfico não foi comprovado em ensaios clínicos. Em doses médias, causa taquiarritmias com frequência. Em altas doses, tem perfil similar à noradrenalina mas com mais variabilidade. O estudo SOAP II mostrou pior desfecho com dopamina comparada à noradrenalina em choque cardiógeno. O uso atual fica reservado para bradicardia sintomática com hipotensão quando atropina não está disponível ou não fez efeito, e em crianças com baixo risco de arritmias.
Monitoramento contínuo: o que acompanhar
Além da PA arterial contínua, o ideal é monitorar: lactato sérico a cada 6 horas até normalização, diurese horária, satvenOSA2 se disponível, exame físico de perfusão periférica a cada 2 horas. Em centros com mais recursos, cateter de débito cardíaco contínuo ou ecocardiografia seriada muda a qualidade da conduta. O lactato é o marcador que mais se correlaciona com desfecho no choque. Se o lactato não cair após 2 horas de vasopressores adequados, a estratégia atual não está funcionando e precisa ser reelaborada, não apenas aumentada.
Erros que vejo repetidamente
Prescrever vasopressor antes de garantir acesso venoso adequado. Simples assim. Tenho visto enfermeiros lutando para manter infusão de noradrenalina por cateter periférico em débito irregular enquanto a farmácia prepara o acesso central. Perda de tempo e risco de extravasamento. Garanta o acesso central antes de iniciar. Titular vasopressor baseado apenas em PA sistólica. MAP é o parâmetro que importa. Um paciente com PA 100x50 tem MAP de 67 e pode estar bem perfundido. Outro com PA 160x80 tem MAP de 106 e pode estar com vasoconstrição excessiva. Olhe sempre a média.
Achar que vasopressor cura o problema. Vasopressor é ponte. Ele mantém a perfusão enquanto você trata a causa. Sepse precisa de fonte controlada e antibiótico. Cardiogênico precisa de revascularização ou suporte mecanico. Obstrutivo precisa desobstruir. Sem tratar a causa, você está apenas adiantando o inevitável.
Resumo do que funciona no dia a dia
Noradrenalina como primeiroChoice em choque distributivo. Vasopressina como adjuvante precoce se necessário. Dobutamina se houver evidência de disfunção ventricular. Evitar dopamina na maioria dos cenários adultos. Reconhecer limites: vasoativo não substitui volume, não substitui tratamento da causa, e em doses muito altas o custo é real. Quando noradrenalina ultrapassa 0,5mcg/kg/min e o paciente ainda não responde, pare e reconsidere o diagnóstico. Choque refratário a vasopressores em dose moderada geralmente indica que algo foi perdido na avaliação inicial.