Elementos De Um Conto - Conto: o que é, tipos, exemplos e elementos - Dicio, Dicionário Online ...
Conto: o que é, tipos, exemplos e elementos - Dicio, Dicionário Online ...

Pra que serve saber os elementos de um conto

Você provavelmente já leu alguns contos sem perceber a estrutura por baixo do texto. A gente entra na história e pronto. Mas quando você tenta escrever um, principalmente na primeira vez, percebe que alguma coisa não fecha. O final parece forçado, o personagem não convence, o leitor sai do meio da leitura sem se importar. Isso acontece porque a maioria das pessoas não sabe quais peças precisam existir e onde elas devem ficar.

O que são elementos de um conto

No fundo, um conto não é nada mais do que uma sequência de elementos que se sustentam mutuamente. Não existe fórmula mágica, mas existe um conjunto de partes que, quando bem construídas, criam o efeito que chamamos de boa história. Vou listar cada um e explicar o que eles fazem na prática, não só a definição de dicionário.

Os elementos fundamentais

Enredo — É a ordem dos acontecimentos. Nada mais nada menos. As pessoas confundem enredo com tema o tempo inteiro. O tema é a ideia por trás da história. O enredo é o que acontece. Começar pela confusão entre esses dois conceitos vai te custar rascunhos inteiros descartados depois de três semanas de trabalho. Eu já passei por isso. Escrevi um conto inteiro sobre ressentimento familiar e percebi tarde demais que não tinha definido a cadeia de causas e efeitos. O resultado era um monte de cenas bonitas que não levavam a lugar nenhum. Personagens — Todo conto precisa de alguém passando por algo. Mas a quantidade importa mais do que a qualidade inicial. Um conto curto não dá conta de vinte personagens. Dois ou três no máximo, e um deles precisa ser o protagonista, claro. O problema é que escritores iniciantes adoram criar personagens complexos de costas. Descrições físicas longas, biografias inteiras, motivações profundas. Coisa nenhuma disso aparece no texto. O que importa é o que o personagem faz e escolhe dentro da história. O resto fica na gaveta. Se o personagem não influencia o rumo dos acontecimentos, ele é decoração.

Cena e ambiente — Onde e quando a história acontece. Ambiente não é pano de fundo. É ativo. Ele determina o que é possível ou impossível para os personagens fazerem. Uma história que se passa num bairro fechado no Rio de Janeiro tem restrições diferentes de uma que se passa numa pequena cidade do interior mineiro. A geografia dita o comportamento. Eu tive um caso concreto em que escrevi um conto ambientado num prédio antigo com escada estreita. A cena do clímax exigia que um personagem subisse correndo as escadas enquanto o perseguidor vinha atrás. Na prática, o prédio tinha três lances de escada com um patamar apertado onde dois corpos não passavam ao mesmo tempo. Eu ignorei isso na primeira versão e o revisor apontou. A cena ficou fisicamente impossível. A correção foi simples: em vez de uma perseguição vertical, fiz a cena acontecer no térreo, num corredor que ia dar direto pra saída. Duas linhas reescritas resolveram. E foi só porque eu prestei atenção no ambiente antes de escrever o clímax. Narrador — Quem conta a história. Isso parece óbvio até você perceber que a escolha do narrador muda tudo. Narrador em primeira pessoa dá intimidade, mas limita o acesso ao que o narrador sabe. Narrador onisciente dá acesso total, mas custa credibilidade se o narrador começar a opinar sem motivo. Eu recomendo começar com narrador em terceira pessoa limitado, que segue um único personagem. É o mais seguro e o mais fácil de controlar. A terceira pessoa onisciente exige disciplina que a maioria dos escritores novos ainda não tem.

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Conflito — Sem conflito não há história. Conflito é o que impede o personagem de conseguir o que quer. Pode ser externo, com outra pessoa ou com o ambiente. Pode ser interno, com as próprias dúvidas e medos do personagem. O melhor conflito combina os dois. Alguém quer algo e há uma força impedindo. Simples assim. Contos costumam ter um conflito central bem definido. Não tente empilhar cinco conflitos num texto de mil palavras. Clímax e desfecho — O clímax é o momento de maior tensão. O desfecho é o que acontece depois. A maioria dos escritores erra aqui porque resolve tudo de forma muito rápida. O desfecho precisa ser consequência direta do conflito, não uma solução que aparece do nada. Se o problema foi criado por uma escolha do personagem, a resolução também deve vir de uma escolha dele. O leitor não gosta de deus ex machina disfarçado.

Tema — A ideia central. O que a história está dizendo sobre a vida. Tema não é mensagem moral. É a pergunta que a história coloca em xeque. Um conto sobre morte pode ter como tema o significado do luto. Um conto sobre traição pode ter como tema a confiança. O tema surge quando você termina o rascunho, não antes. Muitos escritores tentam começar com um tema definido e acabam escrevendo panfleto. O tema aparece naturalmente quando a história funciona.

Um erro comum que mata contos

Eu vejo isso quase todo dia em grupos de escritores: pessoal que acha que conto precisa de reviravolta no final. Reviravolta é recurso, não regra. Contos bons funcionam sem reviravolta. O que funciona é a transformação do personagem. O leitor precisa sentir que algo mudou dentro dele durante a leitura. Se o personagem começa e termina exatamente igual, o conto não cumpriu seu papel, independente de quantos giros a trama teve. Outro erro frequente é a descrição excessiva no início. Páginas e páginas de cenário antes de qualquer coisa acontecer. Você pode descrever o ambiente sim, mas precisa conectar a descrição à ação ou ao estado emocional do personagem. Descrição pura é entretenimento vazio. Se o leitor não sente urgência pra continuar, ele para de ler.

Como aplicar na prática

A maneira mais eficiente de usar esses elementos é fazer um esboço rápido antes de escrever. Anote: quem é o personagem, o que ele quer, o que impede, onde acontece, quem conta, qual é o conflito principal e como termina. Isso leva cerca de dez minutos. Escrever sem esse esboço costuma levar duas horas de revisão porque o texto nasce desbalanceado. Eu costumo levar uns quinze minutos nesse esboço e consigo identificar problemas antes de começar a escrever, o que economiza horas de retrabalho. Se você tiver dificuldades com algum elemento específico, o mais comum é o conflito. Aí a solução é simples: pergunte "e se der errado?" repeatedly até encontrar um obstáculo que realmente incomode o personagem. Se o obstáculo não incomoda o personagem, também não vai incomodar o leitor.