Entendendo a Psicogênese da Língua Escrita na prática
Emília Ferreiro e Ana Teberosky foram as responsáveis por uma mudança efetiva na forma como entendemos a alfabetização. A obra Psicogênese da Língua Escrita, publicada em 1985, resultou de anos de observação em salas de aula argentinas e mexicanas. O que elas mostraram é que a criança não chega à escola como uma tábula rasa em relação à escrita. Ela já constrói hipóteses sobre como o sistema alfabético funciona, e essas hipóteses passam por etapas previsíveis. A primeira coisa que muita gente não entende direito é que o modelo não é um quadro rígido. As crianças não avançam uma etapa e nunca mais voltam. No dia a dia, você vai ver alunos que estavam no nível silábico recuando para o pré-silábico quando o texto exige mais complexidade. Isso é normal. O que importa é saber identificar onde a criança está e propor atividades que gerem conflito cognitivo, não exercícios de cópia.
O conceito de emília ferreiro e ana teberosky
O núcleo do trabalho delas é a classificação das hipóteses de escrita. Existem basicamente três fases principais: Fase pré-silábica: A criança ainda não estabeleceu relação entre fala e escrita. Pode usar riscos, desenhos ou letras aleatórias. Um critério comum de identificação é a quantidade de caracteres: se o aluno usa uma letra para escrever palavras grandes e outra letra para palavras pequenas, ainda não compreende o princípio sonoro. No meu caso, já vi aluno que escrevia "B" para "borboleta" e "A" para "abacaxi", achando que o tamanho da letra definiria o tamanho da palavra. A intervenção foi simples: pedir para comparar os nomes e perceber que não fazia sentido escrever tudo com uma só letra.
Fase silábica: A criança começa a associar unidades sonoras a cada traço ou letra. Mas ela ancora uma sílaba inteira em um único gráfico. Por exemplo, escreve "M" para "MAMÃO". Já é um avanço enorme, porque mostra que percebe que a escrita tem relação com a fala. O problema é que essa fase pode se arrastar meses se o professor não propuser desafios adequados. A dica prática é trabalhar com listas de palavras que tenham a mesma sílaba inicial, para que a criança perceba que precisa de mais letras. Fase alfabética: Aqui a criança compreende que cada letra corresponde a um fonema. Não é perfeito ainda — erros de ortografia permanecem — mas o princípio está estabelecido. O que diferencia essa fase das anteriores é a capacidade de escrever qualquer palavra, mesmo que errada graficamente.
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Tem uma etapa intermediária chamada silábico-alfabética, que muitos materiais ignoram. Nela, a criança usa partes silábicas e partes alfabéticas na mesma palavra. É um momento de transição caótico, e o professor costuma se perder aí. A orientação é não corrigir tudo de uma vez. Escolher dois ou três aspectos para trabalhar por semana, anotar a evolução e revisar os objetivos. O que poucos profissionais conhecem em profundidade é que a psicogênese não serve apenas para diagnóstico inicial. Ela deve ser usada de forma contínua. Uma avaliação que eu considero eficiente é aplicar ditados periódicos — uma vez por mês — com listas variadas de palavras, usando palavras com diferentes estruturas silábicas. Anotar não só o nível, mas os erros específicos. A maioria dos docentes para na classificação e esquece de acompanhar a trajetória.
Outro ponto que as pessoas entendem mal é a relação entre leitura e escrita. Ferreiro e Teberosky sempre deixaram claro que são processos distintos, mas complementares. Criança que ainda não lê convencionalmente pode escrever no nível alfabético. E vice-versa. Tentar alfabetizar só pela leitura ou só pela escrita é um erro frequente em escolas que adotam métodos tradicionais disfarçados de construtivistas. Um recurso prático que uso é a produção de textos coletivos. Pedir para os alunos ditarem o que querem escrever, registrar as hipóteses deles no quadro, confrontar com outras formas de escrita e só então mostrar a forma convencional. Isso gera conflito cognitivo de forma orgânica, sem precisar de exercícios repetitivos. O tempo que isso consome é maior do que dar uma lista de palavras para copiar, mas o aprendizado é significativamente mais duradouro.
Uma limitação séria do modelo é que ele foi desenvolvido para o contexto da língua portuguesa falada no México e na Argentina. Nem todas as etapas se aplicam da mesma forma em variantes regionais com particularidades fonológicas. Em comunidades onde o português coloquial difere muito da norma padrão, os ditados precisam ser ajustados para não penalizar os alunos por questões fonéticas que não estão no foco da aprendizagem. Também vale notar que o modelo não explica bem o caso de crianças com transtornos de aprendizagem. Alunos com dislexia, por exemplo, podem apresentar trajetórias muito diferentes das previstas. Nesses casos, o acompanhamento com fonoaudiólogo e especialista em educação especial é indispensável. O modelo de Ferreiro e Teberosky é uma ferramenta, não um diagnosticador.
O material está disponível em várias editoras brasileiras, sendo a mais comum a editora Porto Alegre. Para professores que querem ir além da teoria, existem propostas de sequência didática baseadas nos princípios deles, como as publicadas pela Artmed. O importante é não tratar a psicogênese como um rótulo, mas como uma bússola para planejamento.