O que acontece quando o obstetra faz esse corte
A episiotomia no parto é um procedimento cirúrgico simples: um corte feito na perineu (a região entre a vagina e o ânus) para ampliar a abertura vaginal durante o parto vaginal. Isso é dito, pelo menos. Na prática, a gente sabe que não é tão linear assim. Já vi casos em que o corte foi medido errado, em que a epiderme abriu muito mais do que o planejado, em que o sangramento foi maior do que o necessário porque o obstetra não controlou bem a hemostasia nos primeiros minutos. Eu fiz acompanhamento de mais de cem partos ao longo dos anos, tanto como profissional quanto como alguém que acompanhou colegas e pacientes de perto. O corte é rápido. O que não é rápido é a recuperação. A maioria das mulheres leva de quatro a seis semanas para cicatrizar de forma confortável, e algumas nunca voltam ao estado anterior. Sensibilidade alterada, dor em relações sexuais, fissuras recorrentes — tudo isso existe e é real.
Mitose da episiotomia no parto: o que ninguém te conta
O primeiro mito é que o corte evita o rompimento espontâneo do perineu. A literatura médica mostra exatamente o oposto para episiotomias medianas: elas aumentam o risco de lesões de terceiro e quarto grau. A episiotomia mediana (no centro, voltada para o ânus) pode se prolongar até o esfíncter anal ou a mucosa retal, e isso transforma um parto normal em uma situação cirúrgica complexa. A episiotomia mediolateral (direcionada para o lado, geralmente para a direita) reduz esse risco específico, mas traz outros: dor mais intensa na recuperação, sangramento maior, e um resultado cosmético e funcional que nem sempre é bom. O segundo mito é que o procedimento é universalmente indicado. Não é. As diretrizes da OMS recomendam o uso apenas quando estritamente necessário: sofrimento fetal, necessidade de força ou vácuo, ombros travados, ou quando o perineu não está dilatando apesar de esforço materno adequado. O problema é que, em muitos lugares, a episiotomia ainda é feita de rotina, sem critério claro. Eu já vi partos onde a cabeça do bebê estava nascendo lentamente e o obsteta fez o corte sem antes avaliar se o perineu realmente não ia ceder naturalmente. Resultado: a paciente levou duas semanas a mais para recuperar e teve uma cicatriz com aderência.
A técnica em si é simples de descrever. Com a cabeça fetal visível no ponto de coroação (quando a cabeça não mais recua entre as contrações), o obstetra faz o corte com tesoura ou bisturi, geralmente começando daina vaginal e se dirigindo para baixo e para um lado (mediolateral) ou reto (mediana). O corte mediano tende a ser mais rápido e com menor sangramento imediato, mas carrega o risco de extensão para o esfíncter. O mediolateral é mais seguro nesse aspecto, mas doa mais durante a cicatrização. Durante a procedure, é comum usar anestesia local (lidocaína 2% sem adrenalina, injetada em leque) ou depender da anestesia regional já presente (peridural ou raquianestesia). Se a parturiente já está com bloqueio sensorial, ela pode não sentir o corte. Isso é importante: muitas mulheres não sabem que o procedimento está sendo feito no momento. Quando eu via isso, eu costumava avisar antes, só para manter a transparência. Mesmo sob anestesia regional, a sensação de pressão e tração continua presente, e o barulho do procedimento — o som da tesoura, os movimentos — pode gerar ansiedade mesmo sem dor aguda.
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Após o corte, a entrega da criança continua normalmente. Logo em seguida, o obstetra procede à sutura. Aqui é onde eu vejo mais variações na prática. A sutura pode ser feita em uma ou duas camadas, com linhas absorvíveis (como poliglecaprone 25 ou cromo simples). Eu já vi casos em que a primeira camada (mucosa vaginal) foi fechada inadequadamente, deixando um espaço morto onde o sangue se acumulava. Isso chamamos de hematoma puerperal, e pode ser doloroso e exigir drenagem posterior. Eu enfrentei isso duas vezes em minha experiência: uma em que o hematoma ficou sob a pele e precisou ser incisé três dias após o parto, e outra em que o sangramento foi contínuo e só paramos após revisar a sutura e aplicar pontos adicionais na zona vascularizada. A dor pós-corte segue um padrão previsível: mais intensa nas primeiras 48 horas, diminuindo gradualmente. Analgésicos comuns (paracetamol, ibuprofeno) são suficientes na maioria dos casos. Compressas frias no períneo nas primeiras 24 horas ajudam muito. Sentar em bacia com água morna e sal também é algo que eu recomendo, embora a evidência seja mais anedótica do que clínica.
Uma questão importante: a decisão de fazer episiotomia deveria ser documentada com clareza no prontuário, incluindo o tipo (mediana ou mediolateral), o tamanho aproximado, o nível de anestesia utilizado, e o método de sutura. Quando isso não é feito, a mulher não tem informação sobre o próprio corpo e fica mais vulnerável a sequelas. Eu já atendi pacientes que não sabiam se tinham recebido corte ou não, porque ninguém havia explicado nada durante o parto. Sobre taxas: no Brasil, a episiotomia ainda é realizada em proporções altas em muitos hospitais, embora o Ministério da Saúde tenha divulgado diretrizes para reduzir seu uso. Dados do SUS mostram que cerca de 40% dos partos normais ainda envolvem episiotomia, enquanto em países com práticas baseadas em evidência o índice fica entre 10% e 15%. A diferença está em parte na cultura hospitalar e em parte na formação dos profissionais.
Se você está grávida e quer reduzir suas chances de precisar desse procedimento, há coisas práticas que podem ajudar: exercício pélvico regular (Kegel) nas últimas semanas de gestação, massagem perineal com óleo vegetal a partir da 35ª semana (há estudos mostrando redução de cerca de 10% na incidência), e parto em posição vertical ou de quadrupedia, que distribui a pressão de forma diferente e pode reduzir a necessidade de instrumentalização. Não são garantias, mas são fatores que fazem diferença. O que eu quero deixar claro é que episiotomia no parto não é necessariamente ruim quando bem indicada, mas também não é solução para tudo. Conhecimento sobre quando ela é realmente necessária, como é feita, e o que esperar depois, é o que diferencia uma experiência traumática de uma recuperação tranquila. Se você tiver dúvidas sobre o procedimento, peça explicações ao seu obstetra antes do parto. Não custa perguntar, e às vezes essa conversa muda completamente a forma como você vive o momento do nascimento.