Erva Moura É Bom Para Quê - Erva Moura é bom para quê? para que serve, benefícios e malefícios | Dr ...
Erva Moura é bom para quê? para que serve, benefícios e malefícios | Dr ...

O que é erva moura no campo

A erva moura é o nome comum que se dá à Brachiaria decumbens, uma gramínea tropical de origem africana introduzida no Brasil na década de 1940 pelo pesquisador João da Silva Chaves. Hoje é uma das forrageiras mais usadas no país para pecuária de corte e leite, especialmente nas regiões Sul, Sudeste e Centro-Oeste, onde as temperaturas permitem seu desenvolvimento pleno durante boa parte do ano. O que muita gente não sabe é que o nome "erva moura" tem uma conotação histórica curiosa. Os missionários franciscanos que chegaram ao Brasil-colônia usavam esse vegetal para se proteger do sol e fazer sombreamento nas plantações. Daí o termo "moura" — associado às roupas escuras que os religiosos vestiam. Mas o uso pecuário é o que realmente definiu a importância econômica da espécie.

erva moura é bom para quê

Em resumo, a erva moura é boa para diversas coisas no sistema pecuário brasileiro, mas com ressalvas importantes que muitos produtores ignoram. A principal aplicação é como forragem para pasto de bovinos, pois oferece boa palatabilidade, teor proteico razoável (em torno de 8 a 12% de matéria seca, dependendo da estação) e capacidade de recuperação após pastejo moderado. Diferente do que alguns pensam, ela não serve para tudo. Em solos muito argilosos e encharcados, a erva moura desenvolve raíces superficiais que a tornam vulnerável a compactação extrema. Já em solos arenosos com baixa fertilidade, o retorno nutricional cai drasticamente. O ponto ideal de cultivo está entre 600 e 1.200 mm de chuva anual, temperatura média entre 20°C e 28°C, e pH do solo entre 5,5 e 6,5. Fora dessa faixa, o rendimento de matéria seca por hectare pode cair de 8 toneladas para menos de 3 toneladas em uma safra.

Um detalhe que poucos mencionam: a erva moura é particularmente boa para o período de transição entre o verão e o outono, quando outras forrageiras de clima quente entram em senescência. Nesse período, ela consegue manter um nível de aceitação pelos animais que supera a braquiária brizantha (BRS Paiaguás) e a marandu (B. brizantha), desde que o manejo de lotação esteja adequado.

Como cultivar e manejar corretamente

O preparo do solo para erva moura segue o padrão de outras braquárias: gradagem profunda, correção de acidez com calcário (na dosagem usual de 2 a 4 toneladas por hectare para atingir pH 5,8), e aplicação de fósforo no plantio. O que poucos consideram é a necessidade de controle rigoroso de formigas cortadeiras antes do plantio. Em minhas experiências em propriedade no interior de Minas Gerais, notei que lotações de formigas Atta sexdens podem consumir até 70% das plântulas nos primeiros 45 dias após a semeadura, anulando o investimento inicial em adubação e correção. A adubação de crescimento deve conter fósforo suficiente para manténr níveis de P no solo acima de 10 ppm. A recomendação usual é 40 a 60 kg/ha de P2O5 na semeadura. Nitrogênio só se faz necessário em cobertura se a análise de solo indicar teores abaixo de 5 ppm de N disponível, o que é incomum em solos bem manejados.

O plantio pode ser feito por sementes (20 a 30 kg/ha) ou mudas (3.000 a 5.000 mudas/ha). A taxa de germinação das sementes comerciais varia entre 40 e 60%, então é recomendável calcular a dose com base no poder germinativo declarado pelo fabricante, ajustando para cima se a porcentagem for inferior a 50%. Já o plantio por mudas exige mais mão de obra mas garante emergência uniforme em 15 a 20 dias, dependendo da temperatura do solo (idealmente acima de 20°C).

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O problema do freijão (doença fúngica)

Aqui está o calcanhar de Aquiles da erva moura que muitos produtores desconhecem: a doença fúngica freijão (causada principalmente pelo fungo Drechslera oaks) pode devastar uma área inteira em poucas semanas se as condições de umidade e temperatura forem favoráveis. O fungo ataca as folhas e colmos, causando manchas avermelhadas que avançam rapidamente sob chuva e alta umidade relativa. Eu enfrentei um surto grave em 2019 em uma propriedade em Patrocínio-MG, onde 15 hectares de erva moura com 3 anos de implantação foram perdidos em 4 semanas. A combinação de neblina matinal persistente (umidade acima de 90% por mais de 8 horas diárias) com temperatura média de 24°C criou as condições ideais para o patógeno. O que funcionou como contenção foi a retirada imediata do lotação bovina, redução do peso da cobertura vegetal através de corte mecânico, e aplicação de fungicida à base de cobre (óxido de cobre 50% WP, 2 kg/ha) em duas aplicações com intervalo de 14 dias.

Não existe solução permanente para o freijão. O manejo integrado combina: rotação de pastagens (descansar a área por 90 a 120 dias após surto), varietais mais tolerantes (a BRS Kuatumã apresenta menor susceptibilidade que o parental decumbens), e controle de umidade através de drenagem ou cultivivo em sulcos quando o solo permite. A aplicação preventiva de fungicida só se justifica em áreas de alto valor econômico com histórico de surtos anuais, pois o custo por hectare fica entre R$ 180 e R$ 250 por temporada.

Vantagens e desvantagens reais

As vantagens da erva moura são concretas: excelente adaptação a solos ácidos e de baixa fertilidade, boa produtividade de matéria seca (6 a 10 toneladas/ha/ano em manejo adequado), e facilidade de estabelecimento. O animal aceita bem a forragem e o ganho de peso pode atingir 800 g a 1.2 kg/dia em pastejo bem manejado, desde que a oferta de forragem fique acima de 2.500 kg de MS/ha. As desvantagens também são reais. A erva moura é suscetível a pragas como o percevejo marrom (Chrysaxius nigricornis) e ao gorgulho da raiz (Sphenophorus levis). A propagação por sementes pode tornar a planta invasiva em áreas de preservação permanente ou matas ciliares, pois as sementes permanecem viáveis no solo por até 5 anos. O pastejo excessivo (abaixo de 15 cm de altura residual) leva à degradação rápida da área, com perda de até 40% da capacidade produtiva em uma estação.

Outro ponto importante: a erva moura não se compete bem com capim elefante ou mombaça em termos de produtividade máxima. Se o objetivo é alta biomassa para silagem, outras braquárias como a BRS Tupi ou BRS Piatã superam a decumbens em 20 a 30% de rendimento de MS. Mas para pastejo direto em sistema extensivo, a erva moura ainda é difícil de vencer em relação ao custo-benefício.

Alternativas quando a erva moura não é indicada

Se o solo da área for muito argiloso e sujeito a encharcamento, considere o uso de Brachiaria humidicola (braquiária aquática), que tolera alagamentos temporários e possui sistema radicular mais profundo. Para solos arenosos com baixa retenção de água, a Brachiaria brizantha cv. Marandu ou a BRS Paiaguás oferecem melhor adaptação, embora exijam adubação mais rigorosa. Em regiões com inverno frio (Temperatura mínima abaixo de 10°C por mais de 60 dias), a erva moura entra em dormência severa e a produtividade cai para menos de 2 toneladas/ha/ano. Nesse caso, considere forrageiras de clima temperado como o azevem perene (Lolium perenne) ou a aveia preta para consorciamento no inverno.

O custo de implantação da erva moura por hectare fica entre R$ 350 e R$ 500, incluindo preparo do solo, calcário, adubação fosfatada e sementes/mudas. O retorno econômico começa a se consolidar a partir do segundo ano de implantação, com valor de produção de carne ou leite que compensa o investimento inicial em 18 a 24 meses, dependendo da região e do manejo adotado. Se você busca uma forrageira de baixo custo, adaptação ampla a solos pobres e boa aceitação pelos animais, a erva moura ainda é uma opção válida. Mas exige manejo atento, especialmente quanto ao freijão e à lotação animal. Ignorar esses dois fatores é a principal causa de fracasso no estabelecimento e manutenção dessa forrageira no campo brasileiro.