Parentalidade e comunicação
Poucas coisas afetam tanto a dinâmica familiar quanto a forma como expressamos nossos afetos. Muitos pais têm dificuldade em verbalizar o carinho, principalmente em culturas onde isso não era comum nas gerações anteriores. Eu percebi isso na prática quando me dei conta de que eu eu amo o meu filho nunca saía da minha boca de forma clara e direta, apesar de eu sentir isso o tempo todo. O problema real não é a falta de sentimento. É a falta de costume. Meus pais nunca me diziam aquilo abertamente. Cresci sem ter escutado essas palavras com frequência, e quando fui pai, repiti o padrão sem perceber. Só fui perceber depois que meu filho começou a perguntar "você me ama?" com uma frequência que me pegou de surpresa.
A dificuldade em dizer eu amo o meu filho
Existem barreiras práticas e culturais. Homens, em especial, tendem a ter mais dificuldade porque a socialização que receberam raramente incluiu a expressão verbal de afeto. Eu mesmo levava para casa o resultado do trabalho cansado e simplesmente queria silêncio. Mas o silêncio, percebeu-se depois, era lido pela criança como indiferença. O que funcionei comigo foi criar um ritual. Todo dia antes de dormir, eu dizia. Sem variação, sem drama. Apenas "eu te amo, filho". Parece bobo, mas a repetição é o que faz funcionar. A criança não precisa de poética. Ela precisa de previsibilidade. Se você disser uma vez por mês, não conta muito. Se disser todo dia durante um ano, muda tudo.
Um detalhe que pouca gente menciona: a idade importa muito. Antes dos dois anos, a criança responde mais ao tom e ao toque. Aos três, já começa a buscar a confirmação verbal. Depois dos cinco, você vai começar a ouvir perguntas como "você ainda me ama mesmo depois que eu fiz birra hoje?". Aí é hora de ser firme. "Sim. Sempre." Tem um caso que me marcou. Meu filho tinha quatro anos e estava passando por uma fase em que só queria atenção. Cheguei tarde do trabalho um dia, ele estava chorando na porta. Eu disse "eu te amo" rápido, como quem completa uma tarefa, e fui tirar a bolsa. Ele respondeu "mas você está dizendo rápido porque quer ir embora". Eu parei. Respirei. Me abaixei no nível dele e disse de novo, devagar. A diferença foi imediata. Ele parou de chorar e abraçou minha perna.
Não existe fórmula secreta. Não tem aplicativo, não tem livro que resolva isso melhor do que a presença. O risco que vejo muitas pessoas correrem é achar que o gesto substitui a palavra. Um abraço é bom. Um brinquedo é legal. Mas a frase dita claramente, olhando nos olhos, não tem equivalente. Outro ponto prático que as pessoas esquecem: quando se diz isso importa o contexto. Dizer "eu te amo" no meio de uma briga, sem explicar nada depois, pode soar contraditório para a criança. Nesse caso, é melhor resolver a questão primeiro, e então repetir a frase. A criança precisa entender que o amor é independente do comportamento dela.
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Se você está começando agora a trabalhar isso, pode estranhar no início. Vou ser sincero: vai parecer forçado nas primeiras semanas. Meu filho na primeira vez que ouviu aquilo dito de forma intencional ficou olhando meus olhos como se eu tivesse dito algo errado. Demorou cerca de um mês para ele acreditar que era sério. Depois disso, passou a cobrar. E cobrar de bom jeito. Uma recomendação prática: escreva num post-it na geladeira ou no espelho do banheiro. Não é sobre esquecer. É sobre tornar visível algo que você sente mas nem sempre verbaliza. A simples ação de escrever já muda a sua própria mentalidade. Eu fiz isso e em duas semanas já estava dizendo sem precisar do aviso.
A parte mais difícil não é falar. É manter a constância. Tem dias que você chega exausto e pensa "hoje eu não tenho condições". Mas o filho não sabe disso. Ele só vê o patrão que sumiu ou o pai que estava perto mas ausente. Se possível, encaixe esse momento em algo que já existe na rotina. Escovar os dentes, colocar a pijama, o momento antes de fechar a luz. Qualquer rotina serve como âncora. Existe também a questão da linguagem. Em algumas famílias, as crianças são criadas bilíngues ou crescem ouvindo termos carinhosos em dialetos regionais. Se você tem essa realidade, use. "Eu te amo" é compreendido universalmente, mas o afeto ganha força quando é dito na língua que a criança mais escuta em casa. Eu tive um colega que só conseguia dizer "eu te quero bem", que é a forma como sua mãe falava. Para o filho, fez mais sentido do que qualquer frase pronta.
Um erro comum é transformar a expressão em moeda de troca. "Se você for bom, eu te amo." Isso cria uma associação perigosa. O amor verdadeiro não tem condições. Dizer isso claramente, e repetir quando necessário, ajuda a criança a desenvolver segurança emocional. O que eu posso afirmar com certeza é que o esforço vale muito a pena. Não porque vai transformar seu filho num gênio ou num adulto bem-sucedido, mas porque vai dar a ele um alicerce do qual ele nunca vai precisar pedir desconto. E quando ele crescer, provavelmente vai lembrar exatamente o tom de voz com que você disse, não necessariamente as palavras exatas.
Se você estiver lendo isso e nunca tenha dito para o seu filho, comece hoje. Não precisa ser um discurso. Precisa ser claro. "Eu te amo. Você é importante para mim. Eu estou aqui." Três frases, dez segundos. Todo dia.