O guia prático que ninguém pediu sobre vícios de linguagem
Vícios de linguagem são desvios da norma culta que acontecem no uso cotidiano. Nem sempre são erros graves, mas entendê-los faz diferença quando você precisa escrever com clareza ou revisar textos profissionais. A maioria das pessoas não consegue identificar um vício quando o lê porque o escuta o tempo todo na boca alheia. Existem categorias diferentes e cada uma tem um comportamento particular. Vou listar as principais com exemplos reais que eu vejo surgindo em revisões de texto todos os dias.
Exemplos vícios de linguagem mais comuns
Pleonasmo vicioso: repetir ideia já expressa. "Subir para cima", "descer para baixo", "entrar para dentro". O correto é usar o verbo sozinho: "subir a escada", "descer a rua". Esse tipo de redundância é o que mais aparece em e-mails corporativos e mensagens informais. Regência verbal: erro na relação entre verbo e complemento. "Assistir o jogo" no sentido de ver é aceito na linguagem informal, mas na norma culta o correto é "assistir ao jogo". "Ir à São Paulo" está errado — o certo é "ir a São Paulo". "Chegar lá em casa" em vez de "chegar em casa" também é um desvio comum que muita gente passa despercebido.
Crase: esse é um terreno minado. "Às vezes" leva crase porque é contração de a + a. Mas "a moda" não leva. O erro mais frequente que eu vejo é colocar crase antes de palavra masculina: "fui à pé". Não existe. A exceção é quando há a ideia de "à maneira de", como em "à moda paulista". Barbarismo: uso de forma errada de uma palavra. "Obter" com B, não com V. "Estratégia" com g, não com j. "Parceria" com c, não com s. "Patuscada" não é "patuscada". Essas palavras são tão usadas errado que parecem certas para quem ouviu o erro tantas vezes.
Calcque: cópia literal de estrutura de outro idioma. "Deu-me acesso à informação" traduzindo do inglês "it gave me access to the information". O português prefere "tinha acesso à informação" ou "obtve acesso". Outro exemplo: "dar uma olhada" por influência de "take a look". Em contextos formais soa muito amador. Anacoluto: quebra na estrutura da frase que deixa um termo solto. "Esse filme que eu nunca recomendaria para ninguém" — "esse filme" não tem função sintática na oração seguinte. É comum na fala, problemático na escrita formal.
Concordância nominal mal feita: "Seguem duas cópias" em vez de "Segue duas cópias" (o sujeito é "duas cópias", plural). Ou "É necessário paciência" no lugar de "São necessárias paciências". Isso aparece muito em comunicados e editais.
Como identificar esses vícios na prática
A maioria dos corretores automáticos não pega vícios de linguagem. Eles detectam ortografia e concordância básica, mas pleonasmos, regências e calcques passam direto. O corretor ortográfico do Word marca "àto" como erro, mas não vê que "assistir o jogo" não está no padrão culto. Eu desenvolvi um método próprio de revisão que funciona em três passadas. Na primeira, leio o texto inteiro sem me preocupar com detalhes — só para captar o fluxo geral. Na segunda, caço especificamente por vícios: procuro por pares verbais que costumam causar problemas ("assistir", "referir-se", "visar", "almejar"). Na terceira, verifico crase e regência nominal isoladamente.
👉 Clique no botão abaixo para saber mais sobre o assunto!
Essa abordagem divide o trabalho de revisão. Um texto de 15 páginas que levaria cerca de 40 minutos em uma leitura única leva uns 25 minutos nessa técnica, e a taxa de vícios remanescentes cai de algo em torno de 8 para 2 ou 3 por página.
Um caso específico que quase passei despercebido
Estava revisando um manual técnico de operações quando encontrei a expressão "em anexo" repetida 14 vezes. Todo mundo usa, mas a norma culta recomenda "anexo" (sem "em") quando o termo se refere ao substantivo: "Segue a planilha anexo". "Em anexo" só é aceito quando se refere ao verbo no sentido de estar fisicamente incluído, mas mesmo assim muitos gramáticos consideram redundante. O problema é que o corretor não toca nisso. A solução que encontrei foi fazer uma busca por "em anexo" no documento e substituir manualmente. Para documents grandes, usei uma macro simples em Python com regex que encontrava o padrão e sugería a correção. Levou cerca de 3 minutos para corrigir todos os 14 casos em um arquivo de 60 páginas.
Pontes que iniciantes costumam perder
Primeiro: nem todo vício de linguagem é erro grave. "Nós vamos" no lugar de "nós idos" é um desvio, mas em contextos informais é perfeitamente compreensível. O problema é quando o vício gera ambiguidade. "Ele não tem nada pra mim fazer" pode significar duas coisas diferentes dependendo da entonação e do contexto. Segundo: o uso excessivo de anglicismos não é apenas questão de estilo. Tradutores e revisores profissionais cobram desconto ou rejeitam textos com muitos estrangeirismos desnecessários quando o público-alvo é formal. "Deadline", "feedback", "brainstorm" — words that have no equivalent in Portuguese but are overused. There are valid translations: "prazo final", "retorno", "tempestade de ideias".
Terceiro: alguns vícios são regionalismos legítimos. "Tá ligado?" no lugar de "você entende?" não é erro, é variação dialetal. O problema aparece quando se mistura register — usar linguagem coloquial em um documento que exige formalidade.
Ferramentas úteis
Não existe ferramenta que detecte todos os vícios de linguagem automaticamente. O Grammarly e o LanguageTool fazem o básico, mas falham em coisa como regência e pleonasmo. Para trabalhos profissionais, o melhor mesmo é revisão humana combinada com ferramentas básicas de ortografia. Se você trabalha muito com texto, considere usar o corretor do LibreOffice com configurações de português do Brasil ativadas. Ele é mais rigoroso com crase e regência do que o editor padrão. Para revisão avançada, existem serviços de revisão profissional que custam entre R$0,05 e R$0,15 por palavra, dependendo da complexidade do texto.
Quando ignorar os vícios
Na linguagem informal, nas redes sociais, em mensagens de WhatsApp, a rigidez normativa não se aplica. Forçar a norma culta nesses contextos soa artificial e pode prejudicar a comunicação. O importante é saber quando e onde usar cada registro. Um currículo pede norma culta. Um post no Twitter não. Se o seu objetivo é escrever bem em contextos formais, foque nos vícios que realmente causam prejuízo: regência, crase e ambiguidade. Pleonasmos e barbarismos são mais cosméticos. Gasta-se menos energia corrigindo o que realmente importa.