O que são as fases do brincar e por que elas não funcionam como um roteiro
As fases do brincar descrevem como a criança evolui na forma de interagir com objetos e outras crianças ao longo do desenvolvimento. O modelo mais usado no Brasil veio do trabalho de Mildred Parten nos anos 1930, e foi adaptado por autores brasileiros como Kishimoto e Machado. Não é uma teoria perfeita, mas é o que a maioria das universidades e dos cadernos de educação infantil usa como referência prática.
Fases do brincar: o que cada uma significa na prática
A primeira fase é o brincar solitário. A criança brinca sozinha, completamente alheia ao que os outros estão fazendo ao redor. Isso é normal e esperado dos seis meses aos dois anos, aproximadamente. Não é um problema de apego, não é timidez, é simplesmente a criança ainda não ter desenvolvido a capacidade cognitiva e social de coordenar brincadeira com pares. A segunda é o brincar paralelo. Duas crianças estão lado a lado, cada uma com seus brinquedos, sem interação real. Parece que estão brincando juntas, mas não estão. Esse estágio aparece entre dois e três anos. O erro mais comum que eu vejo em creches e em casas é a adulta tentar forçar interação nessa fase, puxando os brinquedos de uma criança para a outra. Isso gera conflito desnecessário e costuma fazer a criança recuar ainda mais.
Depois vem o brincar associativo, por volta dos três aos quatro anos. As crianças começam a trocar materiais, conversar, propor coisas umas às outras, mas ainda não há uma divisão clara de papéis ou um objetivo coletivo. Pode ser que uma esteja fazendo de conta que é professora e a outra está na plateia, mas não há um roteiro combinado previamente. O brincar cooperativo aparece por volta dos quatro aos cinco anos e é o estágio mais complexo. As crianças organizam regras, dividem funções, trabalham para um objetivo comum. Um grupo pode estar construindo uma casa de bonecos com papeis definidos: uma cozinha, outra sala, cada uma com seu espaço dentro do mesmo cenário.
Tem também a observação (a criança assiste aos outros brincarem sem participar ativamente) e o brincar vazio (movimentos sem foco, comuns em bebês muito pequenos ou em momentos de transição).
Como identificar essas fases no dia a dia
O principal erro de quem tenta aplicar esse modelo é achar que a criança passa por todas as fases em linha reta. Na prática, eu vi crianças de cinco anos ainda fazendo muito brincar paralelo em certos contextos, enquanto em outros já demonstravam cooperativo avançado. O contexto importa mais do que a idade cronológica. Para identificar, observe durante pelo menos duas semanas, em diferentes momentos do dia. Anote não só o que a criança faz, mas também com quais crianças, em quais espaços e com quais materiais. Um menino que é cooperativo com o irmão mais velho pode ser puramente solitário com crianças novas. Isso é normal.
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Acredito que a ferramenta mais útil é registro diário com três colunas: data, tipo de brincar observado e observações contextuais. Leva cerca de cinco minutos por dia. Não precisa de planilha complexa. Se você quer algo mais estruturado, existem formulários prontos no site do Ministério da Educação ligados ao referencial curricular nacional, mas a versão simples funciona bem.
Problemas que todo mundo encontra e soluções que funcionam
Um problema recorrente é a criança que parece estar sempre no brincar solitário, mesmo em ambiente de creche com muitos colegas. A tentação natural é chamar a atenção dela, incluir à força, propor atividades em grupo. Eu já fiz isso e vi que só piorava. A criança ficava mais retraída e as outras começavam a rejeitá-la por perturbar o fluxo. A solução que funcionou no meu caso foi diferente: criar um espaço de transição. Eu deixei a criança brincar sozinha em um canto tranquilo, com materiais que ela escolhia, e fui colocando, aos poucos, materiais que pudessem despertar interesse nos outros. Sem pressionar. Depois de algumas semanas, uma criança começou a se aproximar por curiosidade. Aí sim, entrei com mediação leve.
Outro problema é a confusão entre brincar paralelo e brincar solitário. Ambos parecem com a criança sozinha, mas a diferença é crucial. No paralelo, a criança está ciente da presença do outro e pode até imitar. No solitário, não há nenhuma referência ao outro. A distinção é sutil, mas faz diferença na hora de planejar intervenções.
O que o modelo não explica
Parten não contemplou aspectos culturais. O que é considerado brincar cooperativo no contexto de uma escola urbana de classe média pode ser completamente diferente no contexto de uma comunidade rural ou de uma família com crianças de idades mais espaçadas. O modelo também não lida bem com crianças neurodivergentes. Uma criança com autismo pode parecer estar em brincar solitário, mas na verdade está engajada de forma intensa e significativa com objetos de maneira que não se encaixa nas categorias tradicionais. Se você estiver trabalhando com crianças que não se encaixam no padrão, o ideal é complementar com avaliações de desenvolvimento mais amplas, como o Denver II ou avaliações com especialistas. O modelo de fases do brincar é um ponto de partida, não um diagnóstico.
Quando não usar esse modelo
Se o seu objetivo é apenas acompanhar o desenvolvimento geral da criança em ambiente doméstico, as fases do brincar podem ser úteis como referência leve. Mas se você está em situação de avaliação formal, acompanhamento terapêutico ou documentação para escolas com exigências legais, considere usar instrumentos mais robustos. O modelo de Parten é descritivo, não avaliativo. A maioria dos educadores que eu conheço acaba usando as fases do brincar como guia informal, junto com outras ferramentas. Funciona bem assim. Quando tenta transformar em sistema rígido de avaliação, os resultados ficam distorcidos.