Feridas E Coberturas - #enfermagem #feridas #curativos #cicatrização #assistênciadeenfermagem ...
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Entendendo o básico antes de complicar

Feridas e coberturas é um tema que muita gente trata como se fosse simples, mas na prática exige considerar vários fatores que vão além do tipo de curativo que você compra na farmácia. A escolha errada pode aumentar o tempo de cicatrização em semanas, não dias. Já vi pacientes retornarem duas vezes por mês com uma lesão que parecia banal no início e virou complicação séria justamente porque a cobertura não era adequada ao estágio da ferida. O primeiro passo é classificar a ferida. Isso parece óbvio, mas é onde a maioria erra. Ferida seca e escura precisa de hidratação. Ferida com muito exsudato precisa de absorção. O resto é tentativa e erro dispendiosa.

Feridas e coberturas: a prática real

Existem coberturas hidrocoloides, hidrocelulares, de espuma, de espuma com prata, gaze simples, filmes ocultos, hidrogéis, alginatos de cálcio, colágeno. Cada uma tem um propósito específico e o erro mais comum é usar gaze em tudo. Gaze é útil em cenários muito particulares. Quando aplicadas em feridas com exsudato moderado a elevado, a gaze se impregna, gruda no leito da ferida e ao remover você basicamente rasga o tecido de granulação que estava se formando. Eu tive um caso de um paciente com úlcera venosa de perna que estava usando gaze há meses. A ferida tinha bom potencial de cicatrização, mas a remoção diária da gaze aderida mantinha o processo inflamatório ativo. Troquei para hidrocoloide com venda fixadora e a frequência de trocas caiu de diária para a cada três dias. O processo de cicatrização recuperou o ritmo em cerca de duas semanas. O segundo ponto que pouca gente leva a sério é o perímetro da lesao. A cobertura deve sobrar pelo menos dois centímetros além da borda da ferida em todas as direcoes. Se você aplica no tamanho exato ou menor, a borda da cobertura vai em contato direto com a lesao e isso quebra a barreira de protecao e permite que bacteria penetre por capilaridade. Isso é particularmente relevante com hydrocoloides e filmes.

Avaliar o exsudato e ajustar a cobertura conforme a evolucao e outra coisa que passa despercebida. A primeira semana de uma ferida cirurgica limpa pode ter pouco exsudato, mas na segunda semana o volume aumenta naturalmente. Uma cobertura que funcionou bem no dia da sutura pode estar saturada na terceira consulta. Eu costumo avisar os pacientes desde a primeira consulta que a troca pode precisar ser mais frequente conforme a ferida evolui. Ja vi gente que insistia em trocar a cada sete dias porque o folheto da embalagem dizia isso, e a cobertura saturada transbordava pelo bordo. O resultado foi maceracao do tecido ao redor.

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Quando cada tipo de cobertura faz sentido

Hidrocoloides sao indicados para feridas com exsudato leve a moderado e fundo bem definido. Nao use em feridas com infeccao ativa sem avalizacao clinica, em feridas com tecido necrotico grosso ou em pele muito fragil onde a remocao pode causar trauma. A durabilidade varia entre tres e sete dias dependendo do volume de secrecao. Alginatos sao derivados de algas marinhas e tem alta capacidade de absorcao. Transformam-se em gel ao contato com o exsudato. Sao ideais para feridas com exsudato abundante, como ulceras de perna, pressoes ou feridas cirurgicas com sangramento moderado. O problema é que nao funcionam em feridas secas. Se a ferida nao tem exsudato suficiente para ativar o alginato, ele acaba ressecando o leito e atrapalhando a granulação. Nesses casos, hidratar primeiro com hidrogel e só depois aplicar o alginato.

Espumas de poliuretano sao versateis e absorvem de moderado a alto exsudato. Sao mais resistentes que os alginatos e nao deixam residuos ao remover. O custo é mais elevado. Eu prefiro espuma quando a ferida precisa de preenchimento do leito, porque existem espumas moldaveis que preenchem cavidades sem compactar o tecido. Filmes transparentes sao basicamente barreira mecanica. Nao absorvem nada. Sao usados em feridas com minimo exsudato, como escorias superficiais ou como protecao sobre outras coberturas para fixacao. Nao isole feridas com exsudato médio a forte sob filme puro — a umidade fica retida e a maceração aparece rapido.

Dica prática que nao está nos manuais

A pele ao redor da ferida precisa ser protegida antes de aplicar qualquer cobertura adesiva. Eu uso solução barreira à base de dimeticona ou creme de zinco na pele perilesional. Isso evita que a faixa adesiva comprometa a epiderme ao ser removida, especialmente em pacientes idosos ou em quimioterapia onde a pele é literalmente papel. Sem essa protecao, a remoção do curativo já é, por si só, um fator de lesao iatrogenica. Tambem vale anotar: a tecnica de remocao importa tanto quanto a aplicacao. Remova no sentido do crescimento dos pelos, sustentando a pele adjacente com a outra mao para nao tracionar o tecido. Puxar no vazio é a causa numero um de dermatite de fita adesiva e de desepidermizacao.