Como tirar foto de célula animal com microscopia óptica
Eu comecei a trabalhar com microscopia de luz na banca de histologia do laboratório em 2014. Na época, achava que foto de célula animal era só clicar no ocular. Aprendi na marra que a coisa é mais complicada. Vou explicar o procedimento real, com os problemas que eu enfrentei e como resolvi.
Equipamento necessário para foto da célula animal
O mínimo viável é um microscópio binocular ou trinocular com aumento de 400x a 1000x, uma câmera acoplada ao tubo trinocular (não adianta tentar foto com celular na ocular sem um adaptador estável), lâminas e lamelas padrão, e corante. Para células animais, o corante mais usado é azul de metileno ou corante de Wright-Giemsa, dependendo do tipo de amostra. Células epiteliais da mucosa bucal ficam claras de azul com metileno. Sangue periférico usa Giemsa. Se você não tem câmara acoplada, dá para improvisar com um adaptador universal de celular, mas a imagem perde resolução. Eu tenho dois microscópios no laboratório: um Olympus CX23 com câmara OMICAM e um antigo Nikon Eclipse E200 sem saída de câmera. No E200, eu uso um adapter T-ring genérico. O preço desse adapter custou 87 reais em 2019. Vale a pena se você vai fazer muitas fotos, mas para duas imagens por ano, melhor emprestar o Olympus.
Preparo da amostra
Para células da bochecha, o protocolo é simples. Enxágue a boca com água para remover restos de comida. Raspe suavemente a mucosa interna com uma espátula de madeira ou palito de dente. Passe o material raspado numa lâmina com uma gota de soro fisiológico. Espalhe fino. Não precisa pressionar muito, senão a célula rompe. Deixe secar ao ar. Fixe com etanol 95 por cento por 2 minutos. Enxágue. Cora com azul de metileno 1 por cento por 1 minuto. Enxágue rápido com água destilada. Deixe secar completamente antes de montar a lamela. Se a lâmina ainda estiver molhada, a imagem fica turva e você perde o foco. Eu já estraguei três lâminas tentando secar com secador de cabelo. O ar quente deforma a geometria celular. Deixe secar naturalmente por 10 minutos. Em ambiente com 60 por cento de umidade, isso leva cerca de 20 minutos.
Ajuste óptico antes de fotografar
Muita gente pula essa etapa. É o erro mais caro. Antes de qualquer foto, ajuste o condensador usando a técnica de Köhler. Ilumine a lâmina com o diafragma do condensador parcialmente fechado. Foque na amostra. Abra e feche o diafragma até ver o contorno nítido das lâminas no plano focal. Isso elimina artefatos de iluminação que parecem estruturas celulares falsas. Eu perdi uma tarde inteira achando que tinha encontrado uma organela nova em células HeLa. Era poeira no condensador. Peliícula de poeira mesmo. Limpou com papel de lente e o "organelo" sumiu. Para aumento de 100x com imersão em óleo, use óleo de imersão com índice de refração 1,515. Colocar óleo demais é tão ruim quanto colocar de menos. Se o óleo transbordar e cobrir a lâmina toda, a aberração esférica aumenta e a resolução cai. Eu aprendi isso derramando um frasco de óleo num dia de pressa. A amostra ficou com resolução equivalente a 40x, não 100x.
Configuração da câmera e captura
No software da câmera, defina o balanceamento de branco manualmente. A luz do microscópio LED tem temperatura de cor diferente da luz de tungstênio. Se o software usar branco automático, as cores do corante ficam deslocadas. Azul de metileno aparece como verde lavanda se o balanço de branco estiver errado. Isso estraga qualquer análise qualitativa de intensidade de cor. Exposição: comece com ISO 200, abertura máxima que o objetivo permitir, e tempo de exposição de 50 a 200 milissegundos. Faça um bracket de três imagens com tempos diferentes. Na hora de escolher, pegue a que não saturou nos canais RGB. Imagem saturada não tem dados recuperáveis. Eu já tentei recuperar uma foto de células sanguíneas superexpostas usando pós-processamento no GIMP. O resultado foram artefatos de noise que pareciam granulocitos. Não confie em recuperação de dados saturados.
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Resolução do sensor importa. Um sensor de 5 megapixels captura detalhes suficientes para 1000x de aumento óptico. Acima disso, o aumento eletrônico não adiciona informação real. É zoom digital disfarçado. O limite prático de resolução para microscopia de luz é cerca de 200 nanômetros por causa do limite de difração de Abbe. Nada de câmera vai resolver mitocôndrias individualmente em células animais com luz visível. Você precisa de microscopia eletrônica para isso.
Problema específico que eu enfrentei
Em 2021, eu estava preparando lâminas de epitélio bucal para um curso de extensão. O microscópio tinha um filtro de fluorescência FITC instalado erroneamente por um colega. As células apareceram com fluorescência verde fraca. Eu gastei duas horas ajustando exposição e filtragem antes de perceber que o cubo de fluorescência estava na posição errada. O filtro FITC bloqueia comprimentos de onda acima de 535 nanômetros. Com luz branca do condensador, a imagem perde 60 por cento da intensidade. A solução foi remover o cubo de fluorescência e usar o caminho óptico direto. Isso restaurou o brilho normal em 30 segundos. Dica prática: sempre verifique a posição do cubo de filtros antes de começar. A etiqueta FITC, DAPI, TRITC deve estar alinhada com o método de corante que você está usando. Se estiver usando corante de transmissão simples, o cubo deve estar na posição aberta ou removido.
Limitações e quando desistir
Microscopia óptica de luz tem limites rigorosos. Você não vai ver ribossomos, complexo de Golgi detalhado, ou membranas internas com resolução suficiente para distinguir camadas. O limite de difração impede resolução abaixo de 200 nanômetros. Células animais têm organelas na escala de 10 a 500 nanômetros. Muitas ficam abaixo do limite de resolução. Se você precisa ver ultraestrutura celular, a alternativa é microscopia eletrônica de transmissão. O custo é aproximadamente 50 vezes maior por amostra, e o preparo leva de 2 a 3 dias. Para a maioria dos usos educacionais e diagnósticos básicos, a microscopia óptica com foto da célula animal é suficiente. Mas saiba onde ela falha. Não tente interpretar estruturas que estão abaixo do limite de resolução como se fossem reais.
Outra limitação prática: células animais sem parede celular são mecanicamente frágeis. Durante o espalhamento na lâmina, muitas se rompem. A fração de células intactas varia de 30 a 70 por cento dependendo da técnica de raspagem. Se menos de 40 por cento das células estiverem intactas, refaça o preparo com raspagem mais suave e menor volume de soro fisiológico.
Armazenamento e documentação
Salve as imagens em TIFF sem compressão. JPEG introduz artefatos de compressão que podem ser confundidos com estruturas celulares. Eu vi um artigo em revista de baixo impacto usando imagens JPEG de células cancerosas onde os artefatos de compressão pareciam apoptose. O revisor pediu raw data. O autor não tinha. O artigo foi rejeitado. Metadados são importantes. Anote data, aumento total, tipo de corante, tempo de coração, e modelo da câmera. Sem essas informações, a imagem perde valor científico em dois anos. Eu encontrei uma pasta com 400 imagens sem metadata em 2023. Não tinha como saber qual era qual. Jogamos tudo fora. Não repita esse erro.
O procedimento completo leva de 45 minutos a 1 hora para uma amostra padrão de célula epitelial bucal. O tempo dominante é o preparo da lâmina, não a captura da imagem. Com prática, você reduz para 30 minutos. A curva de aprendizado é íngreme nos primeiros dez preparo de lâmina. Depois disso, o processo vira rotina.