O que vocês precisam saber sobre habitat dos poríferos antes de começar
A maioria dos trabalhos escolares trata poríferos como se fossem plantas fixas num recife bonito. A realidade é mais chata e mais interessante ao mesmo tempo. Poríferos, ou esponjas, habitam praticamente todos os ambientes aquáticos do planeta, mas com restrições que poucos mencionam. A água precisa estar em movimento, ainda que leve. Eles não sobrevivem bem em lugares parados porque o fluxo é o que traz oxigênio e partículas de alimento. O habitat dos poríferos se divide basicamente em marine e doceágua. Espécies marinhas dominam, representando mais de 90% das cerca de 9 mil espécies descritas. As de água doce pertencem à família Spongillidae e vivem em lagos, lagoas e rios de corrente lenta. Encontrar uma esponja de água doce exige procurar em substratos submersos como raízes, pedras e troncos, geralmente em águas transparentes e pouco poluídas. Isso já elimina boa parte do Brasil, que tem muitos rios carregados de sedimento em suspensão.
Conhecendo o habitat dos poríferos na prática
Quando eu comecei a trabalhar com coleta de esponjas, meu primeiro erro foi ir para o fundo rasa demais. A tendência é achar que esponjas vivem só em recifes rasos, mas muitas espécies importantes estão entre 20 e 200 metros de profundidade. O problema é que nesse intervalo a luz já não dá para fazer foto bonitinha e o equipamento precisa ser levado com cuidado. Eu passei três dias perdidos procurando o que era na verdade um banco de esponjas do gênero Cliona em costões submersos, e no final descobri que elas estavam grudadas em baías protegidas de ondas fortes, não em recifes expostos. O que define se um local abriga poríferos não é só a profundidade. A composição do substrato importa muito. Espécies encrustantes se fixam em rocha, conchas, até em ervas marinhas. Espécies massivas oudigitiformes preferem substrato mais firme. A salinidade também é crucial, porque esponjas de estuário precisam tolerar variações bruscas, e a maioria das espécies simplesmente não aguenta ficar abaixo de 25 ppt por muito tempo.
Tem um detalhe que poucos livros citam: a temperatura da água define a zona de distribuição de muitas espécies de forma mais rígida do que a disponibilidade de comida. No Atlântico Sul, por exemplo, espécies do gênero Ircinia aparecem consistentemente entre 18°C e 26°C. Fora dessa faixa, a taxa de filtração cai drasticamente e o animal entra em estresse. Se você está mapeando habitat dos poríferos para um estudo ecológico, anote a temperatura todo dia. Um termômetro barato resolve isso. A relação com algas simbióticas, especialmente cianobactérias do tipo Synechococcus, é outro fator que determina onde a esponja vai conseguir prosperar. Espécies com simbiose podem viver em águas mais oligotróficas, onde a comida livre é escassa. Já as espécies assimbióticas dependem inteiramente da.partícula em suspensão. Isso explica por que algumas esponjas crescem em recifes muito clarinhos e outras só aparecem em regiões de upwelling, mesmo que o fundo seja parecido.
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Agora, se o seu objetivo é manutenção em aquário, o cenário muda completamente. EspONjas marinhas em cativeiro são notoriamente difíceis de manter. Elas precisam de fluxo laminar, qualidade de água extremamente estável e, em muitos casos, suplementação com bactérias específicas da microbiota associada. Eu tentei manter Hymeniacidon sp. por oito meses e ela sobreviveu apenas porque eu trocava 30% da água semanalmente e alimentava com cultivo de microalgas, coisa que a maioria dos hobbyistas não faz. Sem isso, a esponja escurece e entra em liquefação em poucas semanas. Para quem quer estudar habitat dos poríferos de forma mais sistemática, o protocolo que funciona é simples: escolha pelo menos três pontos com substrato diferente, colete amostras com aleta e facão, fixe em formalina a 4% ou etanol 70% dependendo do objetivo (morfologia ou DNA), e registre coordenadas, profundidade, temperatura e visibilidade. Isso leva uns 45 minutos por ponto se você já estiver no local. Coisas que atrasam são correntes fortes e visibilidade baixa, que reduzem o tempo efetivo de coleta para algo em torno de 15 minutos por mergulho.
Um limitante importante que merece ser dito aberto: Poríferos não são bons bioindicadores de qualidade de água em ambientes muito degradados. Eles acumulam metais pesados e microplásticos, sim, mas a presença deles não significa que o ambiente está saudável. Pelo contrário. Algumas espécies oportunistas, como certain demosponjas do gênero Cinachyra, prosperam exatamente em locais com matéria orgânica elevada. Usar esponja como indicador de poluição requer análise química dos tecidos, não só observação de presença ou ausência. Se você precisa de referência rápida para identificação, a base de dados World Porifera Database mantém uma lista atualizada com distribuição geográfica de cada espécie descrita. Ela é gratuita e acessível pelo navegador. Para o Brasil, os trabalhos do Laboratório de Esponjas Marinas da UFRJ e do Museu de Zoologia da USP são os mais confiáveis, embora alguns catálogos regionais ainda tenham dados desatualizados sobre abundância relativa em determinados biomas.
O que eu faria diferente se começasse agora é levar um fluorômetro portátil para medir clorofila-a no local. A concentração de fitoplâncton correlaciona diretamente com a biomassa de esponjas filtradoras em muitos recifes, e essa dados complementares costumam ser a diferença entre um estudo descritivo e um estudo explicativo. Não precisa ser algo caro, existem modelos portáteis na faixa de 2 a 3 mil reais que dão leitura em tempo real.