Como usar histórias de bonecas em sala de aula
História da boneca abayomi para educação infantil
O Abayomi é uma boneca feita de tecido, originária da cultura iorubá e trazida ao Brasil durante o período da escravidão. O nome significa "aquele pelo qual vale a pena sofrer" em iorubá. A tradição diz que os tecidos usados eram retalhos das roupas dos escravizados, trançados com as próprias mãos das mães para confortar as crianças. Cada dobra e nó carregava um pedaço de resistência. Não existe um exemplar original conservado em museu que documente a primeira versão — as primeiras referências escritas vêm de relatos orais collectados no século XX no Recôncavo Baiano e em comunidades quilombolas de Minas Gerais. Isso já mostra por que muitos professores têm dificuldade em encontrar fontes confiáveis.Quando trabalho com turmas de educação infantil, começo sempre explicando que a boneca não é um brinquedo comum. Ela não tem olhos desenhados, não tem roupa bonita. O rosto é apenas um nó no tecido. Para uma criança de quatro anos, isso parece estranho no início. Já vi varias vezes uma criança perguntando se a boneca estava com medo porque nãovia nada. A resposta que dou é simples: ela enxerga com as mãos. O tato substitui a visão porque o tecido carrega o calor da pessoa que fez. Esse detalhe costuma funcionar melhor do que qualquer justificativa teórica sobre identidade cultural. O tecido tradicional é o chita ou flanela, mas muitas professoras improvisam com retalhos de camisetas velhas. Isso não é ideal. A flanela mantém a forma do nó por mais tempo e não desfia. O algodão comum desgasta rápido e as crianças rasgam. Já perdi três bonecas em uma semana porque usei tecido de sisa que não tinha elasticidade. A solução que adotei foi comprar flanela de boa qualidade em revendedores de São Paulo — o custo fica entre R$ 12 e R$ 18 por metro, e rende para cerca de cinco bonecas. Compensa.
Existem variações regionais. No Nordeste, especialmente na Bahia, a boneca Abayomi é chamada de boneca de trapos e o método de nós difere levemente do modelo sul-mineiro. No Sudeste, influenciada por movimentos de resgate cultural dos anos 1980, a versão padronizada ganhou circuitos de oficinas em centros culturais. Conheço uma artesã em Itaberiba, Bahia, que ensina o modelo tradicional desde 2003. Os alunos dela produzem em média oito bonecas por oficina de três horas. Se você estiver fora do eixo Salvador-Itaberiba, encontre vídeos de oficinas registradas no canal da Secretaria de Cultura da Bahia ou procure por "oficina Abayomi" + nome da sua cidade. A narrativa histórica precisa ser adaptada. Ensinar que a boneca nasceu da escravidão para uma turma de cinco anos exige cuidado. Não se trata de esconder a violência, mas de apresentar de forma que a criança consiga processar. Eu uso a seguinte abordagem: primeiro mostro a boneca, deixo que toquem, depois conto que ela foi feita por mães que não podiam comprar brinquedos. A ideia central é a criatividade diante da dificuldade. O conceito de resistência entra naturalmente, sem precisar mencionar violência explícita. Crianças menores absorvem a emoção da história mais do que os fatos históricos em si.
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Um problema recorrente é a diferença entre fazer a boneca como artesanato e fazer como parte de uma sequência pedagógica. Muitas professoras param no passo do nós e acham que cumpriram o objetivo. O trabalho com a Abayomi ganha sentido quando integrado a projetos maiores. Trabalho com uma colega que desenvolveu um projeto chamado "Minha mão faz história", onde as crianças fabricam suas próprias mini-bonecas Abayomi em tecido de algodão cru e depois escrevem — ou ditam — uma pequena história sobre quem fez para quem. O ditado é registrado pela professora e virou livro coletivo da turma. Leva cerca de quatro aulas. O resultado é um acervo que as crianças levam para casa e que permanece como objeto de afeto. O material didático pronto é escasso. Não existe um livro infantil amplamente reconhecido que trate especificamente da Abayomi de forma completa. Há alguns trabalhos isolados, como "Bonecas de Tecido" de Maria Aparecida Silva, lançado em 2011 pela editora Funag, mas a tiragem foi pequena e hoje é difícil encontrar exemplares novos. O mais próximo de um guia prático são os manuais de oficinas produzidos por centros culturais baianos, disponíveis gratuitamente em sites institucionais. Procure por "manual oficina boneca abayomi site:gov.br" no Google. Geralmente encontram-se PDFs com passo a passo ilustrado.
As limitações são reais. A Abayomi não é uma ferramenta universal. Em comunidades onde a presença iorubá é distante do imaginário cotidiano das famílias, a história pode parecer desconexa. Já observei turmas no Rio Grande do Sul onde as crianças não conseguiram se identificar com a narrativa porque não tinham nenhum referente cultural próximo. Nesses casos, a alternativa é adaptar: propor a criação de bonecas de retalhos com temas locais — animais da região, objetos do cotidiano da comunidade — mantendo a técnica de nós, mas alterando o contexto narrativo. A técnica em si é o que tem valor pedagógico, não exclusivamente a origem baiana. Outra limitação é o tempo de produção. Fazer uma Abayomi completa leva de vinte a trinta minutos para quem já tem prática. Para uma turma de vinte crianças, isso significa duas ou três aulas, dependendo da faixa etária. Turmas menores, com crianças mais novas, demandam acompanhamento individualizado. O ideal é trabalhar em duplas ou trios, com rodízio de funções: uma criança segura o tecido, outra faz o nó, outra corta. Assim o tempo cai para aproximadamente quinze minutos por grupo.
Sobre a origem exata, há divergências acadêmicas. Alguns pesquisadores situam o surgimento no século XVII, outros no século XVIII, com registros mais firmes a partir do século XIX. Não há consenso. O que se sabe com segurança é que a tradição persistiu oralmente e que houve um ressurgimento organizado a partir dos anos 1970, impulsionado por movimentos negros e estudiosos como Edison Carneiro. Se você for citar datas em material didático, prefira usar o século XX como marco de difusão ampla, deixando o período anterior como "origem provável" — isso evita imprecisões. Para registrar a atividade em portfólio ou documento pedagógico, sugiro fotografer as crianças durante o processo, coletar depoimentos orais ditados e preservar uma boneca produzida por cada criança como objeto de análise posterior. A avaliação não deve focar na beleza do produto final, mas na participação, na capacidade de colaboração e na compreensão da ideia central: que objetos podem carregar memórias e afetos.