Como funciona uma quadrilha na prática
Entendendo a história da quadrilha junina e sua estrutura real
A quadrilha tem origem na dança de salão europeia do século XVIII, especificamente no cotilhão francês e na quadrille inglesa, trazidas ao Brasil no final do período colonial. A versão que conhecemos hoje começou a se solidificar em meados do século XIX, principalmente nas fazendas do interior de São Paulo e de Minas Gerais, onde o elite agrária organizava festas em honra a São João com músicas, danças e rituais adaptados da nobreza portuguesa. O que acontecia lá no campo era uma releitura campestre dos passos acadêmicos, misturada com elementos africanos e indígenas que os trabalhadores escravizados e libertos trouxeram consigo. Essa síntese cultural resultou numa dança coletiva distinta, com estrutura própria, comandos em português e uma narrativa teatral embutida. A estrutura clássica envolve quatro a oito casais dispostos em quadrilátero. Cada figura tem um nome e um comando vocal chamado grito. Os mais comuns são: retorta, cruzeta, ponte, corrediça, caracoles, corrente, oito, cadeia, frente e volta, salpicão, rosas e brancas, e as duas senhoras. Esses comandos direcionam os casais para padrões geométricos específicos dentro da pista. Um coreógrafo experiente consegue encaixar até doze figuras em sequência sem perder o ritmo, mas um iniciante geralmente trava já na transição entre ponte e caracóis.
O que poucos percebem é que a quadrilha não é apenas uma sequência de passos. Ela conta uma história. A narrativa típica segue três atos: o comissão de frente apresenta a quadrilha e seu tema; a entrada mostra os personagens principais (noivo, noiva, padrinho, madrinha, capangas, cura); e o casamento, que pode ser real ou farsesco, encerra a apresentação. O casamento cômico é onde a quadrilha ganha seu tom único no Brasil — o noivo traído, os capangas brigando, o vigário brincando. Isso diferencia a quadrilha das danças de salão europeias originais, que nunca tinham esse conteúdo performativo. A música evoluiu junto. Nos primórdios, tocavam-se quadrilhas europeias com banda de música ou violão. No decorrer do século XX, o forró pernambucano e paulista dominou o repertório, especialmente com sanfona, zabumba e triângulo. Nas últimas décadas, a quadrilha funkeira e a quadrilha Eletrônica, que mantêm os comandos tradicionais mas usam batidas de funk ou eletrônica. Do ponto de vista Coreográfico, isso não muda a execução dos gritos — o comando "corrente" continua sendo o mesmo passo, independentemente do gênero musical de fundo. O que muda é a velocidade e a intensidade, e muitas vezes a velocidade aumenta a ponto de os iniciantes não conseguirem fechar a figura no tempo certo.
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Se você está organizando uma quadrilha pela primeira vez, o erro mais comum é tentar aprender todos os gritos antes de ensaiar qualquer sequência. Eu já vi grupos inteiros gastarem semanas decorando comandos soltos sem jamais executá-los encadeados. O resultado é que, na hora do show, todo mundo lembra o passo individual mas ninguém sabe quando entra qual figura. O correto é aprender dois ou três gritos por vez, ensaiar a transição entre eles repetidamente até virar automático, e só então adicionar mais um. Um grupo de oito casais leva cerca de quatro semanas de ensaios semanais de duas horas para montar uma quadrilha de competição nivel médio com solidez. Outro ponto negligenciado é o aspecto geográfico. A quadrilha não surgiu como uma tradição uniforme. No Nordeste, especialmente em Campina Grande e Recife, o estilo é mais acelerado e a coreografia inclui mais variações de passo. No Sudeste, particularmente em São Paulo interiorana, prevalece um andamento mais moderado com figuras mais longas e elaboradas. No Centro-Oeste, há influência de danças caipiras e usagem frequente de trajes típicos rurais mais autênticos. Se você está pesquisando a história da quadrilha junina e quer fontes confiáveis, evite generalizações — busque estudos regionais específicos. O trabalho da pesquisadora Tânia Mello sobre a quadrilha em Campinas, por exemplo, mostra como a imigração italiana no final do século XIX influenciou os figurinos e a organização social das festas juninas na região, algo que poucos manuais básicos mencionam.
A parte prática que ninguém ensina: os comandos precisam ser projetados para serem ouvidos sobre a música. Um gritador ruim fala baixo, fala rápido demais, ou dá o comando antes de os dançarinos terminarem a figura anterior. Isso quebra a coreografia na hora. A solução é treinar o gritador separadamente, com cronômetro, garantindo que cada comando seja dado exatamente no beat correto. Isso reduz erros de execução em cerca de sessenta por cento em grupos iniciantes. A comercialização das festas juninas também transformou a prática. Festas como a de Campina Grande e a de João Pessoa atraem milhares de participantes e jurados, o que padronizou certos estilos coreográficos. Quadilhas que antes eram puramente comunitárias e variavam localmente hoje seguem templates de competição com critérios específicos: originalidade, execução técnica, figurino, e integração teatral. Isso tem um lado positivo — eleva o nível técnico geral — mas também tende a homogeneizar as variações regionais que antes davam alma a cada apresentação. Em contrapartida, existem movimentos de preservação que buscam resgatar quadrilhas tradicionais com coreografias do início do século XX, usando músicas originais de lambada e modinhas em vez de forró moderno.
Acredito que o valor real da quadrilha não está na perfeição técnica dos passos, mas na capacidade dela reunir comunidades inteiras em torno de uma atividade coletiva que exige coordenação, memória e prática compartilhada. A história dela mostra como uma dança de elite europeia foi apropriada, transformada e tornada significativa por pessoas que nunca tiveram acesso aos salões de baile originais. Esse processo de reapropriação cultural continua acontecendo, e a quadrilha moderna carrega essa camada de transformação em cada grito e cada figura executada.