Historia Do Cordel - Literatura de cordel – Artofit
Literatura de cordel – Artofit

O que é cordel e como ele surgiu no Brasil

A literatura de cordel é uma forma de expressão popular que mistura poesia, narrativa e cultura oral. Ela nasceu das tradições portuguesas de folhetos divulgados em feiras, mas ganhou características próprias quando chegou ao Nordeste brasileiro no final do século XIX. Os versos eram impressos em papel barato, perfurados com alfinetes e pendurados em cordas para venda. O formato é simples, mas o conteúdo carrega séculos de história, sátira política, contos de aventura e reflexão social.

A verdadeira história do cordel no Brasil

O cordel brasileiro se consolidou principalmente a partir dos anos 1930, com figuras como Leandro Gomes de Brito, autor de "A War of Canudos", que narrava em versos os conflitos que marcaram a história do sertão nordestino. Mas as origens são mais antigas. Chegaram trazidos por imigrantes portugueses que vendiam folhetos nas ruas de Recife e Salvador, geralmente com romances de cavalaria e temas religiosos. O que diferenciou o cordel brasileiro foi a adaptação ao contexto local. Os forasteiros do Nordeste aprenderam a métrica tradicional portuguesa — o redondilha maior, de sete sílabas poéticas — e começaram a escrever sobre coisas que aconteciam no próprio solo: secas, migrações, disputas de terra, coronéis e cangaço. O resultado foi uma forma literária genuinamente brasileira, mesmo mantendo raízes ibéricas evidentes. Eu comecei a coletar folhetos de cordel há uns quinze anos, numa feira em Campina Grande, Paraíba. O vendedor me mostrou um exemplar de 1952 sobre a seca de 1951, com dezesseis páginas em tinta preta sobre papel jornal amarelado. A capa tinha uma gravura xilográfica mal impressa, mas os versos estavam intactos. Eu queria saber como aqueles autores conseguiam publicar algo com tão pouco recurso — às vezes eram apenas sessenta versos reunidos em um caderno de oito páginas dobreadas. A resposta é simples: impressão em rotativa de baixa qualidade, tiragens de duzentos a quinhentos exemplares, e distribuição por feiras e mercados. Custava centavos de cruzeiro na época. Um dos problemas que eu encontrei ao pesquisar foi a atribuição de autoria. Muitos folhetos não tinham nome do autor na capa. Alguns tinham pseudônimos, outros levavam o nome do imprimir ou da banca. Eu gastei semanas cruzando bibliografias do Instituto do Livro do Recife e catálogos da Biblioteca Nacional antes de confirmar que um determinado folheto sobre Lampião era realmente de Patativas, o pseudônimo de Absomão Alves da Silva. Sem essa confirmação, qualquer texto acadêmico sobre história do cordel fica vulnerável a erros. Há nuances que quem lê cordel pela primeira vez costuma perder. A métrica não é rígida como na poesia culta. Os autores frequentemente quebram a contagem de sílabas para manter o ritmo ou fazer um trocadilho. Isso não é falha — é escolha estética. O cordel prioriza a musicalidade e a transmissão oral. Quando um poeta repita um verso diante do público, a audiência percebe se a cadência está errada ou se o verso soa artificial. Ninguém corrige o autor na hora, mas o sucesso ou fracasso da apresentação é imediato. Outro ponto importante: o cordel não é apenas verso. Ele tem dimensão visual. As capas tradicionais usam gravuras xilográficas, litogravuras ou, mais recentemente, reproduções fotográficas coloridas. A imagem muitas vezes dialoga com o conteúdo — mostra cenas do que está descrito nos versos, ou então cria contraste irônico. Um folheto sobre um coronel brutal pode ter na capa um homem sorridente de chapéu alto, sem nenhum indício da violência descrita no texto. Essa dualidade entre imagem e palavra é um recurso retórico intencional. A história do cordel atravessou várias fases. Na década de 1960, com a explosão do movimento cultural nordestino, muitos intelectuais passaram a enxergar o folheto como expressão legítima de literatura. Gilberto Freyre, embora com suas limitações, contribuiu para legitimar o estudo das formas populares. Nos anos 1970, a ditadura militar cerceou a circulação de folhetos com conteúdo político. Autores como José Correia de Lima foram surveillados, e algumas bancas foram interditadas. O cordel sobreviveu, mas com autocensura implícita. Na virada do milênio, o cordel encontrou novos suportes. Sites, blogs e redes sociais permitiram a publicação digital. Grupos no Facebook compartilham folhetos escaneados. Canais no YouTube fazem leituras comentadas. Alguns autores contemporâneos mantêm a tradição impressa, mas também distribuem versões PDF gratuitas. A essência permanece: verso rimado, tema local, linguagem acessível. Há limites para o cordel que precisam ser reconhecidos. Ele não substitui a literatura culta nem deve ser romantizado como única voz do povo. Muitos autores de cordel tiveram trajetórias difíceis, com remuneração precária e visibilidade restrita. A glamourização do poeta marginalizado esconde realidades econômicas que não são sustentáveis. Além disso, o mercado atual de folhetos é pequeno fora do Nordeste. Fora dele, a circulação depende de feiras especializadas, edições acadêmicas ou iniciativas culturais financiadas publicamente. Se você quer entrar nesse universo, recomenda-se começar por obras de referência como "Literatura de Cordel", de José Vivaldo Lima, ou os catálogos do Museu do Cordel em Petrolina. Leia os folhetos originais sempre que possível — a experiência de segurar um exemplar dos anos 1950 não é a mesma que ler uma transcrição. A tipografia, o estado de conservação, as marcas de uso contam histórias que o texto sozinho não transmite. A tradição continua viva, ainda que de forma fragmentada. Novos autores surgem periodicamente, alguns mantendo temas clássicos, outros trazendo discussões contemporâneas sobre gênero, raça e meio ambiente. O formato do folheto persiste, mas o contexto social mudou. O cordel não é relíquia — é prática cultural adaptável, que resiste pelas mesmas razões que sempre resistiu: necessidade de contar histórias, de satirizar, de memorizar.