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História do Pará

O que você precisa saber antes de começar a estudar história do pará

A maioria das pessoas que tenta montar uma linha do tempo sobre o estado do Pará começa pelos livros didáticos e se perde nos primeiros quinhentos anos. A confusão principal é que o Pará já foi um território muito maior que o atual. O Tratado de Madri, em 1750, e depois o Tratado de Santo Ildefonso, em 1777, redefiniram fronteiras que eram completamente diferentes do que chamamos de Pará hoje. Se você estiver pesquisando documentos coloniais e não levar isso em conta, vai encontrar referências a lugares que hoje estão em estados vizinhos e não vai conseguir localizar nada. Aqui vai um problema real que eu encontrei na prática. Eu estava cruzando dados de mapas do século XVIII com registros de propriedade de terras no Arquivo Público do Estado do Pará. Os nomes das povoações mudavam constantemente. Um mesmo assentamento aparecia como Belém do Grão-Pará, São José do Pará, e depois apenas Belém, dependendo da época do documento e de quem o escreveu. Minha solução foi criar uma tabela de equivalência baseada nas datas dos registros. Documentes anteriores a 1616 geralmente se referem aos povoados tupis antes da fundação portuguesa. Entre 1616 e 1751, a denominação oficial era Estado do Grão-Pará e Maranhão. Depois de 1751, com a separação administrativa, passou a ser simplesmente Grão-Pará. Anotar essas variações no início do seu trabalho evita semanas de pesquisa perdida.

Como abordar a história do pará de forma prática

O primeiro passo é entender a periodização. Alguns autores dividem em três períodos: pré-colonial, colonial e republicano. Outros preferem quatro, incluindo um período de crise imperial entre 1821 e 1823. Eu uso uma divisão baseada nos marcos econômicos, que é mais útil para pesquisa aplicada. O período amazônico vai de antes de 1616 até a criação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão em 1755. O período pombalino vai de 1755 a 1821. O ciclo da borracha abrange de 1879, com a lei que permitia a entrada dos seringueiros, até 1912, quando o preço mundial despencou. O período modernizador vai de 1940 até os dias atuais. Os documentos primários estão espalhados. O acervo mais completo fica no Arquivo Público do Estado do Pará, em Belém. Mas muitos documentos militares e da administração colonial estão no Arquivo Histórico Ultramarino, em Lisboa. Se você não fala português de pesquisa arquivística, vai travar. Os funcionários do arquivo brasileiro são competentes, mas o atendimento é lento. Eu levei dois meses para conseguir digitalizar uma pasta de correspondência do governador Francisco do Rego Barros. O prazo normal é de sessenta dias úteis, mas recomenda-se enviar um ofício solicitando a prioridade com base em tese acadêmica em andamento. Funciona em cerca de setenta por cento dos casos.

O segundo ponto que os iniciantes ignoram é a questão indígena. A história do pará tradicional foca excessivamente nos padres carmelitas e nos missionários franciscanos como agentes de catequese. Os registros mostram que os povos tapajós, tiriqwots, e xicrin foram deslocados ou dizimados antes mesmo da fundação de Belém em 1616. Mais importante ainda: muitos desses grupos tiveram resistência organizada que não aparece nos livros didáticos. A Guerra dos Bárbaros, no início do século XVII, envolveu uma coalizão de povos indígenas que resistiu ao avanço português por décadas. Só depois da chegada das tropas de João da Figueira Melo, com apoio de aliados tupinambás do litoral, é que o confronto mudou de figura. Outro insight que não encontro em resumos gerais: a independência do Pará em 1823 foi um processo diferente do resto do Brasil. Enquanto o resto do país declarou independência em 1822, o Pará permaneceu leal à Coroa portuguesa até setembro de 1823. Isso gerou um conflito interno que ficou conhecido como a Emancipação Política, liderado por José da Gama Lobo d'Almeida. O resultado foi a integração tardia ao Brasil imperial, mas com autonomia administrativa considerável. Esse episódio explica por que o norte do Brasil teve um desenvolvimento institucional diferente do sudeste nas primeiras décadas do século XIX.

O ciclo da borracha trouxe industrialização precoce para Belém e Manaus. Entre 1890 e 1910, a cidade de Belém tinha rede de bondes elétricos, iluminação pública, e um teatro com capacidade para mil pessoas. A elite local importava óperas inteiras da Europa para apresentação nos teatros da cidade. Esse fato costuma surpreender quem cresceu pensando que a região sempre foi atrasada. A queda do preço da borracha não acabou com a infraestrutura, mas cortou o financiamento público. O que restou foi um estado que manteve parte da estrutura urbana mas perdeu capacidade de expansão. Na década de 1960, o governo militar criou a Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia (SUDAM). O projeto de integração nacional previa rodovias, zonas francas, e migração controlada. A Transamazônica e a BR-163 foram construídas nessa época. O custo humano e ambiental foi alto. Milhares de famílias migraram do nordeste e do sul do país, muitas desembarcando sem infraestrutura básica. A fome e a exploração de terras públicas foram problemas documentados desde o início dos anos 1970.

Se você está começando uma pesquisa, recomendo começar pelo site do IPHAN, que tem o inventário do patrimônio edificado da região. A biblioteca digital da Universidade Federal do Pará também disponibiliza teses e dissertações sobre temas específicos. Para dados demográficos, o IBGE mantém séries históricas que começam em 1872. O problema é que os recenseamentos anteriores a 1940 são incompletos para a zona rural. A população indígena foi sistematicamente subnotificada até os anos 1980. Cross-check com registros paroquiais resolve parcialmente essa lacuna, mas exige paciência.

Fontes confiáveis e onde encontrar material

O catálogo do Arquivo Público do Pará tem cerca de duzentos mil documentos digitalizados. O restante está em papel e precisa ser consultado presencialmente. O acervo fotográfico é particularmente rico para o período de 1890 a 1950. A Biblioteca Nacional também tem cópias de mapas e plantas da região amazônica nos fundos do Ministério do Exterior. Para o período colonial, os autos judiciais do Tribunal da Relação do Grão-Pará são uma fonte subutilizada. Eles contêm processos criminais, disputas de terra, e casos de tráfico de escravizados. O volume é grande e a escrita manuscrita exige prática de paleografia. Eu passei três meses aprendendo a ler a caligrafia dos cartórios paraibanos do século XVIII antes de conseguir extrair dados consistentes. Vale o esforço porque esses documentos revelam dinâmicas sociais que os registros oficiais ignoram.

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Um erro comum é tratar o Pará como um todo homogêneo. O estado tem dimensões continentais. A realidade de Santarém é diferente de Marabá, que é diferente de Altamira, que é diferente de Belém. Cada micro-região teve trajetórias econômicas distintas. O oeste do Pará foi marcado pela extração de castanha e pela presença de comunidades ribeirinhas com autonomia relativa. O sul foi definido pela mineração e pela pecuária. O esteiro amazônico concentrou o poder político e comercial. Não existe uma história única do Pará. Existe um conjunto de histórias regionais que se sobrepõem de formas complexas. Os conflitos fundiários dos anos 1990 e 2000 têm raízes diretas nas políticas de Colonização da SUDAM. O caso de Porto de Moz é um exemplo. A reforma agrária nesse município gerou confrontos que duraram décadas. As fontes oficiais tendem a minimizar a violência. Relatórios de organizações locais e ONGs ambientais oferecem uma visão mais completa, mas exigem verificação cruzada. Eu li relatórios da Pastoral da Terra, do IMazon, e do Conselho Indigenista Missionário para construir uma linha do tempo dos conflitos. Cada uma dessas fontes tem viés próprio. O importante é comparar.

O desmatamento é outro tema que exige cuidado. Dados do INPE mostram aceleração a partir de 2004, com pico em 2004 e novos aumentos em 2016 e 2019. Mas os números de desmatamento não capturam degradação florestal, que é igual ou mais relevante ecologicamente. Uma floresta degradada continua de pé mas perdeu capacidade de sequestro de carbono e biodiversidade. Pesquisadores como Perz e Rosenfeld publicaram métricas alternativas que valem a consulta se você está fazendo análise ambiental.

Erros comuns que você deve evitar

O principal erro é usar terminologia anacrônica. Chamar os povos indígenas de "tribos" sem qualificar o termo é um anacronismo. A palavra "tribo" carrega conotações etnocêntricas que não se aplicam às organizações sociais amazônicas do século XVI. Os tupis tinham estruturas política complexas com chefias hereditárias e alianças militares. Reduzir isso a "tribo" é simplificação inadequada. Outro erro frequente é tratar a expulsão dos jesuítas em 1759 como um evento isolado. Ela faz parte de um programa mais amplo de racionalização administrativa iniciado por Pombal. A fundação da Companhia de Comércio do Grão-Pará e Maranhão em 1755, a transferência da capital de São Luís do Maranhão para Belém em 1772, e a criação das missões seculares após 1759 são peças do mesmo quebra-cabeça. Entender isso muda completamente a interpretação do período.

A literatura sobre a independência do Pará muitas vezes omite o papel dos escravizados africanos e seus descendentes. Os relatos oficiais mencionam os intelectuais liberais e os militares. Mas os registros policiais mostram que houve motins e deserções de soldados escravizados durante o conflito de 1821-1823. Esses movimentos são marginalizados na historiografia tradicional mas são centrais para uma compreensão completa do período. Se o seu interesse é mais prático, como consultoria ou mapeamento de territórios, o INCRA mantém cadastros de assentamentos que remontam aos anos 1970. O sistema é fragmentado e os dados não são todos digitais. A melhor abordagem é solicitar informações por meio de pedidos de acesso à informação, usando a Lei de Acesso à Informação. O prazo de resposta é de vinte dias. Na prática, leva de trinta a sessenta dias porque os órgãosregionais frequentemente pedem prorrogação.

Para quem quer ir além do básico, recomendo o livro "História do Pará", organizado por Emília Viotti da Costa e outros, publicado pela Editora da Unicamp. Também vale consultar os anais do Museu Paraense Emílio Goeldi, que publicam artigos atualizados sobre arqueologia, etnografia e história regional. O periódico é acessível online e não requer assinatura para a maioria dos artigos. A linha do tempo mínima que eu recomendo para qualquer estudo sério sobre história do pará começa em 1616 com a fundação de Belém, passa por 1750 com o Tratado de Madri, 1755 com a Companhia de Comércio, 1759 com a expulsão dos jesuítas, 1823 com a emancipação política, 1879 com a abertura do mercado de borracha, 1966 com a criação da SUDAM, e chega aos dias atuais com os debates sobre desenvolvimento versus conservação. Entre cada marco existem décadas de processos históricos que merecem atenção própria.

Eu diria que o mais importante é manter o ceticismo em relação às narrativas unificadoras. O Pará nunca foi uma unidade coesa. Foi um agregado de regiões com interesses conflitantes, governado por centros de poder que nunca conseguiram controlar efetivamente o interior. Reconhecer isso desde o início evita frustração e direciona a pesquisa para perguntas mais produtivas.